quinta-feira, 15 de abril de 2021

O CRESCIMENTO ATUAL DA ECONOMIA PORTUGUESA

 O balanço do crescimento da economia portuguesa entre 1999- ano da criação do euro- e 2026, o último ano das projeções do FMI, é que Portugal é um dos piores do mundo, e o terceiro pior da Zona Euro, apenas à frente dos "doentes", Itália e Grécia. Um cenário negro, mas é menos sombrio, quando se olha para a recuperação da crise pandémica de 2021.Os dados históricos até 2020 e as projeções do FMI, até 2021, revelam um crescimento médio anual da economia portuguesa de 1,1% entre 1999 e 2026 segundo os dados do "World Economis Outlook" (WEO), do FMI. Penalizado pela "década perdida"- a primeira década do euro-, a dupla crise financeira e da dívida soberana, culminando na chegada da Troika- e, agora a crise pandémica, só 13  países da base do Weo, têm pior registo do que Portugal, sendo dois deles da Zona Euro, Itália e Grécia. A economia portuguesa, desde 1999, tem o pior desempenho, desde que lhe podemos chamar de economia desenvolvida. Houve períodos de recuperação, mais ou menos forte, que temporariamente são confundidos com o crescimento. Piores só a Grécia, que já acumula três resgates, e a Itália, que se afundou numa "batalha perdida". A lição da derrota italiana é que tem de se deixar que a economia se transforme, e não tentar preservar empregos, e, indústrias não competitivas. Olhando, para a recuperação da crise pandémica, a partir de 2021, e tendo em conta as projeções do Fundo até 2026, a taxa de crescimento médio anual sobe para 2,8%, e Portugal fica melhor posicionado à frente de 58países- incluindo os Estados Unidos- e a meio da tabela da zona euro, um padrão já verificado na recuperação da última crise, entre 2014 e 2019, quando essa taxa de crescimento atingiu 2,1%. Esta melhoria relativa portuguesa, até 2026 é reforçada por dois resultados, que distinguem Portugal, da maioria dos membros do euro. Segundo as previsões do "Fiscal Monitor", do FMI, as contas públicas irão voltar a registar excedentes a partir de 2024, partilhando essa situação, com apenas mais sete economias desenvolvidas, três das quais- Alemanha Chipre e Lituânia- do euro. E o nível da dívida pública no PIB vai sair do topo dos mais endividados do mundo e da zona euro.. Ocupando o quarto lugar mundial, depois do Japão, Grécia e Itália, em 2020, o peso da dívida portuguesa caiu  para o décimo lugar, sendo ultrapassado pela Bélgica, Espanha, Estados Unidos, França Reino Unido e Singapura. O reforço das contas públicas, pode ajudar a uma retoma económica mais robusta. Desta vez, vai ser diferente da crise da Troika. A economia devastada por duas recessões, quase seguidas desde 2009, só recuperou o nível de 2008, uma década depois. Agora, a recuperação será mais rápida, mas mesmo assim só em 2022, será atingido o nível de 2019, afirma o FMI,  em linha com a Zona Euro. O próprio recomeço da recuperação vai ser com contratempos, e o desenrolar de 2021, depende muito se o verão irá ser "ganho" ou "perdido". Apesar das previsões do FMI, até 2026, o problema principal português, não está resolvido. O padrão típico português, tal como em Itália e mesmo Espanha é uma taxa de crescimento da produtividade dos fatores nula, ou mesmo negativa, em grande parte do período do euro e a partir de 2011, há também uma forte descida na acumulação de capital. Há um padrão preocupante da queda da produtividade do trabalho, desde 2015. Também temos uma grande parte do emprego em setores com baixo crescimento de produtividade. Estamos no limiar da quarta revolução industrial, e temos que nos preparar para entrar na carruagem da frente. Precisamos de uma Administração Pública eficiente e de um  quadro fiscal que permita atrair investimento e reter talento. Precisamos também de melhorar o sistema de educação, da pré-primária, às universidades, para criarmos mais talento. Com a generalização do emprego à distância, os portugueses qualificados vão poder trabalhar em grandes empresas internacionais e viver em Portugal. Provavelmente, a crise levará uma transferência de recursos de empresas e atividades mais vulneráveis, para as mais robustas, havendo um aumento de produtividade, que irá ser o motor da recuperação e aumentar a taxa de crescimento potencial do PIB. A alteração de paradigma, de um modelo assente nos bens transacionáveis, virado para o mercado interno, para uma aposta nas exportações e no mercado externo, foi um símbolo de intervenção da Troika. Mas agora, os economistas não antecipam alterações de fundo, ao padrão de crescimento português. Consumo e investimento deverão ser os motores de crescimento e devem estimular  a recuperação da crise pandémica; e a retoma do turismo será crucial, mas pode demorar mais tempo. O padrão de crescimento após a crise pandémica, será semelhante ao que aconteceu até 2019. Tudo , porque desta vez, não houve queda do rendimento disponível, nem deterioração das condições financeiras, que levassem à destruição da capacidade produtiva, concentrada nalguns setores. Como resultado, consumo e investimento deverão ser os motores de crescimento. E, o consumo conta com a ajuda das poupanças das famílias, que com a pandemia atingiu o nível mais elevado desde 2002, e, será em parte, libertada. Quanto ao investimento, será incentivado, pelo "boom" industrial, a nível mundial; condições propícias na construção, com baixas taxas de juro, e liquidez abundante; e os fundos europeus, associados ao "Gren Deal", apontando o turismo, como grande incógnita, já que a recuperação depende do fim das restrições à circulação. Numa primeira fase, os maiores contributos, serão do consumo privado e exportações, à medida que o turismo recupera. Posteriormente, o investimento deverá originar também um contributo importante, refletindo o reforço esperado da execução dos fundos comunitários. Segundo opinião de alguns economistas, a recuperação virá inicialmente do consumo. Já a sustentada, pelo Plano de Recuperação e Resiliência, se vier a funcionar, será mais baseada em investimento. Os motores da recuperação em 2021, virão sobretudo da procura interna, com o consumo privado a dar o primeiro impulso, e, posteriormente as exportações, com um possível aumento do turismo.. A curto prazo, iremos ter também uma recuperação das exportações e do comércio a retalho, seguida da recuperação do turismo. Há 10 anos, em 2011, Portugal não tinha meios para cumprir os seus compromissos financeiros, para liquidar os salários dos funcionários públicos e para pagar as pensões aos reformados. A par de uma crise financeira internacional, a bancarrota de 2011, foi o culminar de um conjunto de opções políticas e de erros de governação que prejudicaram o crescimento económico, fizeram disparar a despesa pública e tornaram a dívida pública insustentável. Nesse momento, o Governo de então, foi obrigado a pedir assistência financeira internacional, mergulhando o país na terceira cise de insolvência em 40anos de democracia. Passada uma década sobre este acontecimento, em que Portugal perdeu a sua credibilidade perante o exterior, e, houve muitas consequências sociais económicas e financeiras na vida dos portugueses, urge analisar a situação atual do país à luz das lições de 2011. Há 10 anos, o país tinha estagnado em termos de crescimento económico(com uma taxa média anual de crescimento do PIB de apenas 0,7% entre 2000 e 2010, e apresentava um enorme défice nas suas contas externas que ultrapassava 10% do PIB. O excessivo endividamento externo resultou principalmente da falta de políticas de apoio à internacionalização das empresas portuguesas e à promoção das exportações, desequilibrando fortemente a balança comercial. Em 2020, o PIB afundou-se 7,6%, a maior quebra de riqueza um ano, desde que há estatísticas em Portugal e quase o dobro do que caiu no pico da anterior crise, a dívida externa voltou ao nível de 2011, em resultado dos efeitos da pandemia. A recuperação prevê -se mais longa e demorada. Desde 2016 não foram realizadas quaisquer reformas estruturais com o objetivo de estimular a produtividade e a competitividade internacional das empresas portuguesas. Pelo contrário, os retornos que assistimos na reforma laboral e da reforma do IRC, obrigam hoje as empresas portuguesas com uma das legislações laborais mais rígidas da Europa e a suportar a segunda taxa de IRC mais elevada da União Europeia. Portugal desceu várias posições no rendimento per capita(neste momento está à frente da Eslováquia, Letónia e Grécia), correndo o sério risco de se tornar o  país mais pobre da zona euro, nos próximos anos. O segundo fator que levou à bancarrota de 2011 foi o aumento enorme da despesa pública, que atingiu 0s 51,9% do PIB em 2010, com uma aumento exponencial da despesa pública primária, designadamente com salários da Função Pública. Em resultado destas opções políticas, o país haveria de registar um défice recorde de 11,4% do PIB em 2010, o que tornou insustentável a situação das contas públicas nacionais. Em 2020, o défice atingiu 5,7% do PIB, o que representou um desvio de 11.500 milhões de euros, em resultado da pandemia. Mas, mais importante, a despesa pública total cresceu significativamente desde 2016, não obstante, as sucessivas atrações e as drásticas reduções da despesa com juros, em resultado da assistência financeira permanente do BCE. Para se ter uma noção exata do problema, a despesa pública real cresceu de 83mil milhões em 2016, para 98 mil milhões em 2020, um aumento impressionante de 15mil milhões, em apenas cinco anos, o que colocou novamente a despesa pública, a rondar os 505do PIB.É verdade que em 2020, a despesa pública fi influenciada pela medidas covid, mas até 2019, os gastos reais do Estado, já atingiam os 91 mil milhões, tendo crescido 9%, face a 2016. E, no mesmo período (2016- 2020), as despesas com salários da Função Pública aumentaram 14%, em resultado de dezenas de milhares de novas admissões, reduções do horário de trabalho semanal para 35horas, progressões e aumentos salariais. E que continuam em 2021, não obstante o aumento das falências e do desemprego no setor privado. Por outro lado, a explosão da dívida pública, atingiu 0s 100%  do PIB em 2010 e tornou insustentável a posição de Portugal, perante os seus credores internacionais. Em 2016, a dívida pública ascendia a 239mil milhões de euros. Em 2020 disparou para 270mil milhões, ultrapassando os 133%do PIB, e o OE para 2021, prevê que possa chegar a 287 mil milhões. Quando o BCE for obrigado a subir as taxas de referência para conter riscos de inflação na UE, que margem terá Portugal para continuar a cumprir os seus compromissos financeiros?

Após alguns meses depois do início do desconfinamento, a informação sobre a evolução da economia portuguesa é ainda parcelar. Os economistas usam a expressão "acentuada dinâmica" da atividade económica. Com a pandemia a recuar, a vacinação a acelerar, o país a reabrir, a confiança dos consumidores aumentou significativamente, segundo o INE, as compras na rede multibanco, subiram 70%, as vendas de automóveis ligeiros de passageiros, aumentaram 39% e o consumo de eletricidade cresceu 6,5%. Em março, a taxa de desemprego recuou para 6,5%, e , os novos créditos à habitação atingiram 1382milhões de euros, um recorde de2008. Há uma evolução positiva. O indicador diário da atividade económica do Banco de Portugal, que procura medir, quase em tempo real a evolução da atividade económica, é um dos sinais positivos. Em abril, a atividade económica, cresceu mais de 20% e acelerou na semana terminada em maio para 27,5%. A evolução positiva, reflete, "em parte", a procura suspensa (durante o confinamento), o que impulsionará a atividade nos próximos meses. O crescimento, poderá superar os 3,5% em cadeia, e, os 10% homólogos. No entanto, no médio prazo, o sustentar da economia pela procura interna, depende também da quebra de rendimento, pela destruição de emprego e empresas, cuja dimensão só mais para o final do ano, com o fim generalizado das moratórias, se irá perceber. Olhando para os setores mais afetados pela crise, como o turismo, a etapa final do desconfinamento, a 3 de maio, apanhou o Algarve, com a maioria dos hotéis fechados. Os portugueses com segunda residência e abertura de fronteiras ,com Espanha, e, o anúncio da lista verde com os ingleses poderem viajar sem quarentena, considerou-se Portugal, como o único país" seguro" na Europa do Sul. O efeito na procura foi imediato, e, animou as expetativas de um bom ano turístico.  A  retoma, apresenta "sinais animadores", mas não compensa o longo período de encerramento. O s estabelecimentos em zonas turísticas, como as Baixas de Lisboa e Porto, foram afetados também pelo teletrabalho, continuando a procura à restauração, onde há a preferência  por esplanadas, e maior procura nas zonas de menor densidade. O take-away veio para ficar, e, ir ao restaurante, tornou-se mais uma opção de fins de semana. é preciso esperar, para saber o que irá acontecer, no comércio e na restauração, a quem sobrevive apenas com "o balão de oxigénio dos apoios".

 


Sem comentários:

Enviar um comentário