sábado, 21 de janeiro de 2023

A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

Na realidade a probabilidade de nos mantermos abaixo de 2ºC da temperatura global é muito reduzida. Se tudo continuar na mesma, o mundo encaminha-se para um aquecimento de, pelo menos 3ºC até ao final do século Se mantivermos os níveis atuais de emissões globais, o orçamento de carbono, que nos resta para nos mantermos abaixo de 1,5ºC, esgotar-se-á dentro de seis anos.. De acordo com um inquérito recente das Nações Unidas, 64% da população mundial encara as alterações climáticas como uma emergência global. Então o que tem corrido mal até agora? Existe um problema fundamental no debate contemporâneo sobre as políticas climáticas: raramente aborda a desigualdade. As famílias mais pobres que emitem pouco CO2, anteveem corretamente maiores limitações à aquisição de energia. Já os decisores políticos temem represálias políticas, se impuserem medidas climáticas demasiado depressa. O problema deste círculo vicioso é que já nos fez perder demasiado tempo. A boa notícia é que podemos acabar com ele. Segundo dados de 2021, dez por cento da população que maior quantidade emite gases com efeito de estufa, é responsável por cerca de 30 toneladas anuais por pessoa, ao passo que metade mais pobre da população emite 1,5 toneladas anuais por pessoa. Ou seja: os 10% que mais emitem gases com efeito de estufa em todo o mundo são responsáveis por 50% de todas as emissões de gases com efeito de estufa, ao passo que metade mais pobre do mundo, apenas contribuiu com cerca de 12% da totalidade das emissões. Nas últimas três décadas, a parcela das emissões lançadas por 1% de emissões no pico da hierarquia(um grupo cinquenta vezes mais pequeno do que os 50% que compõem a metade menos emissora a nível global) passou de 9,5% para 12%. Quer isto dizer que embora, as desigualdades carbónicas ao nível global sejam colossais, o abismo entre o topo e o resto da população, tem vindo com o tempo, a aumentar.. Não se trata de uma mera divisão entre países ricos e pobres:.. existem emissores potentes nos países mais pobres e emissores muito fracos nos países ricos. Vejamos o exemplo dos EUA: os 50% de indivíduos mais pobres no seio da população norte -americana, emitem por ano cerca de dez toneladas de CO2 por pessoa, enquanto os 10%mais ricos emitem cerca de setenta e cinco toneladas por pessoa. Os ricos produzem um valor mais de sete vezes superior. O mesmo acontece na Europa, onde os 50% mais pobres emitem cerca de 5 toneladas por pessoa, ao passo que os 10% mais ricos emitem cerca de trinta toneladas um valor seis vezes superior.  As regiões mais pobres do mundo também exibem desigualdades significativas. De onde são oriundas essas desigualdades? Os ricos emitem mais carbono através de emissões diretas ( ou seja: o combustível com que abastecem os automóveis), mas também dos bens e serviços que consomem, bem como dos investimentos que fazem. Os grupos com rendimentos baixos emitem carbono, quando usam veículos ou aquecem as casas, contudo as suas emissões indiretas, ou seja, as relacionadas com as compras e os investimentos, são substancialmente mais baixas do que as dos ricos. Segundo o World Inequality Report (2023),   metade mais pobre da população em cada país do mundo, quase não possui meios financeiros, o que significa que tem muito pouco ou nenhuma responsabilidade nas emissões associadas às decisões de investimento. Devíamos reduzir as emissões? Sim devíamos, mas é evidente que alguns grupos terão de se esforçar mais do que outros. Os mais pobres têm menor capacidade de descarbonizar o seu consumo. A conclusão lógica é que os ricos têm de contribuir mais pra cortar nas emissões e tem que ser dada aos pobres a capacidade pra enfrentar a transição para 1,5ºC ou 2ºC. Mas, não é isto que está a acontecer, Alguns países já ameaçaram planos para reduzir significativamente as emissões até 2030. e, a maioria está a planear alcançar emissões nulas em termos líquidos perto de 2050. Centramo-nos no objetivo de reduzir as emissões até 2030: segundo um estudo recente, em termos per capita, a metade mais pobre da população dos EUA e da maioria dos países europeus, já alcançou este objetivo. Uma forma de reduzir as desigualdades carbónicas, passa por estabelecer direitos individuais de carbono, semelhantes a formatos usados por alguns países, para gerir recursos ambientais limitados. Por exemplo em França nos períodos de forte escassez de água, é possível proibir por completo o uso, que não seja estritamente essencial (para beber, saneamento ou cozinhar) de recursos hídricos. Eta medida visa nivelar o consumo de água de forma igual por toda a população. Pra acelerar a transição energética, precisamos de ideias inovadoras. Imaginemos por exemplo, um imposto progressivo sobre a riqueza com um suplemento para a poluição. Isto iria agilizar a eliminação dos combustíveis fósseis, porque tornava mais dispendioso o acesso ao capital por parte das indústrias de exploração de combustíveis fósseis, porque tornava ainda mais dispendioso o acesso ao capital por parte das indústrias de exploração de combustíveis fósseis. Oferece ainda a possibilidade de gerar vastos rendimentos para os governos, que poderiam ser investidos no setor da ecologia e da inovação. Estes impostos seriam mais equitativos, uma vez que recaem numa fração da população e não na maioria. Um imposto modelo sobre a riqueza aplicado aos multimilionários com um suplemento para a poluição podia gerar ao nível mundial, 1,7% do rendimento global. Este rendimento podia financiar o grosso dos investimentos adicionais necessários, todos os anos, ao cumprimento dos esforços de mitigação das alterações climáticas. Seja qual for o caminho seguido pelas sociedades, para acelerar a transição , está na hora de reconhecer que a descarbonização profunda não é possível sem uma redistribuição ainda mais profunda do rendimento e da riqueza.

domingo, 15 de janeiro de 2023

A INFLAÇÃO E A SUBIDA DOS JUROS

  Temos vindo a falar de uma crise: há desafios económicos que enfrentamos Tais desafios não se refletem na explosão do desemprego ou num descontrolo das contas públicas, mas em saltos brutais dos preços, acompanhados de um aperto monetário agressivo. Mesmo sem recessão, 2023 pode ser um ano de sofrimento para as famílias portuguesas: os juros já atingiram em cheio as prestações da casa, mas ainda não serão capazes de tirar-lhe dos ombros o peso da inflação que crescerá a um ritmo mais baixo, mas ainda muito elevado. A economia em 2023 será apertada por uma tenaz: inflação muito elevada, que pressionará os orçamentos das famílias, e, as margens de muitas empresas, juros com saltos inéditos que aumentarão as prestações do crédito e desincentivarão as empresas a investir. O consumo não contribui para o crescimento da economia em 2023, e, as exportações de serviços darão um contributo seis vezes menos do que em 2022. Haverá perdas de poder de compra. A partir da 2ªmetade de 2023, a atividade acelera, refletindo a expetativa de atenuação das tensões nos mercados energéticos, a recuperação gradual do rendimento real das famílias, a melhoria da procura externa e a normalização das cadeias de abastecimento globais. Portugal não estará sozinho nas dificuldades a enfrentar no ano de 2023. O pessimismo é transversal a todo o mundo desenvolvido. O FMI estima um crescimento de 2,7% da economia mundial com a zona euro, a ficar-se pelos 0,5%. Menos afetado pela crise energética, Portugal terminou 2022 com o segundo maior crescimento da zona euro. Para 2023, mesmo a estimativa mais pessimista (0,7% da Comissão Europeia) fica muito acima da média prevista pela mesma instituição para a zona euro(o,3%). A incerteza é no entanto, enorme e, estes valores não estão assim tão longe de uma estagnação ou contração do PIB. Na conjuntura atual, em que o PIB tem tido oscilações muito significativas, devido à rigidez das políticas sanitárias, devemos pensar numa recessão apenas, se o desemprego começar a aumentar de forma rápida. Para que isto aconteça, serão necessários alguns desenvolvimentos mais negativos do que o que prevemos, principalmente na guerra a leste e no mercado da energia. O Banco de Portugal fez uma espécie de stresse à economia mundial. Este cenário adverso traduz-se num corte total no fornecimento de gás e de petróleo russos à Europa e uma maior lentidão na substituição de fontes de energia. Implicaria racionamento e cortes de produção na Europa, o que afetaria outras cadeias de produção e abastecimento. O reflexo em Portugal, chegaria sob a forma da procura externa por bens nacionais e de uma penalização do turismo. O preço do petróleo aumentaria, assim como o gás que neste cenário dispararia. A conta de supermercado voltaria a aumentar muito e os juros subiriam mais do que se prevê atualmente. O mundo atravessa aquele que é provavelmente o mais abrangente apoio monetário de sempre, As subidas devem continuar em 2023, mas há muitas dúvidas se esse caminho está ser seguido com determinação suficiente, ou se, pelo contrário há excesso de zelo dos bancos contrário para compensar a tolerância com que agiram pré- 2022. Os bancos centrais esperam conseguir executar um número de equilibrismo: controlar os preços se atirar a economia para o charco. Chamam-lhe " aterragem suave" Neste ano, os efeitos das suas ações ficarão mais evidentes, à medida que os juros apertarem as famílias com créditos, provocarem falências de empresas e o agravamento do desemprego. Para os governos, é também um ambiente difícil de geris. Têm de apoiar a população num momento de maior fragilidade, mas serão censurados se forem demasiado longe, devido às preocupações com o equilíbrio das contas públicas, ou por estarem a contribuir para manter a inflação elevada ao estimularem a procura. O combate à inflação é o momento de encruzilhada deste ano e num contexto de mercado de trabalho, a prioridade deve estar na redução da dívida. A palavra que irá marcar o mercado de trabalho em 2023, irá ser a palavra "incerteza". É cada vez mais consensual que os salários irão crescer a um ritmo inferior à inflação. Esta é quase uma certeza, dúvida é qual será o montante real de poder de compra. Este depende de dois fatores: da evolução da inflação e da capacidade negocial dos trabalhadores e dos seus representantes em pressionarem as empresas para aumentos salariais mais elevados. Porém estes fatores não são independentes: um é causa e efeito do outro.. As taxas de juro vão continuar a subir, até que o atual ciclo inflacionista mostre uma inversão "robusta". É preciso subir os níveis de confiança e aproveitar as almofadas orçamentais para reagir às adversidades da atual conjuntura. A inflação é mais negativa para a economia do que a normalização das taxas de juro. Se não houver novos choques na economia, sobretudo nos preços internacionais da energia, a inflação mensal pode descer para 3% em 2023. Centeno diz que não há nenhum cenário base, de nenhuma instituição europeia que preveja recessão, nem para Portugal ou área do euro. Há uma desaceleração do crescimento. Sobre Portugal, Centeno aponta fragilidades como a grande proporção de crédito à taxa variável, e vantagens como a enorme redução do endividamento das famílias, das empresas e do Estado. Com uma situação de pleno emprego, este é o momento de todos os setores reduzirem a sus dívida e, com o risco bancário controlado, o endividamento em queda e a poupança das famílias a crescer é de não hesitar em usar as almofadas financeiras, se o contexto económico o exigir.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

OS DESAFIOS DE UM TURISMO SUSTENTÁVEL

 Em ambiente de globalização e de crise provocada pelas consequências da guerra da Ucrânia, Portugal confronta-se com a necessidade de adotar, no plano económico e social, uma estratégia baseada num desenvolvimento sustentável, mais eficiente em termos de utilização de recursos (naturais e humanos), e, que concomitantemente assegure a efetiva implementação de políticas públicas equilibradas de natureza territorial. Neste âmbito o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com um período de execução até 2026, deverá implementar um conjunto de reformas e investimentos, destinados a assegurar esse desenvolvimento sustentado, reforçando o objetivo de convergência com a Europa, ao longo da próxima década e assente em três dimensões estruturantes; a resiliência, a transição climática e a transição digital. Como é sabido, em Portugal a atividade do setor do turismo tem alcançado uma dimensão muito significativa, representando uma das principais fontes de receita da nossa economia. Acresce, que a aposta no turismo apresenta-se, inquestionavelmente, válida a diversos níveis, uma vez que é importante para a economia portuguesa e tem um efeito multiplicador noutros setores de atividade. A verdade, é, que no conjunto da nossa economia a sua evolução recente, indica que neste setor- e o conjunto de bens e serviços que assegura, tem ainda capacidade para reforçar a sua importância, em particular se atrair a população ao interior do País. Assim, importa traçar metas ambiciosas adequadas ao setor, numa perspetiva de futuro sustentável. Contudo, apesar da dinâmica que este setor tem revelado para a criação de emprego em Portugal, convém salientar que este setor, está longe de salvaguardar a criação de emprego sustentável, pelo que cabe desenvolver uma geração de políticas estruturais, particularmente conferindo estabilidade do emprego criado neste setor, pois este assenta sobretudo no recurso dos contratos de trabalho a termo ou aos contratos de trabalho intermitentes- modalidade de trabalho aplicável a empresas que exerçam atividade com descontinuidade, em que as partes acordem que a prestação seja intercalada por um ou mais períodos de inatividade. e, deste modo, por instabilidade dos vínculos laborais e um nível salarial baixo. Num contexto global de forte retoma de mobilidade das pessoas, após pandemia, o potencial em turismo do País, justifica a existência de um plano integrado de sustentabilidade que -articulando a vertente social económica e da cultura- envolva as populações do País (a nível regional e local), na atividade de conservar e valorizar os recursos existentes, em prol de um desenvolvimento propício a um investimento estruturante. De facto, esse grande potencial de dinamização da atividade turística nacional, não se tem feito acompanhar de uma estratégia coerente e de sustentabilidade. No caso da habitação, cabe desenvolver uma estratégia para resolver o problema de acesso à habitação, em especial apoiando  jovens e famílias da classe média. Daí a estratégia de uma linha de financiamento inscrita no PRR, para os municípios investirem em parque habitacional público com rendas acessíveis. Atendendo a que ,na última década, o preço das casas aumentou a um ritmo quase três vezes superior ao do rendimento médio das famílias portuguesas, uma das soluções apresentadas no quadro da implementação do PRR será não só a de promover a aquisição da habitação a preços acessíveis como a de garantir a existência de oferta de habitações de rendas acessíveis no parque de habitação pública. O denominado "Parque Público da Habitação a custos acessíveis conta com uma dotação total de 167,8 milhões de euros, para garantir a oferta de 1590habitações, em Portugal, a custos acessíveis até 2026. De referir que este investimento incorpora as discussões associadas ao ambiente, por exemplo. promovendo a construção nova com elevados padrões de eficiência energética e reabilitação de edifícios, mediante a melhoria do seu desempenho energético.. O preço das casas em Portugal continua a subir, e, os mais recentes dados do INE, relativos a Julho último, indicam que o valor mediano da avaliação bancária, realizada no âmbito do crédito à habitação, registou um aumento de 2% face ao mês de maio(1380euros por metro quadrado)sendo o registo mais alto desde Janeiro de 2011. Em comparação com junho de 2021, o valor mediano das avaliações subiu, em particular no Algarve e em Lisboa, justamente áreas pressionadas pelo turismo. O aumento de venda de casas no último ano levou a uma quebra do stock do parque habitacional português disponível no segundo trimestre deste ano, face ao mesmo período do ano passado , especialmente no Algarve, Lisboa e Porto. Esta situação mostra que é preciso responder com políticas públicas, ao problema das assimetrias no País, no que respeita ao acesso à habitação em zonas de maior pressão e de maior procura, como Lisboa, Porto e Algarve. Sendo o turismo uma atividade estratégica para a economia portuguesa, parece inquestionável que só através de uma visão resultante de políticas implementadas de forma sistémica, permanente e constante, será possível reduzir os desequilíbrios territoriais do País e se poderá responder aos desafios de um desenvolvimento nacional sustentável. Desde logo, será determinante que tirando proveito dos recursos existentes, o turismo português mostre capacidade de representar a diferença através de uma promoção articulada de diversos fatores chave de atração - como o clima ameno, a costa marítima, a paisagem interior, a oferta histórico-cultural e as infraestruturas e que se dinamize a promoção turística do País, desde o litoral ao interior. O interior do nosso país, despovoado, envelhecido e periférico carece de iniciativas que, a diversos níveis o revitalizem. De salientar que os territórios do interior de Portugal continental gozam de uma posição privilegiada no contexto ibérico, que tem sido desvalorizada ou mesmo ignorada. Desde logo, porque nestes territórios existe um enorme potencial que importa "reavivar", promovendo um equilíbrio ordenado do território, numa lógica de articulação entre o Estado e as autarquias locais. A valorização da dimensão territorial constituiu um importante desafio, para o nosso ciclo de utilização de fudo europeus. Para isso, é preciso promover uma efetiva coesão territorial ao serviço do desenvolvimento do País, garantindo a coordenação de várias políticas setoriais. Sendo necessário repovoar e redinamizar os territórios de baixa densidade, implementando um programa nacional para a coesão territorial, que promova o desenvolvimento do território do interior. Também aqui, o crescimento do turismo se torna estratégico para redirecionar os esforços de valorização do interior do País que, em muitos casos, representam um amplo conjunto de recursos subaproveitados. Portugal encontra-se a perder muito da sua identidade cultural e este facto é negativo, não só para o País e para os portugueses como também para a economia, em particular para o turismo. Num mundo globalizado, em que a cultura local tem um papel decisivo e insubstituível na afirmação da atividade dos territórios, é do interesse de cada Estado criar mais oportunidades para dinamizar os territórios e os equilíbrios do País. É necessário pensar na salvaguarda do meio ambiente associada ao turismo. Portugal enfrenta uma inédita mudança demográfica devido quer à diminuição da taxa de natalidade, quer ao aumento da esperança média de vida, e os dados do INE, confirmam a redução progressiva da população, assim como um acentuado envelhecimento no interior do país, com a grande maioria da população fortemente concentrada no litoral e nas zonas urbanas. Acresce que em Portugal, entre 2008 e 2013, a emigração permanente mais do que duplicou, e, só entre 2011 e 2015 deixaram o país, a título permanente, cerca de 250mil pessoas. Ora enfrentar este problema de despovoamento do interior do país, e das zonas rurais, é uma prioridade política para o país. o setor do turismo assume um papel importante na economia nacional: é uma atividade económica abrangente que gera emprego durante todo o ano, que preserva o território, o ambiente e os seus recursos, numa constante valorização do património, da natureza, da cultura e das comunidades locais.. Tem a particularidade de ser uma atividade especialmente vocacionada para a revitalização da atividade económicas, sobretudo nas regiões do interior, valorizando os recursos endógenos, criando polos de atração e fixação da população, construindo novas oportunidades de desenvolvimento. O setor do turismo é muitas vezes designado de "motor da economia nacional". O reconhecimento do papel central do turismo na economia é essencial para podermos aproveitar oportunidades e ciar novo paradigma,- o turismo do futuro -,onde o compromisso com a sustentabilidade se reveste de inédita importância. É necessário criar as bases para um turismo responsável, sustentável e inovador, em resposta ao crescimento exponencial da procura, à realidade da transição ecológica da nova era digital. O turismo do futuro deve contribuir de forma mais equilibrada para o crescimento económico, assegurando a sustentabilidade da atividade turística e preservando o património existente. Neste contexto, para implementar estratégias de longo prazo, Portugal deve: estimular e apoiar negócios de turismo competitivos e sustentáveis; melhorar a qualidade de vida dos residentes e dos profissionais do setor turístico e planear, desenvolver e gerir o turismo de acordo com os princípios do turismo sustentável.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

OS EFEITOS DA INFLAÇÃO NA VIDA DAS FAMÍLIAS

 Pela primeira vez, em quase um ano, a inflação em Portugal interrompeu a tendência de aceleração com os produtos energéticos a darem uma pequena trégua, a variação homóloga do Índice de Preços (IPC) abrandou ligeiramente em agosto para 9%, o que se compara com 9,1% em julho. Mas os dados do INE  servem de pouco consolo às famílias. A inflação está em níveis que não eram vistos no país há quase três décadas, e, apesar da enorme incerteza, ainda não atingimos o pico. Além disso, os preços dos produtos alimentares continuam a acelerar. Com os salários a não acompanharem a inflação, perdendo poder de compra, e, os bens essenciais entre os preços que mais sobem, as famílias de menores rendimentos, são as mais penalizadas. Mas a classe média também sofre. A inflação tem efeitos pesados sobre as famílias, que se repercutem de forma desigual, ao longo da distribuição de rendimentos.. As famílias mais pobres são as mais atingidas, mas também nas famílias de classe média, a escalada de preços faz-se sentir de forma profundamente desigual. Porquê ? Há vários fatores a ter em conta, mas um dos mais importantes passa pelos padrões diferenciados do consumo das famílias, consoante o seu nível de rendimento. Para calcular a inflação, o INE, considera como referência um cabaz de consumo "médio" a partir dos dados do Inquérito à Despesa das Famílias (IDEF) Só que os dados desse inquérito permitem concluir que "o peso do consumo de bens essenciais, como a alimentação e energia, no consumo total é muito superior nas famílias mais pobres. Por exemplo, em 2015/2016- anos a que se refere o último inquérito disponível-, os produtos alimentares (incluindo bebidas não alcoólicas) representavam 19,6% da despesa total dos 20% com menores rendimentos no país. Já no caso das famílias nos 20% com maiores rendimentos, esse peso era de 11%, sendo a média de 14,3% O mesmo acontecia com as despesas de habitação, água, eletricidade, gás e outros combustíveis que representavam 35,1% da despesas total das famílias que se encontravam entre as 20% mais pobres, por contraponto a 29,6%, no caso dos 20%com maiores rendimentos. Como a energia, e os produtos alimentares contam-se entre os preços que mais têm subido, isto significa que as famílias mais pobres estão a enfrentar uma taxa de inflação mais alta do que o valor publicado pelo INE, porque o peso dos bens essenciais do seu cabaz de consumo é superior ao que têm no cabaz médio considerado pelo INE, no cálculo do IPC. O peso de cada categoria de bens e serviços no cálculo da inflação é função dos dados agregados de consumo, ou seja, as famílias com mais meios, e, que consequentemente gastam mais em consumo têm um peso desproporcional. Há estudos que mostram que, por esta via, a inflação a que de facto estão expostas as famílias mais carenciadas é sistematicamente mais elevada. Por exemplo, no estudo da Deco. que desde fevereiro tem seguido os preços de um cabaz de bens essenciais, e, cujo crescimento dos preços foi bastante mais elevado do que a taxa de inflação agregada. Segundo os dados do Inquérito à Despesa das Famílias (IDEF), a inflação provoca desigualdade. A subida dos preços nos produtos alimentares e na habitação- onde se incluía a energia- é terrível para as famílias com menores rendimentos. Acresce que as famílias mais ricas têm margem de ajustamento. Podem cortar nas despesas não essenciais ou diminuir a poupança. Os mais pobres não têm essa margem, daí a importância das políticas do lado das famílias se centrarem nos mais carenciados. O impacto nas famílias irá depender do tipo de medidas que o Governo adotar, sendo crucial ter alguma forma de apoios, seja pela via fiscal, ou de transferências. A inflação afeta de forma desproporcional as famílias mais desfavoráveis de outras formas: as pessoas com rendimentos mais baixos têm um poder de negociação salarial tipicamente mais baixo, pelo que têm muito mais dificuldade em diminuírem as perdas de valor real nos salários. Por outro lado, também tendem a ter níveis de instrução mais baixos, pelo que num país que está na cauda da Europa, também em termos de literacia financeira, significa que estão muito pouco preparados e /ou informados sobre estratégias que possam adotar para abrandar os efeitos da inflação. A classe média também sente os efeitos da inflação. Aqui, uma das principais questões, prende-se com o aumento dos encargos financeiros co crédito à habitação, por causa da subida dos juros, na sequência da persistência  do BCE para travar a inflação, bem como a subida das rendas de casa. As famílias mais penalizadas pela inflação são as que têm rendimentos assegurados(em particular por efeito do desemprego), e, as que têm rendimentos fixos, trabalhadores por conta de outrem e pensionistas. É certo que algumas dessas partes beneficiam de alguns apoios sociais, mas são em geral insuficientes para compensar a perda de poder de compra e deixam de fora pessoas que têm rendimentos muito baixos, mas acima do limiar dos apoios. No entanto, a redução do desemprego, sobretudo os mais jovens, é uma notícia positiva.  Ainda não há indicadores disponíveis que mostrem o agravamento da desigualdade por causa da inflação, com consequências profundamente desiguais nas famílias, sem haver alterações nos indicadores oficiais da pobreza e desigualdade ( como o índice de Gini), se não houver alterações na distribuição de rendimentos em termos nominais. podem ter uma forte deterioração das condições de vida das pessoas, e os indicadores de pobreza e desigualdade não o refletirem, porque as estatísticas oficiais baseiam-se nos rendimentos, médios em termos nominais e não captam esses efeitos. É nos indicadores de pobreza que os impactos da inflação irão surgir. Depois de ter sofrido a maior queda em termos reais, em pelo menos sete anos, o salário médio em Portugal, deve continuar a evoluir abaixo da inflação, ou seja continuar a perder poder de compra. O que explica esta evolução? As empresas estão pressionadas pelo aumento de custos, limitando a margem para aumentar salários, e, como a inflação está a ser induzida sobretudo, pelos choques da oferta, significa menor procura dos trabalhadores e menor pressão em alta dos salários. Acresce a existência de limitações à concorrência na contratação dos trabalhadores, que leva a menores aumentos, bem como a a contenção salarial na Administração Pública. No Estado irá aumentar a pressão dos sindicatos, mas penso que os aumentos irão ficar muito aquém da inflação, o que significa quedas em termos reais. Quanto ao setor privado, a perspetiva de abrandamento ou mesmo recessão, na sequência da subida dos juros, deverá levar a uma menor procura de trabalhadores e menor pressão para aumentar salários e às dificuldades de muitas empresas mais expostas à concorrência internacional de aumentarem os custos, sem porem em causa a viabilidade do negocio.

A subida dos juros irá provocar uma recessão ? Alguns economistas não preveem a inviabilidade de uma contração económica , na sequência de uma subida  das taxas de juro, mas admitem que a recessão possa estar à espreita, na consequência de fatores negativos- que vão muito para além do desempenho da equipa chefiada por Lagarde. Um cocktail, onde se acrescenta também a crise energética e as disrupções nas cadeias globais de abastecimento. Alemanha e Itália são os países onde a probabilidade de recessão é maior, mas não é uma consequência apenas do aumentos dos juros, mas sim da elevada inflação e da forte incerteza e pessimismo sobre o fornecimento de energia, ás quais acrescem a subida dos juros. O extremar das posições relativamente à importância de gás natural da Rússia aliada, às mais do que previsíveis subidas acentuadas das taxas de juro, são os principais fatores a sustentar as previsões de uma recessão. A política monetária mais restritiva vem juntar-se às dificuldades já criadas pela pandemia e pela guerra da Ucrânia, pelo que parece difícil a Europa escapar a uma recessão. A questão será perceber se essa recessão é mais ou menos profunda ou duradoura, e, aí a política monetária poderá pesar muito. Se se concretizar o arrefecimento na Europa, Portugal não deverá escapar incólume. A cresce que o país está mais exposto ao aumento dos juros, dado os níveis de endividamento ainda elevados, e a maior parcela de taxa variável nos contratos, nomeadamente no crédito à habitação. Será principalmente no quarto trimestre em que sem o turismo para ajudar, e, com os efeitos das mais que prováveis subidas das taxas de juro, que poderemos ver um abrandamento mais significativo da economia.. O abrandamento da economia, por si só, não resolverá a inflação. Precisamos de continuar a normalizar a política monetária. As forças subjacentes ao abrandamento da economia são muito semelhantes às que estão a fazer subir a inflação. O que queremos evitar é uma situação semelhante à da década de 70, que também começou com um choque energético. seguido de efeitos de segunda ordem, que tornem a situação muito pior. O abrandamento da economia reduzirá as pressões do lado da procura, o que fará baixar a inflação. O nível de inflação que temos agora na Europa está a causar dificuldades às famílias com baixos rendimentos Por isso, é muito importante que a política orçamental desempenhe um papel ativo no alivio das dificuldades causadas pela inflação a estes grupos vulneráveis.. Reduzir a procura de energia na Europa, é a melhor forma de reduzir a  dependência da Rússia.

sábado, 30 de julho de 2022

O CRESCIMENTO ECONÓMICO PORTUGUÊS

 A questão mais relevante do crescimento económico português da última década, é o seu modelo de especialização. O problema consiste no facto de não termos resolvido as nossas debilidades produtivas, e, de pelo contrário, se ter acentuado a tendência de concentrarmos recursos em setores e atividade de baixa criação de valor, baixos salários, e, portanto baixa produtividade. Nas últimas quatro décadas "verifica-se que o setor dos serviços" é aquele que se expande em fase de retoma, mas que se retrai despropositadamente em fase recessiva, manifestando uma enorme volatilidade. Mais recentemente "o crescimento do PIB" entre o primeiro semestre de 2014 e o mesmo semestre de 2017, pode ser explicado pela forma como evoluíram três fatores: forte crescimento do emprego, quase estagnação do produto por trabalhador( uma das medidas da produtividade), e ligeiro receio da taxa de atividade. Ou seja: a recuperação do emprego ocorrida a partir de meados de 2013, significou mais do que uma variação quantitativa dos níveis de emprego e desemprego. Neste período, a estrutura do emprego, a sua distribuição por escalões etários, níveis de escolarização e ramos de atividade económica, alterou-se substancialmente. Concretamente, os ramos que criaram mais emprego, foram precisamente aqueles onde se pagavam salários abaixo da média nacional, enquanto se verificava a destruição de postos de trabalho em atividades com salários acima da média. A questão é clara: precisamos de política industrial e de uma estratégia para reduzir a dependência dos serviços, dos baixos salários, e, portanto dos "incentivos" à persistência de um sistema de emprego demasiado assente na baixa organização e na escassa produtividade. Não é preciso dizer que, nos dias de hoje, uma política industrial não é industrialização "à moda antiga" ; é uma estratégia organizacional produtiva, de redução de baixa qualificação das empresas, de incentivos ao uso do trabalho, no quadro das relações laborais adequadas e de estruturação não dependente da economia nacional. Há duas circunstâncias do crescimento que não podem ficar de fora, e, sem o qual este processo se degrada: a repartição dos benefícios com lugar para a melhoria da inclusão social e a quebra das dependências (incluindo a energética) e dos desequilíbrios do País (incluindo o ambiental e o territorial) Como ultrapassar a crise? A inovação e a criatividade são fatores centrais de uma nova confiança, de uma ambição global, de uma capacidade de construir soluções para novos problemas, e, de uma resposta à crise. Impõe-se por isso, uma cultura de mudança.. O nosso país desenvolveu -se nas últimas décadas abaixo das expetativas geradas pela nossa adesão à UE, apesar da importante melhoria, quer do nosso PIB per capita, quer dos nossos indicadores sociais. Isso deve-se a três razões principais: a nossa falta de escala/ em termos internacionais; o ser um país periférico do seu mercado europeu; e insucesso na atração de investimentos para o País, que apostem nas redes/cadeias de valor institucionais. Esta questão da fraca produtividade de capital externo para investimento em projetos de competitividade global, é a questão mais importante: Por algumas razões, não temos conseguido fazê-lo com sucesso, nos últimos vinte anos, e, sem uma estratégia ambiciosa que inclua esta vertente, não havia desenvolvimento sustentado no País. Depois de dois anos de pandemia, que todos os países tiveram de enfrentar, e agora com a guerra na Ucrânia, cujos efeitos a nível mundial, ainda estão por apurar(além da inflação que se sente), há que somar as dificuldades resultantes das questões climáticas e ambientais, e, ainda um grave problema; o acelerado envelhecimento da população. Não creio que a guerra na Ucrânia não seja afinal temporária, o que significa que o nosso país terá de enfrentar ainda, além dos efeitos da pandemia, que persistem, os efeitos mais prolongados da inflação. Vejamos algumas questões estratégicas, que considero determinantes para o desenvolvimento sustentado a longo prazo do país.

1- Que no mínimo se cumpram os objetivos ambiciosos já traçados, no que respeita às questões climáticas, à biodiversidade e ao fenómeno do degelo, sabendo que o nosso clima temperado, tenderá a aproximar-se ao longo do século, de um clima mais tropical do que temperado;

Que se fomentem sub-regiões ibéricas de desenvolvimento integradas para que os projetos estratégicos dos dois países se realizem, e, as empresas portuguesas ganhem escala internacional;

3- Que se implemente uma política de imigração(jovem e qualificada), para reduzir o risco de envelhecimento e diminuição da população ativa que se tem verificado no país;

4- Que se reforcem medidas de incentivo ao investimento estrangeiro, estimulando que o país se integre nas redes de cadeia de valor internacionais;

5- Que haja uma melhoria da nossa competitividade externa e eficácia organizacional pela adoção da "internet das coisas" e da inteligência artificial nas empresas e no funcionalismo público;

6- Que se aposte na economia do mar, como um setor estratégico, de que pouco se fala;

7- Que se contribua para que o projeto europeu se reforce coo um bloco, e, que o modelo democrático ocidental fortaleça a sua componente de criação de valor.

Um programa para a competitividade associado à recuperação desta crise, tem que impor dinâmicas efetivas de aposta na tecnologia, seja ao nível da conceção de ideias novas, de serviços e produtos , seja, ao nível da operacionalização de centros modernos rentáveis de produção, seja sobretudo, ao nível da construção  e participação ativa em redes internacionais de comercialização de produtos e serviços O imperativo de uma nova ajuda, deverá consolidar novas perspetivas para o território. Portugal tem uma oportunidade única de potenciar um novo paradigma de cidades médias voltadas para a qualidade, a criatividade e a sustentabilidade ecológica. Este ano e os próximos irão ser decisivos para a economia e sociedade portuguesas. Está em cima da mesa, no contexto da consolidação e integração europeia, a capacidade de o nosso país conseguir efetivamente, apresentar um modelo de recuperação estratégica, sustentada para o futuro. Em tempo de crise, os recentes acontecimentos, à volta da agudização da crise, vieram uma vez mais demonstrar que existe no nosso país, uma minoria silenciosa que de há anos a esta parte, mantém o status quo do sistema paralisado, e, a pretexto de falsas dinâmicas de renovação social e reconversão económica, tenta reconciliar o caminho do futuro, com as mesmas soluções do passado, influenciáveis no contexto da mudança, como aquele em que vivemos. 

terça-feira, 19 de julho de 2022

A EVOLUÇÃO DA INFLAÇÃO EM PORTUGAL

 A inflação é uma subida generalizada dos preços na economia. E traduz-se, na perspetiva das famílias, numa perda de poder de compra do seu rendimento nominal. Pode assim também ser vista como uma desvalorização da moeda. Uma inflação baixa, estável e previsível é boa para a economia. Isto é, permite que os diferentes atores, de forma relativamente independente, usem os sinais contidos nos preços, para tomarem decisões no seu melhor interesse, e, por essa via, ajudarem a que a economia produza resultados eficientes em termos de bem-estar individual. A inflação pode ser medida de várias maneiras, mas a generalidade dos países tenta medir um índice de preços no consumidor, no caso de Portugal usa-se o Índice de Preços no Consumidor (IPC). Temos inflação em Portugal? Sim a taxa de variação homóloga do IPC está atualmente nos 9,1%. A questão é perceber se a inflação observada em Portugal, reflete alterações nos rácios dos preços, que por definição, não geram persistência, ou, se pelo contrário, resultam das consequências da política sanitária, fiscal e monetária adotada nos EUA e na zona euro durante os anos de pandemia, entre Março de 2020 e Dezembro de 2021. No caso de Portugal, a inflação começa a notar-se no IPC, a partir de Dezembro de 2021. Se  o fenómeno fosse exclusivamente monetário, o fator comum na variação dos preços seria dominante. Continuaria a haver dispersão nas variações dos preços, mas todas as classes de bens teriam um choque detetável na variação do seu indicador de preços. A enorme subida  é aliás tão grande que não forma expetativas de inflação idênticas para o futuro. Pelo contrário, se os operadores do mercado identificarem quebras nas cadeias de abastecimento como razão próxima das variações abruptas dos preços, seria até de esperar uma descida dos preços nos bens compensatória quando se atingisse uma maior coordenação contemporânea entre a procura e a capacidade de produção e fornecimento dos vários tipos de matérias-primas, bens e serviços. Por outro lado, o estímulo monetário, nos EUA e na zona euro euro, foi brutal, o que em si mesmo deveria gerar inflação. Acresce que as economias desenvolvidas mantiveram o regime geral de rendimentos do trabalho num contexto de fortes condicionamentos à atividade produtiva resultantes das restrições sanitárias adotadas. Em síntese, há bons argumentos para defender que a inflação observada em Portugal tem elementos transitórios mas também permanentes. A verdade, neste caso, parece estar nos dois lados. Ou seja, a inflação poderá baixar um pouco mesmo que não seja combatida, mas dificilmente baixará o suficiente se a Reserva Federal americana (FED) o BCE, mantiverem uma política acomodatícia. Os sucessivos choques de oferta e de procura que atingiram a economia global desde os finais de 2019, as políticas económicas. e, recentemente, a escalada dos preços de energia ampliada pela invasão da Ucrânia, originaram um aumento das taxas de inflação nas economias do mundo ocidental. Será que elevadas taxas de inflação e vão prolongar no médio prazo? Por um lado, a situação atual encerra já, em si mesma, ingredientes de travagem que assegurarão o retorno a níveis próximos da fasquia de 2%, na economias do ocidente, e não em 2023, pelo menos em 2024. Por outro lado, não há dúvida, que existem riscos de "enquistamento" de taxas de inflação sustentadamente mais elevadas, do que no passado recente, sobretudo pelo esforço da transição energética e recuo da globalização. A pandemia, numa fase inicial, causou sucessivos choques de procura e de oferta, à medida que as economias navegavam entre confinamentos e vagas sucessivas e descontroladas. Depois, numa fase posterior, já com políticas orçamentais a apoiar fortemente, e, a suportar a procura, prevalecem os choques da oferta, pois as vagas refletiam-se sobre as cadeias logísticas e interromperam fluxos comerciais e de produção , de forma inesperada, em todo o mundo. Complementarmente, e, ainda com impacto atual, as políticas de covid, na China, importante fornecedor mundial, e, interveniente nas cadeias de valor, têm-se refletido no prolongamento dos designados estrangulamentos da oferta, adicionando às pressões inflacionistas. mas esperava -se  que a médio prazo, a inflação normalizasse gradualmente, à medida que os reflexos da pandemia se atenuavam, e, a oferta iria progressivamente dando resposta à procura acrescida.  A invasão da Ucrânia, em 24 de Fevereiro de 2022, veio alterar este desequilíbrio, acrescentando novos intervenientes, muito evidentes no disparo dos preços dos combustíveis, minerais e alimentação. Para tal, contribuíram, por exemplo as baixas reservas de gás na Europa, petróleo e carvão, com a Rússia a reduzir o seu abastecimento no mercado spot de gás, e, com o aumento das importações de energia da China, devido a problemas nas suas mina de carvão, e, que foram agravadas este ano pela guerra na Ucrânia. Acresce referir que os mercados futuros preveem que a pressão sobre os preços de energia será de longa duração. Vivemos por isso, num mundo incerto, que se caracteriza por elevadas taxas de inflação no imediato, resposta dos bancos centrais e do mercado- as taxas de juro já aumentaram cerca de 75p.b. desde o início de 2022-encarecendo o financiamento perspetiva de menor liquidez no mercado do dólar e de paragem das ações de liquidez no mercado do euro. Em suma, uma envolvente certamente mais restritiva, quer do ponto de vista financeiro, quer também porque o encarecimento de bens essenciais, com procura pouco elástica, dado o reduzido grau de substituibilidade, se refletirá em menor consumo e investimento. Ou seja, dado o atual enquadramento em 2022- 2023, perspetiva-se menor crescimento que aquele que se previa antes da guerra da Ucrânia; mais inflação a curto prazo, bem como taxas de juro mais elevadas, em resposta ao aumento das pressões inflacionistas. Todavia, a médio prazo, não nos parece que os fatores de influência se tenham alterado de forma radical. Questões como o abrandamento do processo de globalização, a tendência para uma maior verticalidade  e proximidade das cadeias de produção, e, a transição energética, tendem a suportar as taxas de inflação mais elevadas. Ora taxas de inflação elevadas reduzem a capacidade aquisitiva das famílias, o poder de compra e pesam nos custos operacionais das empresas. A inflação tem também impacto muito diferenciado em termos individuais, consoante o rendimento, a capacidade de poupança e a situação patrimonial; nas empresas consoante o setor e a estrutura produtiva, ilustrando esta desigualdade, estimamos que a taxa de inflação em termos de bens essenciais, para indivíduos com menores rendimento, no próximo quantil da distribuição, seja de 1% mais elevada do que a taxa global. Um aumento das taxas de juro de referência irá trazer níveis de acomodação muito precários, pois os níveis de endividamento das famílias e dos Estados, são muito elevados, em comparação com a década de 70, levando a uma maior carga do serviço da dívida. Adicionalmente, um cancelamento do programa de aquisição de ativos, arriscará uma repetição da crise das dívidas soberanas, com a abertura, mais uma vez, de fendas neste bloco, com um disparar dos spreads soberanos na periferia da Zona Euro, constituindo um entrave à intervenção pública,( condenada a nível europeu), na resolução dos problemas e na mitigação dos seus efeitos. Ou seja, uma alta das taxas de juro, pode ser estrategicamente auto derrotista, por ser dificilmente compatível com desafios, como o investimento na reconfiguração da economia(transição energética e digital), e por contrariar desígnios socie tais e estratégicos, como a desindustrialização e a anatomia tecnológica. Serão necessária medidas de sentido micro setorial, e, não uma mera postura micro/monetarista para gerir a turbulência na conjuntura, e, assegurar as novas condições estruturais. Assim, é necessário afastar para já "caçadeiras de canos serrados" e, priorizar a adoção de "armas de precisão", que tenham por objetivo os pontos de pressão estrutural. A curto prazo, as armas necessárias serão, instrumentos de natureza administrativa, dirigidos aos focos que surgem em setores que são muito concentrados, atenuando a contaminação do resto da economia: tetos de preços nas cadeias de valor da energia e a imposição de margens na área de distribuição moderna de bens de consumo (cadeias de supermercado, etc) Tais ações deverão eventualmente coexistir com medidas desenhadas para controlar riscos resultantes da indústria financeira e que podem vir a destabilizar outras componentes da economia. A longo prazo, defende-se um programa de investimento transformador da realidade económica, ao nível dos fatores de produção mais fundamentais, visando necessariamente maior autonomia energética e alimentar ( o que tem uma grande sobreposição com o combate às alterações climáticas, e, da qual não pode ser dissociada). Isto implica uma mobilização de recursos, para esse efeito, que agravará as pressões inflacionistas, que se fazem sentir atualmente, sendo por isso necessário o acompanhamento de medidas que ajustem a utilização desses recursos para outros fins, de forma a que se incentive o reinvestimento em mecanismos viabilizadores  de autonomias e de atenuação de volatilidades. Estas implicam estratégias explícitas na mobilização da capacidade produtiva para o " bem comum": limites qualitativos, por setor, e quantitativos ao crédito concedido, reformulação do enquadramento institucional do financiamento público, regulação do perímetro do portfólio de investidores institucionais; são algumas das opções a fazer parte deste conjunto. Este mix de medidas não deveria ser entendido como "economia de guerra", no entanto, devem ser alongadas as medidas de curto prazo e ter uma lógica prospetiva e sustentada de longo prazo. O aumento permanente da taxa de inflação, implicará mais tarde ou mais cedo, uma alteração da política monetária seguida pelo BCE, algo potencialmente devastador para os países da zona euro que estão mais endividados. Ganhou-se ainda consciência da necessidade de aumentar o nível de segurança militar, na Europa, o que vai exigir um aumento da despesa pública neste setor, o qual deve ser conseguido através da cobrança de mais impostos e/ou corte de financiamento de outras áreas de intervenção do Estado. Ao mesmo tempo, prepara-se uma revolução na forma como o bloco europeu se organiza para suprir as suas necessidades energéticas, sendo este um movimento que criará, seguramente, muitas oportunidades de crescimento no futuro.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

O DESAFIO DA INOVAÇÃO EM PORTUGAL

 Um dos desafios para esta década será o de promover um desenvolvimento sustentável, assente na inovação, e, capaz de assegurar uma repartição da riqueza mais justa do ponto de vista social. O País confronta-se com inúmeras desigualdades com forte impacto social. Uma frágil criação de emprego, acompanhada de um aumento do número de trabalhadores pobres (working poor), que auferem salários insuficientes para satisfazer as necessidades básicas, geram dúvidas sobre o futuro do País, ao nível social. Para que a política económica, atinja um único objetivo, alcançar um desenvolvimento sustentável pressupõe um equilíbrio entre o económico e o social. Desde logo, as políticas de educação, ciência e inovação, são fundamentais para alcançar esse objetivo. Se em Portugal, assistimos nos últimos quarenta anos, a uma democratização do ensino, é ainda muito escassa a ligação entre a intervenção científica  às empresas e a sociedade. Assim , é importante promover de forma sustentável, a competitividade empresarial, na dupla dimensão tecnológica e territorial, estimulando a atração do investimento com forte valor acrescentado e de futuro; reter os trabalhadores mais qualificados; promover uma gestão estratégica do sistema, da ciência e da tecnologia; garantir a previsibilidade dos incentivos públicos, promovendo um planeamento adequado das instituições, assim como assegurar clareza e transparência no funcionamento dos agentes de política científica. Ainda importa, envolver os municípios nesta estratégia conjunta, para juntamente com empresas e universidades, desenvolverem projetos de inovação comuns. Portugal continua a ter um problema de qualificação dos adultos em idade ativa, que passa por um défice estrutural de qualificações escolares, e, que ciclicamente, pode gerar uma elevada proporção de desemprego estrutural, considerando a desadequação das suas competências profissionais, face às mudanças em curso no mercado de trabalho. Assim, cabe incentivar a educação e formação de adultos, assim como promover as redes locais para a qualificação, permitindo uma coordenação a nível regional e local. Perante o movimento da digitalização da economia, é necessário traçar uma intervenção em escala e em profundidade, para enfrentar as consequentes mudanças, prevendo um eventual aumento do desemprego de longa duração. O European Inovation Scorebord (EIS), faculta uma avaliação comparativa do desempenho da investigação e inovação dos Estados -membros da UE, e outros países europeus vizinhos, permitindo aos decisores políticos, avaliar os pontos fortes e fracos relativos dos sistemas nacionais de investigação, acompanhar o progresso e identificar áreas prioritárias para promover o desempenho na inovação. Desta investigação resultou que o desempenho da inovação, continua a melhorar em toda a UE, com os países de fraco desempenho a crescerem mais do que os países de maior desempenho. Desde 2014, a economia portuguesa caiu no ranking que mede a inovação das empresas da UE. Como promover a inovação no contexto de uma sociedade envelhecida? O Plano de Recuperação e Resiliência, inclui, igualmente, uma forte presença das questões do digital, do futuro do trabalho, e, da adaptação das empresas a esta realidade, como resposta às necessidades de curto prazo da economia, mas também a preparação das pessoas e das empresas nos próximos anos. Mutos jovens, na faixa etária dos 15-29 anos, careceu das competências digitais, e, isso criará desigualdades sociais, até mesmo um catalisador de desigualdades. Assim, é necessário tornar os recursos digitais mais acessíveis e integrá-los totalmente na educação nacional. Os jovens podem adquirir competências digitais, desde o início do ensino básico, e, o sistema escolar deve combater efetivamente essas desigualdades digitais, para que não haja um entrave ao crescimento económico. É de referir que, considerando o expectável impacto da digitalização da economia, no mercado de trabalho, nos próximos anos, urge considerar o tema da empregabilidade digital, como central nas políticas públicas laborais. Tendo em atenção, os dados demográficos, divulgados recentemente pelo INE: o número médio de filhos, de mulheres e homens, passou de 1,03 em 2013 para 0,86  em 2019. Por outro lado, 93,4% das mulheres e 97,6% dos homens do escalão etário mais jovem(dos 18 aos 29anos) não tinham filhos e mais de metade dos homens dos 30 aos 39anos, encontravam-se na mesma situação. Também, segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, em 2021, foram rastreados menos de 80mil recém-nascidos, através do teste do pezinho, um indicador muito aproximado da natalidade. Os dados deste rastreio, indicam que pode ter sido batido o recorde histórico na quebra da natalidade. Como é sabido, há muito que a sociedade portuguesa envelhece. E, se esta década será exigente, a nível socioeconómico, em particular, exigindo um esforço de inovação, a verdade é que o País encontra-se extremamente envelhecido, pelo que condicionará fortemente o seu desenvolvimento . A este problema da natalidade, acresce o da emigração. A população residente em Portugal, tem vindo a diminuir, desde 2010, em resultado do saldo migratório, causa de um acentuado crescimento do volume de emigração. Portugal tem relativamente a outros países da UE, uma preparação acima da média de contratos permanentes a termo e temporário, não permanentes, assim como um elevado nível de subemprego a tempo parcial. Ora um país que não mostra capacidade para reter os mais qualificados, está a comprometer o seu desenvolvimento futuro. Trata-se de uma relevante perda de capital humano para Portugal. E se o País perde pela emigração, ano após ano, milhares de pessoas, a grande maioria jovens, é fundamental que se implemente uma estratégia de criação de emprego qualificado em setores competitivos. Daí que é urgente, compreender que a promoção da inovação, passa não só, por um investimento contínuo na educação, na ciência e na formação, como também em facilitar melhores condições de trabalho à população ativa. Estamos perante uma transformação da economia por via da digitalização, que exige a articulação das dimensões da inovação no capital humano e da inovação das instituições. Será importante, implementar uma estratégia em que assuma especial protagonismo, a valorização do conhecimento da ciência, da tecnologia e da inovação, assim como criar emprego qualificado. Portugal distingue-se por quatro fatores centrais: oferece recursos humanos qualificados, num salto único de aproximação às qualificações médias da UE, que se nota em particular nos mais jovens; um modelo reforçado de apoio ao investimento em I&D, que tem vindo a operar uma transformação no perfil de IDE captado onde ganham peso as unidades de I&D, de ensaios clínicos,( na indústria farmacêutica), e as operações em co promoção entre empresas e unidades de sistema científico e tecnológico; um conjunto de infraestruturas competitivas que ligam Portugal ao mundo; e por fim, um país aberto e pacífico que se encontra como um dos mais seguros do mundo.