quarta-feira, 16 de março de 2022

UMA RECESSÃO NA ECONOMIA MUNDIAL?

 O FMI fez uma avaliação da guerra na Ucrânia na evolução da economia mundial. Havendo um ambiente de grande incerteza na economia mundial, é certo que o PIB mundial irá crescer menos do que o anteriormente esperado. Não falando da Ucrânia, em que a redução catastrófica do PIB, será o menor dos problemas, criados por esta guerra, ou da Rússia, em que se espera uma redução de 7% do PIB em 2022, as várias regiões do mundo serão afetadas de modo diferente, tendo à cabeça a União Europeia, sobretudo os países mais a leste, e mais a norte, comercialmente integrados com a Rússia. uma segunda ordem de consequências desta guerra, incide nos preços das matérias-primas, que já vinham a subir por força da produção, e, das cadeias logísticas internacionais, causadas pela pandemia- subida que se vê agora substancialmente agravada em produtos como os energéticos (petróleo, gás e eletricidade), e, os alimentares (cerais, trigo e milho). A União Europeia, será a área do mundo mais atingida por estes aumentos de preços. O País do Sul, no extremo ocidental da UE, Portugal será em termos de PIB, um dos países menos afetados. As exportações para a Rússia e para a Ucrânia, não chegam a 0,5% das nossas exportações totais, estando em causa apenas 0,2% do vinho e a cortiça,  que serão os produtos mais afetados, mas mesmo nestes dois casos, a dependência é hoje relativamente reduzida. Se  em termos de crescimento do PIB, Portugal será um dos países menos afetados, em termos diretos, indiretamente, as coisas agravam -se pela excessiva concentração das nossas exportações, nos mercados da UE. Já em termos de inflação. seremos dos mais atingidos, pela dependência do país em matéria de importação de produtos alimentares e energéticos, com destaque para a importação de trigo, tanto na Ucrânia como na Rússia. Acresce no âmbito da UE, a nossa pobreza relativa, e, em termos mundiais, os níveis de endividamento extremamente elevados no Estado Português. Nenhuma empresa que compre matérias-primas ou energia, ou serviços de transporte à escala internacional, poderá deixar de tentar diversificar fontes de abastecimento, em busca de condições mais favoráveis e de ter consequências no aumento dos seus custos, nos seus preços de venda, em alguns casos, como mera condição de sobrevivência. Ver-se-á limitada, neste exercício, pelos seus concorrentes e pelos compradores dos seus produtos. Em concorrência, acabará sempre por sofrer uma diminuição das suas margens de lucro; em monopólio sentir-se-á  tentada a aproveitar a oportunidade, pondo do lado do Estado o dever de reprimir, o que nas atuais circunstâncias, não passa de um crime agravado. Crítico, neste exercício de repercussão, será a tentativa de reproduzir o aumento dos preços dos bens de consumo, e do custo de vida, nos salários. Crítico, porque num regime de moeda única, como aquela em que vivemos, será necessário "ter os olhos abertos a 360graus; ver o que se passa nos outros países dos nossos concorrentes, sob pena de danificarmos ainda mais, a competitividade externa do nosso país. Uma subida dos preços dos produtos importados, que não controlamos, imporá sempre uma descida do nosso nível de vida. Á seca e à escalada de preços na energia  e nos combustíveis, juntou-se a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, dois dos maiores fornecedores de cereais, desencadeando uma subida descontrolada do custo das matérias-primas essenciais para a produção alimentar, e que pode provocar uma escassez que obrigará à imposição de racionamento em Portugal. Os preços de vários produtos básicos irão disparar 20% a 30%, brevemente, tornando-se inacessíveis a milhares de famílias de baixos rendimentos. As carências alimentares vão atingir um nível como há muitos anos não se via. O stock de alguns produtos, como a farinha para massas, é muito reduzido e daqui a poucos meses podemos ter de fazer racionamentos, como aconteceu nos anos 70. Por enquanto, ainda não se registam ruturas de produção, mas há uma pressão de preços absolutamente inédita. A conjuntura, está a criar um tal clima de ansiedade, que no setor alimentar teme-se que possa haver, uma corrida aos supermercados, para antecipar os aumentos. Podemos ter no retalho, um cenário idêntico às filas nas gasolineiras. No campo dos cerais, a dependência de Portugal face ao exterior, é quase total. No trigo, a produção nacional só cobre 5% a 10% do consumo, mas neste ano, devido à seca, ficou próximo de zero, e, admite-se que haja escassez em alguns produtos. No que diz respeito ao milho, a guerra na Ucrânia, que era o principal produtor europeu, travou a fundo o abastecimento, fazendo disparar os preços. Portugal procurará novos fornecedores em países como EUA, Brasil, África do Sul ou Austrália, mas estas rotas são muito mais longínquas e dispendiosas. Em todo o setor de carnes haverá no geral, um aumento de 20% a 30% do preço final. O mesmo vai acontecer aos ovos, uma subida de 20% a 30%. No caso do leite, não é possível estimar até onde irá chegar a subida. Quanto ao gasóleo sobe, e, a eletricidade também. As rações à base de cereais também fazem parte da alimentação do peixe de aquacultura, como a dourada e o robalo, os mais consumidos em Portugal, que também deverão ter um aumento de 20% a 30%. O aumento do atum em lata, também é inevitável, devido à escassez de óleo de girassol, presente na maioria das conservas, e, cuja venda já teve de ser restringida em Espanha. O preço das conservas deverá ficar 25% mais caro, do que no ano passado. Cerca de 80% do óleo vinha da Ucrânia, mas a maioria das fábricas está a ficar sem matérias-primas. A solução passa por tentar importar este óleo de outros países, como a Argentina, substituir por óleo de soja ou de palma, que são mais caros, ou transferir o consumo para as conservas de atum em água ou azeite, o que faz disparar os preços. para conseguir conter o aumento na fatura dos supermercados, as famílias de classe média, serão obrigadas a adaptar o consumo, substituindo produtos mais caros, por outros mais acessíveis. Mais dramática é a situação das famílias de menores rendimentos, que não têm alternativas, porque já compram sempre o mais barato. Em Portugal, há dois milhões de pessoas que vivem com menos de 450euros por mês, e, têm de fazer uma enorme ginástica para conseguirem sobreviver. Não têm margem para aceitar um aumento de preços. Só lhes resta cortar. Haverá crianças a ir para a escola sem pequeno almoço e para a cama se jantar. Meio milhão de pessoas dependem de apoio alimentar. Além do aumento da procura por parte das famílias portuguesas, as instituições ainda vão ter de responder ao afluxo de refugiados. É  um barril de pólvora. A construção e imobiliário assumem-se como um dos principais drivers da economia portuguesa, por força da sua resiliência e do investimento público e privado, mas com vários riscos emergentes, ligados à evolução dos mercados financeiros, acentuados com o cenário de guerra na Ucrânia. A nível do investimento, destaca-se o excesso de carga fiscal e burocrática; a falta de capacidade administrativa, de justiça e de estabilidade política. Ao nível da indústria, a elevada fragmentação, a baixa produtividade, que a par das elevadas taxas e impostos a cargo das empresas, inibe o crescimento salarial, a falta de inovação, formação e qualificação, a concorrência centrada no preço e a falta de regulação. Recentemente, a escassez da mão de obra e de materiais, tem sido uma das maiores preocupações do setor por afetar desfavoravelmente  no planeamento e execução dos investimentos previstos. Quanto ao investimento privado, principalmente no setor residencial, o excesso de procura face à oferta, devido à maior facilidade de crédito à habitação, do aumento de poupança e da alteração das preferências dos consumidores, mas também da dificuldade em construir e reabilitar mais barato, por questões de licenciamento e custos de investimento, somando ainda a inflação, tem mantido uma tendência global de crescimento do preço das casas. Assim, fazer habitação acessível e promover a inclusão social, torna-se cada vez mais complicado. principalmente pelos custos de construção e de contexto (impostos e burocracia), pese embora, a procura possa abrandar por alteração das condições de financiamento e capacidade das famílias Quanto ao investimento publico, as entidades públicas, terão de ganhar competências e capacidades para avaliar a capacidade técnica, económica e financeira, e o impacto territorial e ambiental dos investimentos, e ainda o seu enquadramento orçamental e respetivo modelo de contratação. A falta de mão de obra, a curto prazo, poderá ser atenuada reorientando profissionalmente trabalhadores desempregados ou de outras indústrias, promovendo a mobilidade transnacional, atraindo o regresso de operários da construção civil emigrados. A médio prazo, com a crescente necessidade de edifícios e de infraestruturas, terá de ser impulsionada a industrialização do setor, a fim de desenvolver competências de caráter mais tecnológico, e, atraindo mais talento, com maior diversidade de perfis. A carência de materiais é um problema global, acentuado com a evolução mais otimista, face ao previsto, mediante a pandemia, que acabou por criar um desequilíbrio excessivo entre a produção (reduzida)  e a procura (crescente) aumentando assim os preços. Quebras nas cadeias de comércio, perturbações nos mercados financeiros, e, sobretudo, forte pressão em alta dos preços dos produtos energéticos e de várias matérias-primas, são os principais impactos económicos desta guerra. . Significam um agravamento da fatura energética das famílias e das empresas e vão refletir-se mais cedo ou mais tarde em toda a economia. Seis meses após a invasão da Ucrânia pela Rússia, a previsão é que a inflação mundial fique acima de 8%, e, o crescimento global diminua para metade. Várias grandes economias registaram contração na economia e a subida dos preços já triplicou em quase todas as economias inclusive Portugal e Letónia. Os bancos centrais viram-se obrigados a acelerar a subida dos juros desde os finais de fevereiro. A globalização sofreu um grande choque. O grande choque pós invasão da Rússia à Ucrânia foi a subida da inflação. Estima-se que cerca de metade da subida dos preços é devido à guerra, sobretudo por causa da energia e do setor alimentar. O resto são os problemas na oferta que subsistem por causa da pandemia, nomeadamente das disrupções que a política de "covid" na China continua a gerar nas cadeias de abastecimento globais. Se imaginarmos um "multiplicador" para medir a dimensão nas taxas de inflação, China e Letónia e Portugal surgem à cabeça. Não porque a inflação tenha subido mais em pontos percentuais, mas porque o rácio entre a taxa existente em Janeiro e a taxa muito mais alta registada em julho, multiplicou o nível de inflação várias vezes. A China tinha uma inflação abaixo de 1% em janeiro, e, subiu para 2,7% em julho. Portugal registava uma taxa pouco acima de 35, e, em julho disparou para 9,4%. Segundo as previsões mais recentes do FMI, o que a tendência global para a subida dos preços irá implicar é que a inflação mundial irá subir de 4,7% no ano passado para 8,3% este ano, com a taxa nas economias desenvolvidas a duplicar. O impacto da guerra não foi uniforme nos preços das matérias-primas que circulam nas rotas da aldeia global. Investigadores na Universidade de Oxford, salientam que foi mais severo em cadeias de fornecimento globais específicas, associadas à energia e às commodities agrícolas. Em termos geoeconómicos, os choques nos preços foram de proximidade(sobretudo na UE em matérias-primas de energia) ou, à distância na geografia de risco da fome (em economias pobres) e das importações críticas para a produção agrícola(em muitas economias emergentes exportadoras).. O aumento brutal dos preços desde 24 de fevereiro é visível em dois casos, com uma subida de mais de 150%, os fertilizantes e o gás natural cotado na Holanda(em euros), devido ao afastamento progressivo do fornecimento russo à União Europeia. No petróleo, o barril de brent, de referência na Europa, caiu ligeiramente na cotação em dólares, mas subiu no contravalor em euros, em virtude da desvalorização do euro em 8% em relação ao dólar. O índice das matérias -primas subiu 3%, mas os preços dos metais (incluindo os preciosos) desceu nestes seis meses. À exceção da Rússia, que deverá deteriorar-se quase 10% em 2022 e 2023, as previsões recentes do FMI, não apontam pra uma recessão da economia mundial. Mas é de assinalar que o ritmo decrescimento irá cair para metade este ano, à escala mundial, resvalando abaixo dos 3% em 2023. Na zona euro em 2022, o PIB cai para menos de metade e há o risco de ficar pouco acima de 1%, no próximo ano.  Em Portugal, no segundo trimestre o PIB recuou 0,2% em relação aos três meses anteriores, apesar de a economia portuguesa continuar a beneficiar do boom do turismo, que funcionou como um retardador. Na Alemanha, a maior economia do euro, e outrora considerada "a locomotiva europeia", o PIB estagnou no segundo trimestre. Desde o primeiro dia da invasão russa, 73 bancos centrais por todo o mundo subiram as suas taxas diretoras, acelerando o aperto da política monetária. Somam 250 decisões de subidas. O BCE só tardiamente, a 21 de julho, decidiu iniciar o ciclo de subida dos juros com um aumento 0,5 pontos percentuais. Uma das mudanças que trouxe a crise geopolítica no Leste, foi acelerar a retirada progressiva da economia portuguesa da zona de risco da dívida pública. Desde a invasão russa à Ucrânia, o "spread" que os investidores exigem para comprar dívida portuguesa, subiu 10 pontos-base. O prémio de risco está acima dos dois pontos percentuais. Lagarde e o Conselho do BCE avançaram por unanimidade, com uma espécie de escudo contra a especulação a que deram à sigla TPI, que corresponde ao que tecnicamente designam por Investimento de Proteção à Transmissão da política monetária.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

O FUTURO DA GLOBALIZAÇÃO

 O Crescimento económico tem estado ligado à globalização. O rápido crescimento económico global do pós-guerra, foi acompanhado por uma célere expansão do comércio e do investimento a nível internacional.. Uma vez que vamos comprando bens e acedendo à informação, muitas vezes , sem prestarmos atenção às fronteiras nacionais, .é pouco provável que a globalização venha a recuar. Mas a expansão comercial, e, a abertura dos mercados está a parar. O sistema de comércio global, que abrange todas as exportações e importações sob a égide da OMC, está a fragmentar-se num conjunto de concomitantes acordos de comércio livre bilaterais e regionais. Uns quantos acontecimentos nos últimos anos, colocaram em evidência uma reação adversa aos ganhos desiguais da globalização. Embora haja grandes diferenças entre a decisão da Grã-Bretanha de abandonar a UE e ascensão do outsider político Trump à Casa Branca, os dois eventos revelaram muita coisa acerca do descontentamento do eleitorado com o status quo, inclusive, no que concerne à globalização. Num referendo histórico realizado em Junho de 2016, a Grã- Bretanha tornou-se a primeira nação soberana a votar a favor do abandono da UE. Algumas das sondagens, junto dos votantes, sugerem que uma reação negativa à globalização, possa ter desempenhado um papel no Brexit, a par de temas dominantes como a soberania e a imigração. O Governo do Reino Unido, tem insistido que a Gã- Bretanha, irá manter a sua perspetiva global, que constituirá um conjunto de políticas diferentes das suas atuais relações comerciais com os países que pertencem e os que não pertencem à UE, e que será seguramente importante para o futuro. Do outro lado do Atlântico, na renhida luta pela eleições presidenciais dos EUA, Trump identificou o comércio internacional, como um dos problemas que a América enfrentava e que ele resolveria de modo a tornar a América grandiosa, novamente, segundo duas regras: comprar o que é americano, e contratar quem é americano. O objetivo da globalização como resposta às dificuldades económicas, reflete um subjacente descontentamento com os benefícios desiguais resultantes da abertura global. Obama atribuiu algum desse descontentamento à globalização: a globalização combinada com as redes sociais e com informação constante, afetaram a vida das pessoas, de formas muito concretas- uma fábrica fecha, e, de repente, uma cidade inteira já não tem aquela que era a principal fonte de emprego- e as pessoas já não estão certas quanto às suas identidades nacionais ou o seu lugar no mundo. Não há dúvida de que isto produziu movimentos populistas, tanto de esquerda como de direita, em muitos países a Europa. As pessoas sentem uma desconfiança quanto à globalização, não podendo dar resposta às suas necessidades imediatas. Os benefícios da globalização, não foram equitativamente partilhados em todas as nações.  O enorme crescimento das economias emergentes nas últimas décadas, conduziu a uma maior desigualdade entre as nações, uma vez que mais países pobres foram "apanhando" o ricos numa era em que os mercados do mundo inteiro se tornaram cada vez mais ligados através do comércio e do investimento. A globalização ajudou as economias emergentes a crescer a bom ritmo, uma vez que conseguiram exportar para a América e para a Europa, ao mesmo tempo que beneficiaram do investimento ocidental. Assim, por causa do crescimento relativamente mais rápido, das economias emergentes, a desigualdade caiu em todas as nações, uma vez que o fosso dos rendimentos, se  estreitou entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento. Contudo, a desigualdade do rendimento global, manteve-se na sua maioria inalterada. Isto deve-se ao facto de dentro dos diversos países, a desigualdade, em média, não ter melhorado significativamente, ou, em alguns casos ter mesmo piorado. Embora, o sinal de aumento da desigualdade de rendimentos, possa ser parcialmente seguido até à globalização, isso não significa que a solução venha a ser encontrada só nas políticas  comerciais. é difícil separar os efeitos sobre as desigualdades provenientes do comércio, daqueles que emergem da transformação tecnológica, que beneficia mais, os altamente qualificados, do que os trabalhadores que se sutam a meio do espectro de qualificações. Mesmo, apesar de haver medidas que podem ser incluídas nos acordos comerciais, para garantir que se cumpram padrões adequados, no que respeita ao trabalho e à proteção do ambiente, é mais provável que as medidas de política interna, como a redistribuição e o investimento na qualificação, sejam capazes de dar resposta mais direta à crescente desigualdade. Auxiliar os perdedores da globalização e resolver a desigualdade, devia, então ser em primeiro lugar, um problema interno dos governos, em vez de uma questão do comércio. No entanto, a reação adversa à globalização leva os decisores políticos a focarem a sua atenção nos acordos comerciais, o que significa concretizar uma maior abertura é algo que está sob grande pressão. Mas a explosão do investimento direto estrangeiro que acompanhou o rápido crescimento do comércio internacional, desde o início dos anos 90. foi uma das razões que os países e desenvolvimento cresceram tão bem, que mil milhões de pessoas foram retiradas da pobreza extrema e o fosso entre estas nações e as suas semelhantes mais ricas, foi reduzido. Para os Grandes Economistas, a hipótese de poderem redefinir a forma como a globalização é gerida, seria vista como uma oportunidade de repensar alguns conceitos fundamentais. Certamente, aceitariam o desafio de reexaminar a questão de como aumentar a qualidade do crescimento económico, e, não apenas o seu ritmo; explicar como é que a economia opera em termos ótimos; e, analisar o que é que não funcionou e, como é que isso pode ser melhorado. Deste modo, os ensinamentos dos Grandes Economistas foram concluídos a partir de mais de dois séculos passados, a estudar os problemas económicos do mundo, podendo assim ajudar-nos a marcar o futuro da globalização e enfrentar os desafios atuais.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

OS DESAFIOS DE UMA ECONOMIA AZUL

 O que é uma economia azul? É o conjunto de atividades económicas que se realizam no mar, e , outras que não se realizando no mar, dele dependem, incluindo os serviços não transacionáveis dos ecossistemas marinhos. Trata -se  de uma definição ampla que abrange todos os subsetores tradicionais( como as pescas ou os portos), aos emergentes (aquacultura), aos transversais (turismo hoteleiro), aos serviços (financiamento e seguros) e à administração pública (poupança e defesa). Ficam também abrangidos nesta definição, aqueles a que nós podemos chamar de "novos subscritores", como a biotecnologia marinha, a robótica aquática, ou, as energias marinhas renováveis. Por seu turno, excluem-se do perímetro, as atividades que mesmo que tenham ou possam ter carácter económico, não são significativas ou não estão medidas em Portugal, e sobre as quais não existem dados. É uma definição que privilegia a cadeia de valor, ou seja, assume uma abordagem  abrangente, tão extensa quanto possível. De certo modo, olha-se para cada atividade e fragmenta-se a mesma em três: a atividade em si a atividade central, por exemplo, construção de navios em estaleiros), a atividade a montante (conceção de projetos de engenheira naval e a atividade a jusante o desmantelamento naval). A mesma lógica é aplicada nos estudos europeus que sobre esta matéria, vêm sendo desenvolvidas pela Comissão Europeia. Desde 2018, que se publica em Bruxelas, um estudo anual, sobre economia azul, que é o retrato mais completo de que dispomos para o espaço europeu. Embora, reconhecendo a dificuldade de estudar e comparar situações em 28/27 Estados-membros, (pré e pós Brexit) a Comissão adota o mesmo conceito de economia azul, integrando não só as atividades que se desenrolam no mar( como as pescas, a aquacultura, a energia eólica offshore, o transporte naval, as atividades portuárias e o petróleo ou gás natural.) mas também, num segundo pilar, as atividades que usam os produtos ou produzem bens ou serviços, ligados à economia azul, incluindo o processamento e retalho do subsetor alimentar marítimo, a construção naval, a biotecnologia marinha ou o subsetor segurador. Numa terceira e última dimensão, a UE, refere-se às atividades ao mar no quadro da administração pública, como seja o exercício de soberania, a proteção ambiental, e, os serviços de educação e investigação, ligados ao oceano. Traçada esta divisão puramente analítica, a UE conclui que se devem englobar no conceito de economia azul" todas as atividades económicas setoriais e multissetoriais relacionadas com os oceanos, os mares e as zonas costeiras, incluindo aquelas que se localizam em regiões interiores e nos Estados sem litoral"  A economia azul visa promover o crescimento económico, a inclusão social, bem como a preservação e melhoria dos ecossistemas, assegurando a sustentabilidade ambiental. Não pertencem ao conceito de economia azul, atividades que agridam o ambiente, que ameacem ou destruam os ecossistemas marinhos ou a biodiversidade, que não estejam alinhados com o propósito de inclusividade e de combate às alterações climáticas, ou, em geral , com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda de 2030. Um dos primeiros documentos onde esta ideia ficou consagrada, foi na declaração política aprovada, por consenso, por mais de 70 delegações de todo o mundo, na semana azul, em Lisboa em 2015. Ali se defende explicitamente que a economia azul deve promover a proteção do ambiente, o desenvolvimento sustentável, o crescimento económico exclusivo e a criação de emprego.  A economia azul é ,em suma, circular, inclusiva, descarbonizada e sustentável, como o determinam os compromissos internacionais (nomeadamente o Pacto Ecológico Europeu), mesmo que se reconheça que muitas atividades ainda têm um caminho a percorrer nesse sentido. Quais os desafios que a economia azul enfrenta? Estes desafios são, ao mesmo tempo, oportunidades de ir ao encontro dos novos mercados, tal como eles se configuram no século XXI. Não são tarefas gigantescas, nem caminhos solitários: são um convite ao diálogo permanente com a sociedade, com os poderes públicos, com as universidades ou com os financiadores. São um apelo a assumir uma abordagem globalizante, com traços novos, que se aceleraram no contexto pós- pandémico. O primeiro desafio é o do conhecimento: o mar é, ainda um imenso território inexplorado que temos de conhecer melhor, como condição essencial para dele beneficiar. Portugal é um país que é 3% do território terrestre e 97% do território marítimo, Só aprofundando o pilar do conhecimento se pode saber o que existe no solo e no subsolo, para que se cuide depois, da viabilidade económica e ambiental, e, do aproveitamento dos recursos vivos e não vivos. Só para os recursos vivos ,sabemos que o mar aloja 95% do total dos recursos da biosfera, podendo os mesmos ser usados em cosméticos. Já em plena pandemia, ficámos a saber que uma enzima marítima estará a ser utilizada no diagnóstico do vírus e que a hemoglobina extracelular, está a ser testada no quadro de combate a esta doença. Nos recursos não vivos, os materiais como o cobalto, cobre manganésio ou níquel, têm um valor industrial elevado e, são usados no fabrico de bens que usamos nos smartphones. O segundo desafio é o da sustentabilidade Hoje, e nos anos vindouros, nenhum projeto vencerá se não for ambientalmente sustentável e, se não for capaz de o demonstrar. Nunca como hoje, se falou tanto de sustentabilidade, de crescimento verde e azul, de novos modelos respeitadores do ambiente e de uma sociedade que procura  neutralidade carbónica até 2050. A atual Comissão Europeia transformou o Green Deal- Pacto Ecológico , em prioridade máxima da sua ação. Portugal  está totalmente alinhado com esta tendência, tendo-se afirmado nos últimos anos, como um país da linha da frente, em domínios como as energias renováveis, ou a economia para o baixo carbono. Fomos um dos primeiros países europeus, a apresentar um roteiro para a neutralidade carbónica. As medidas tecnológicas procuram obter mais eficiência energética, através de novas regras e design e uso de melhores materiais de construção, bem como recuperação do calor ou novas técnicas de incentivo. Por sua vez, as medidas operacionais, passam acima de tudo, pela redução do consumo. As medidas energéticas são aquelas que visam substituir o consumo de energias fósseis por alternativas como os biocombustíveis, o gás natural liquefeito, o hidrogénio, a energia eólica ou nuclear. Face a uma tendência inevitável, não resta aos operadores outra alternativa senão incorporar no seu comportamento empresarial, a narrativa da sustentabilidade, e, perceber tão rapidamente quanto possível, que isso é uma condição existencial do século XXI. O acesso ao financiamento é outro dos desafios das empresas para poderem crescer, internacionalizar e investir. A capacidade de aceder ao financiamento bancário para aquisição de ativos produtivos (bankability) e as limitações ao crescimento (scale-up), são restrições sérias que as empresas sobretudo, as PME,  sentem no seu dia a dia. No quadro europeu, a Comissão Europeia acordou com o BEI, um conjunto de princípios sobre o financiamento da economia azul sustentável, que começam poe reafirmar a ideia central de sustentabilidade e do papel das instituições financeiras, como promotoras dessa sustentabilidade, sublinhando num desses princípios, a necessidade de restaurar, proteger ou manter a diversidade, resiliência, valor intrínseco de saúde nos ecossistemas marinhos. Parece pois, que não há falta de instrumentos financeiros: há, sim, que tornar estes mecanismos mais conhecidos e fluidos, os processos menos burocráticos, no quadro de uma cultura empresarial mais arrojada, capaz de executar projetos tão poderosos como o próprio oceano. Um último desafio é a aposta na diversificação.  Diversificar, significa criar valor acrescentado nas atividades económicas internacionais. Num quadro de pressão demográfica, continuamos a necessitar de acesso às proteínas animais do peixe, seja através das pescas ou da aquacultura. Mas uma pesca sustentável, e, eficaz precisa de se modernizar. A nossa frota é ainda inadequada, face aos nossos parceiros europeus, e, carece de renovação e modernização. Sem isso, também não seremos capazes de nos lançar nos palcos internacionais, de forma mais visível, conquistando quotas de mercado no peixe e nas conservas em segmentos distintivos, oferendo serviços de ponta inovadores no setor bancário e segurador,  apostando na energia eólica offshore, onde estamos muito à frente de outros países europeus e dispondo de legislação primária que nos permita avançar para a neutralidade carbónica em 2050, estimulando cientistas investigadores e instituições nacionais a apostar na investigação e desenvolvimento na área do mar, onde marcamos também, a linha da frente da produção científica internacional..


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

APOCALIPSE CLIMÁTICO ?

 Há alguns anos era comum ouvir as pessoas negarem as alterações climáticas, menosprezarem a enormidade da ameaça, ou argumentarem que era demasiado cedo para nos preocuparmos. A Humanidade tem enormes recursos ao seu dispor e, aplicando-os sabiamente, pode ainda evitar o cataclismo ecológico. Se a Humanidade quisesse evitar as alterações climáticas catastróficas, qual o valor que teria de pagar? De acordo com a Agência Internacional de Energia, alcançar uma economia neutra em carbono, exigiria que gastássemos 2% do PIB global anual, além do que já fazemos, no nosso sistema energético. Numa sondagem recente, feita pela Reuters a economistas do clima, a maioria concordou que chegar ao crescimento zero, custaria apenas 2% a 3% do PIB global anual. O relatório do Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas de 2018, refere que, para limitar as alterações climáticas a 1,5% C, é necessário aumentar os investimentos anuais em energia limpa, para cerca de 3% do PIB global. Uma vez que a Humanidade já gasta cerca de 1% do PIB global anual em energia limpa, precisamos apenas de uma fatia extra de 25% do bolo. Existem outras fontes de emissões, como a utilização dos solos, a silvicultura e a agricultura. Muitas dessas emissões, podem ser diminuídas de forma barata através de mudanças comportamentais, como a redução do consumo de carne e laticínios, e, passar a depender mais de uma dieta à base de vegetais. O preço para evitar o apocalipse, está muito abaixo dos dois dígitos do PIB global anual. Não são certamente 50% do PIB global anual, nem 15%. Em vez disso, está algures abaixo dos 5%, talvez tão baixo, quanto investir mais 2%, em lugares certos. É importante fazer investimentos em novas tecnologias e infraestruturas, como baterias avançadas para armazenar energia solar e redes de energia atualizadas para a distribuir. Estes investimentos criarão numerosos postos de trabalho e oportunidades económicas, e, serão eventualmente economicamente rentáveis a longo prazo, em parte, através da redução das despesas de pessoas com cuidados de saúde, salvando milhões de pessoas de doenças causadas pela poluição atmosférica. Podemos proteger as populações mais vulneráveis contra desastres climáticos, tornar-nos melhores para as gerações futuras, e, criar uma economia mais lucrativa. Aprendemos nos últimos anos a definir o nosso objetivo à volta de um número: 1,5ºC . Podemos determinar a maneira como o alcançamos com outro número: 2%. Temos de aumentar o investimento em tecnologias e infraestruturas verdes 2% acima dos níveis de 2020. Naturalmente, ao contrário do valor de 1,5º que é um limiar cientificamente robusto, o valor de 2% representa apenas uma estimativa aproximada. Prevenir as alterações climáticas catastróficas é um projeto totalmente viável, embora, obviamente custe muito dinheiro. Uma vez que o PIB global é de 2% atualmente, significa que para se salvar o ambiente, não precisamos de prejudicar completamente a economia, num abandonar as conquistas da civilização moderna. Precisamos apenas de redefinir as nossas prioridades. Assinar um cheque no valor de 2% do PIB anual global, não é o suficiente. Não resolverá tosos os nossos problemas ecológicos, como os oceanos repletos de plástico, ou a perda contínua de biodiversidade. E mesmo para evitar as alterações climáticas catastróficas, teremos de garantir que os fundos são investidos nos locais certos e que os novos investimentos não provocam os seus efeitos ecológicos e sociais negativos. Se para explorar os metais raros, que são necessários para a indústria de energias renováveis, destruirmos ecossistemas, então podemos perder tempo quanto ganhamos. Também teremos de mudar alguns dos nossos comportamentos, e, formas de pensar, desde o que comemos até à forma como viajamos. Durante a crise financeira de 2008- 2009, o governo americano gastou cerca de 3,5% do PIB para salvar as instituições financeiras consideradas demasiado grandes para falir. Talvez a Humanidade deva também encarar a floresta amazónica, como sendo grande para falir! Tendo em conta o preço atual da floresta tropical na Amazónia do Sul, e, o tamanho da floresta amazónia, comparar todos esses terrenos para proteger as florestas, a biodiversidade e as comunidades locais contra os interesses empresariais destrutivos, custou cerca de 1% do PIB global. Atualmente, nem a empresas, nem os governos estão dispostos a fazer o investimento adicional de 2%, necessário para evitar as alterações climáticas catastróficas. Então para onde vai o dinheiro? Em 2020, os governos gataram 2,45do PIB global.  De dois e dois anos, outros 2,4% são gastos em alimentos que vão para o lixo. A UE estima que o dinheiro escondido pelos mais ricos em paraísos fiscais corresponde a 10% do PIB mundial. Todos os anos mais de 1 bilião de dólares em lucros, são escondidos em offshores pelas empresas, o que corresponde a 1,65 do PIB global Pra evitarmos o apocalipse, provavelmente, precisaremos de impor alguns novos impostos. Mas porque não começar por cobrar os mais antigos? É  claro que é mais fácil falar de cobrança de impostos, de redução de orçamentos militares, de interrupção do desperdício alimentar e de redução de subsídios, do que fazer alguma coisa, especialmente quando somos confrontados com alguns dos lóbis mais poderosos do mundo. É preciso uma organização determinada sempre que alguém disser:  O apocalipse já chegou!

Algo de grave se está a passar com o planeta onde vivemos. Em Trás-os- Montes, Alentejo e Algarve, onde antes havia riachos como no Norte de África, antes havia paisagens e ainda verdes, agora há cinzas e árvores queimadas e sempre os monstruosos eucaliptos para alimentarem o próximo fogo, onde outrora havia rebanhos, caça aves e sinais de vida, agora há um deserto silencioso e assustador, e, onde antes havia muita gente, aldeias, casais e hortas, agora há ruínas e silêncio, e, de repente como num filme de ficção científica, ilhas de um verde imenso, onde se produz intensamente olival, amendoal, laranjal, abacate regado até à loucura com água que hoje faz falta nas ribeiras e nas barragens e que amanhã faltará nas torneiras. Este verão, Portugal e a Europa bateram recordes de temperaturas nunca antes atingidos, Todos os rios de referência na Europa- o Danúbio, o Ebro, o Tigre, o Loire e o Tamisa- e todas as grandes barragens esvaziaram-se, numa antevisão tenebrosa, daquilo que nos espera no futuro próximo. Num relatório apresentado há dias pela Organização Meteorológica Mundial, estima-se que num dos próximos cinco anos, viveremos o ano mais quente de que há memória, com as temperaturas a subirem, em média 1,5graus, exatamente aquilo que se queria evitar que acontecesse antes de 2050 e que mais de 150países se tinham comprometido em Paris a fazer tudo para o evitar. Hoje, porém, sabemos que tudo andou pra trás: o regresso em força às energias fósseis(incluindo as centrais de carvão) fez com que as emissões de dióxido de carbono, responsáveis pelo aquecimento global, tenham já regressado a valores anteriores à pandemia, e, sabemos que mesmo que todos conseguissem inverter o rumo e assegurar os compromissos estabelecidos para serem cumpridos até 2030, os danos já são irreversíveis. Em 2050 já não será possível evitar que a temperatura do planeta se tenha fixado em pelo menos mais 1,5graus do que hoje. E daí para a frente entramos naquilo que Guterres chamou "territórios de destruição", num processo absolutamente irresponsável: aquecimento dos oceanos, degelo da calote polar, dos icebergues e dos Himalaias ( com as inundações a que já estamos a assistir no Paquistão), secas extremas e prolongadas, começando pelos países subsarianos ( onde o número de pessoas atingidas pela fome extrema duplicou nos últimos três anos), rios e barragens vazios ou reduzidos a caudais mínimos, culturas e animais em extinção, incêndios cada vez maiores e mais incontroláveis e água cada vez mais escassa para abastecer os humanos. É importante perceber as teses otimista e conformista. a primeira pretende que in extremis a ciência encontrará maneira de evitar o desastre, como o fez tantas vezes antes, ou o próprio planeta se encarregará de se regenerar por si mesmo: segundo a tese conformista, o que estamos a viver é resultado da exaustão dos recursos naturais por exploração humana. E assim sendo vamos viver uma crise regeneradora: milhares de milhões de seres humanos irão morrer, para que os outros sobrevivam e, com a experiência adquirida e a ajuda da ciência, possam retomar a vida num planeta mais limpo e liberto da pressão sufocante de hoje. Um darwinismo planetário em que já se advinha quem são os milhares de milhões sacrificados. Décadas de passividade perante os avisos que o planeta foi dando, conduziram ao que de repente parece uma súbita aceleração dos indicadores do desastre, mas que ´+e apenas a resposta da doença por falta de tratamento. Assusta-me uma geração de líderes mundiais que prefere continuar irresponsavelmente a ocupar-se dos seus jogos de guerra, negócios de armas e de energia, enquanto o mundo que habitamos se desintegra à vista de todos, bem como  me admira a indiferença com que a geração jovem assiste a isto, comodamente instalada no seu mundo virtual e hedonista, sendo que sabemos que o presente e o futuro será construído por nós.

 

















quinta-feira, 11 de novembro de 2021

UM NEW DEAL VERDE

 O Geen Deal europeu, deu uma nova orientação à economia da União Europeia: o seu objetivo seria transformar uma economia com elevadas emissões de carbono, numa outra de baixas emissões, mantendo em simultâneo, as condições de vida, aumentando a qualidade de vida, e, melhorando o ambiente natural. Apresentou 50 medidas políticas específicas, e, afirmou a sua intenção de atingir os objetivos do Acordo de Paris sobre as alterações climáticas. O principal objetivo do Green Deal europeu, ao tornar a Europa neutra em termos climáticos, é ajudar a abrandar o aquecimento global, e mitigar os seus efeitos. O plano prevê aumentar a meta de 2030 da UE, DE reduções de emissões líquidas de 40%, para pelo menos 50%. Ao mesmo tempo, o Green Deal, será a estratégia de crescimento da Europa, criando emprego e melhorando a qualidade de vida. Isto implicará, reduzir as emissões em muitos setores, dos transportes à tributação, da alimentação à pecuária, da indústria à agricultura.  A preservação da biodiversidade também é um objetivo importante.. O que se pretende é que esse esforço catalise um investimento significativo. O Plano de Investimento para uma União Europeia sustentável, anunciado a 14 de Janeiro de 2020, tem como objetivo mobilizar pelo menos um bilião de euros de investimentos relacionados com a sustentabilidade durante a próxima década. Cerca de metade desse valor sairá do orçamento da UE, mas 114milmilhões de euros dos governos nacionais e 279mil milhões de investimento do setor privado, apoiado por garantias de empréstimo do Banco Europeu de Investimento. Outra parte do plano é um Mecanismo para a transição justa, em cujo âmbito, serão reunidos 100mil milhões de euros, com o financiamento do Banco Europeu de Investimento e dinheiro privado, par ajudar os países da Europa Oriental, que defendem mais de combustíveis fósseis, como o carvão. Políticas como estas, precisam de um enquadramento claro e também de alterações obrigatórias do statu quo., Por exemplo para o Green Deal Europeu ser bem sucedido, os governos precisam de reformular amplamente os instrumentos financeiros, o que inclui orientar os bancos públicos, como o Banco Europeu de Investimento, ou bancos nacionais, para o fornecimento de fundos a projetos verdes; usar fundos estruturais que apoiam o desenvolvimento económico em todos os Estados-membros, para promover infraestruturas verdes em vez de projetos "prontos para começar"; e, reestruturar os fundos de investimento e os fundos para pequenas e médias empresas, mais inovadoras que proporcionam soluções verdes. Estão a ser elaboradas propostas para a alteração de políticas. Entre outras medidas principais propostas, contam-se a Estratégia Industrial da UE e uma lei da Economia Circular. Também foi proposto um mecanismo fronteiriço de carbono para determinado setor - uma tarefa sobre produtos proveniente de padrões ambientais inferiores, destinada a cumprir as normas da Organização Mundial do Comércio. Ao iniciar conscientemente, o programa Apollo, como precedente do Green Deal europeu, a srª Von dder Leyen, procurou concentrar a atenção no resultado e não na escala do desafio e convocar o espírito do Apollo para guiar a Europa do século XXI. Durante muito tempo, os governos sobreinvestiram no carbono e subinvestiram nas fontes de energia renováveis. As receitas económicas convencionais de resolução do problema das alterações climáticas, apenas com um imposto do carbono, e, alguns subsídios para I&D, conjugadas com os entraves  de políticas económicas aos impostos do carbono, deixaram -nos com sistemas omissos de impostos do carbono e uma transição verde preocupantemente lenta. Precisamos mais do que meras iniciativas dos governos; as propostas tanto dos Estados Unidos como da UE, não podem funcionar entre setores como a energia renovável, a descarbonização dos veículos ou quaisquer outras iniciativas específicas de setores. Pelo contrário, é necessário uma transformação inovadora em todos os setores, o que constitui uma das maiores mudanças, alguma vez tentadas pelos seres humanos. Será fundamental, reduzir o conteúdo material das indústrias pesadas, como a siderúrgica e introduzir uma economia circular de resíduos em setores, com uma mentalidade de reconverter, reutilizar e reciclar. Isto exige, alterações de materiais que possam produzir roupas mais duradouras, mudanças na nossa alimentação, com uma maior atenção a alimentos de origem local, e uma passagem para técnicas de produção como o fabrico em 3D. Todavia, os mercados não encontrarão sozinhos, uma orientação verde. Os governos têm um papel fundamental a desempenhar, fornecendo um canal estável e consistente de investimento, que garanta que a regulação e a inovação convirjam, segundo uma trajetória verde que enfrente as alterações climáticas. Além disso, os governos não podem recorrer às intervenções costumeiras, como os incentivos fiscais ou os subsídios públicos, que pura e simplesmente, não são suficientes para alimentar as mudanças necessárias. O New Deal Verde tem dimensões verdes, a nível citadino, regional e internacional. As políticas existentes mudam de formas radicais, quando a solução dos problemas é colocada no cerne da estratégia. Isto significa, essencialmente, pôr os objetivos no centro, do modo como é visto o crescimento económico em si, trazendo a orientação da inovação. A Energiwend  representa um grande desafio. Tem por objetivo, a eliminação progressiva da energia nuclear, na Alemanha até 2022, o carvão até 2038, e metas progressivas para a geração da eletricidade renovável. O abandono da energia nuclear tornou mais difícil a implementação da Energiwend, porque o encerramento rápido das centrais nucleares, aumentou a necessidade das outras, alimentadas a carvão. Outro desafio, é a distribuição equitativa da transformação. Uma vez que muita da geração de energia sustentável , ainda beneficia dos subsídios tarifários, generosos da década de 2000, quando sobretudo a energia fotovoltaica solar, era muito cara, os alemães enfrentam sobrecargas significativas nas suas faturas de eletricidade, o que faz com que os preços da energia elétrica na Alemanha, se contem entre os mais elevados da Europa, e, uma vez que algumas indústrias e instalações de utilização intensiva de energia, estão isentas, a responsabilidade recai ainda mais, sobre as famílias, fazendo com que alguns se perguntem se o apoio público ou projeto, irá diminuir. Tudo isto, traz-nos de volta a ideia de que os objetivos sociais são mais difíceis de realizar do que as meramente tecnológicas, porque conjugam mudanças políticas regulatórias e comportamentais. E quanto ao fosso digital? No mundo de hoje, a capacidade de trabalhar com dados e tecnologia digital, é quase um direito humano. Sem ela, não há oportunidades relacionadas com aquilo que a economia do conhecimento e a conectividade digital proporcionam. Embora a tenologia esteja, em teoria disponível para todos, na verdade não o está, e, o confinamento de 2020, provocado pela covid, ampliou e reforçou o fosso digital, uma vez que os alunos tiveram um acesso desigual à tecnologia necessária ao ensino doméstico; muitos viram-se bloqueados sem banda larga ou computadores, tablets ou telemóveis suficientes. Muitos também não tiveram condições para aceder aos recursos de ensino online. O fosso digital é um feixe de diferentes desigualdades que convergem para criar resultados digitais desiguais, não uma mera divisão no acesso à internet, ou a computadores portáteis,  mas uma divisão em relação ao fornecedor de acesso à internet, em relação ao interesse, às oportunidades relevantes online, e ao mesmo tempo de as utilizar, à formação qualidade de ligação e acessibilidade. O fosso digital é um problema mundial. Assim, as principais inovações necessárias, exigem uma melhoria da difusão, democratização, navegação integrada de recursos online e formação, algo que requer a coordenação de políticas que tenham como alvo o acesso a serviços online baratos, sustentáveis, acessíveis  e valor.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

A CRISE ENERGÉTICA GLOBAL

 O petróleo é a peça chave no xadrez geopolítico global. Os mercados energéticos estão em ebulição. Depois dos recordes atingidos recentemente, os contratos futuros do gás natural, aliviaram nos últimos dias, e, o custo grossista da eletricidade também, mas em ambos os casos,, os preços permaneceram historicamente elevados, ameaçando encarecer a fatura da energia, de famílias e empresas na Europa fora, durante o inverno. Como aqui chegámos? E, sobretudo, como vamos sair daqui? O mundo vive em tempestade perfeita na energia: A pandemia e os respetivos confinamentos fizeram descer o consumo de produtos petrolíferos, e com isso, os preços baixaram. Depois acabaram os confinamentos, a atividade económica recuperou, voltámos a viajar, e, com mais procura, o preço do petróleo subiu. E não foi pouco  crise energética que vivemos é uma matrioska de crises, porque as decisões dos grandes produtores de petróleo, condicionam o que sucede no gás. E a evolução do preço do gás, determina o que pagamos pela eletricidade nos mercados grossistas, pois os nossos sistemas elétricos, continuam a depender de centrais de ciclo combinado, alimentadas a gás para produzir, quando as renováveis não dão conta do recado. No petróleo, há projeções que sugerem que o pico da procura, será ainda esta década, e. depois cairá. No curto prazo há uma crise por resolver. O aumento dos preços da eletricidade na Europa é uma notícia para a transição energética e ecológica, tendo em conta que o problema remete à origem, que são as fontes de energias fósseis. Quando temos uma Europa e um mundo decidido em avançar para um processo de transição para uma energia limpa, é inevitável não desanimar perante a corrida às energias fósseis. Portanto, lutamos contra as alterações climáticas, e, assumimos querer fazer melhor. Para defender o clima, precisamos de soluções ativas reguladas que façam a diferença, e, que, efetivamente criem condições para um planeta melhor, que nos ajudem a responder às alterações climáticas e impulsionem a descarbonização.. Outro facto absurdo, é constatar que o problema da matérias-primas é transversal à indústria e ao próprio setor da energia, porque atualmente, o custo das obras de projetos nas renováveis, e, inclusive nos painéis solares, também dispararam significativamente. Seria expectável que o mundo mergulhasse no tema dos preços da eletricidade e, nesta fase, fossem identificadas soluções a curto médio e longo prazo, para que daqui a alguns anos, não estivéssemos a reviver este problema energético. É  preciso exigir respostas e continuar a reforçar a energia verde, até porque as renováveis continuam a ser um dos vetores da descarbonização, em linha com o que está previsto para a neutralidade carbónica, que Portugal se propõe alcançar em 2050. Podemos continuar a percorrer o caminho para aumentar a capacidade renovável, mas importa analisar os custos inerentes às instalações das centrais e da matéria-prima nas renováveis, porque deste modo só estamos a dificultar que a energia renovável permaneça, se lutarmos para uma economia de baixo carbono.  A crise climática é uma bandeira vermelha para a Humanidade. Os líderes mundiais foram postos à prova na Conferências das Nações Unidas sobre as alterações climáticas, mais conhecida como COP26, em Gasglow. Os sinais de alerta são difíceis de ignorar: as temperaturas atingem novos máximos, a biodiversidade regista valores mínimos, e, os oceanos estão a aquecer, a acidificar e a sufocar com resíduos de plástico. O aumento das temperaturas fará com que grandes extensões do nosso planeta, sejam mortas para a Humanidade, até ao final do século. Na verdade, estamos ainda muito longe da meta de 1,5ºC que a comunidade internacional definiu no Acordo de Paris, uma meta que a ciência nos diz ser a única via para garantir a sustentabilidade do planeta. Esta meta ainda é totalmente alcançável, se ao longo desta década reduzirmos as emissões globais em 45%, em relação aos níveis de 2010, se conseguirmos atingir a neutralidade carbónica até 2050, e, se os líderes mundiais chegarem a Glasgow com metas ousadas, ambiciosas e confiáveis para 2030. Todos os países têm de perceber que o velho modelo de desenvolvimento, assente no carbono, é uma sentença de morte para as suas economias e para o nosso planeta. Precisamos de descarbonizar agora, em todos os setores de todos os países. Precisamos de transferir os subsídios dos combustíveis fósseis para as energias renováveis, e, tributar a poluição, não as pessoas. Precisamos de definir um preço para o carbono e canalizar essas verbas para infraestruturas e empregos resilientes. As empresas precisam de reduzir o seu impacto climático e de alinhar de forma completa e credível as suas operações e fluxos financeiros com um futuro de emissões zero. Todas as pessoas, em todas as sociedades, precisam de fazer escolhas melhores e mais responsáveis sobre como se alimentam, viajam e consomem. Por outro lado, os jovens e os ativistas do clima, devem continuar a exigir aos seus líderes, que tomem medidas e responsabilizá-los. Em todo este processo de mudança, precisamos de solidariedade global para ajudar todos os países.

Os bancos públicos e multilaterais de desenvolvimento, devem aumentar significativamente os portfólios climáticos e intensificar esforços para os ajudar na transição para economias resilientes e neutras em carbono. O mundo desenvolvido deve cumprir com urgência o seu compromisso de garantir pelo menos, 100mil milhões de dólares em financiamento climático anual aos países em desenvolvimento. A Organização das Nações Unidas foi fundada há 76 anos para construir um consenso na ação contra as maiores ameaças que a Humanidade enfrenta, mas raramente enfrentamos uma crise verdadeiramente existencial, que se não for bem gerida, constitui uma ameaça não apenas para nós, mas para as gerações futuras. Um futuro com um aquecimento global abaixo de 1,5ºC é o único futuro viável para a Humanidade, por isso, os líderes mundiais devem continuar a trabalhar em Glasgow.


quinta-feira, 23 de setembro de 2021

A RECUPERAÇÃO ECONÓMICA

 O" desconfinamento" permitiu à economia dar um salto, ao mesmo tempo que a injeção de fundos públicos, parece ter sido bem-sucedida, na proteção do emprego. A retoma continuará a bom ritmo, levando a revisões em alta das previsões de crescimento. Portugal foi das economias mais afetadas pela crise, e é dos 14 países da UE , que ainda não regressou aos níveis de produção de 2019. A recuperação da economia portuguesa, foi impulsionada por um crescimento muito significativo do consumo privado, nomeadamente, no que se refere às componentes de bens e serviços duradouros. No entanto, à medida que as restrições desapareceram, a economia tem maior força para acelerar. Portugal dá o segundo maior salto da Europa( 4,9%). Este dinamismo, conjugado com outros indicadores avançados, está a motivar um maior otimismo sobre o crescimento deste ano., Comissão Europeia e Banco de Portugal, esperam uma variação do PIB, acima dos 5% no próximo ano. No pico da crise, embora tenha sido a segunda maior recessão de sempre (-7,6%), a contração da economia foi inferior às previsões de todas as instituições, inclusivamente do Governo, com apoios públicos ambiciosos, a atividade aguentou-se melhor do que muitos esperavam. Na retoma, o crescimento do segundo trimestre sugere, que em condições de controlo da crise sanitária e ausência  de restrições, a economia tem potencial de crescimento e de regresso ao nível da atividade anterior à crise. Por outro lado, a produção industrial, atravessa dificuldades, devido aos apertos nas cadeias de produção globais, à escassez de inputs ou produtos intermédios.. Na frente externa, as exportações ainda são muito penalizadas pelo turismo e ficaram no segundo trimestre 18,3% abaixo do final de 2019 e 15,3% abaixo do segundo trimestre de 2019.Nos próximos trimestres, a retoma da atividade económica deverá continuar. Apontam -se três razões: primeiro a expansão do consumo, que deverá continuar a beneficiar do elevado nível de poupança acumulado pelas famílias e pela recuperação do mercado de trabalho. A taxa de poupança das famílias atingiu 14,2% no primeiro trimestre de 2021. Uma poupança excedentária que poderá ser libertada progressivamente para consumo.. O segundo fator, é o dinamismo do investimento, que num contexto em que à recuperação cíclica da atividade, se soma a implementação de importantes projetos, ao abrigo de fundos europeus, antecipando uma retoma das exportações. Porém, no caso do investimento- só caiu num trimestre desde o início da crise, e, tem vindo a aumentar desde esse momento. Segundo o BPI, esse bom desempenho é explicado pela intervenção pública. O Estado realizou uma série de investimentos necessários à pandemia, nomeadamente enquadramento médico, ou a aquisição de material informático e escolar. Na relação do País com o exterior, há que apontar duas questões: a primeira é de exportações de mercadorias que, até Julho, já superaram mesmos os valores vendidos em 2019, antes da pandemia. Por outro lado, as exportações de serviços- essencialmente os gastos de turistas estrangeiros- continuam muito longe da pré-crise. Com as viagens e a circulação muito condicionada, a normalidade pode demorar a chegar. Só no mês de Julho as dormidas de turistas estrangeiros estavam 39milhões abaixo de 2019.

O que se passa com o emprego? Talvez a maior surpresa esteja no mercado de trabalho. A taxa de Julho desceu para 6,6%. O mesmo valor de Fevereiro do ano passado, antes do primeiro confinamento. O números do desemprego têm gerado bastante confusão, mas se olharmos para a população empregada, a conclusão ainda é mais impressionante.. ,4,8 milhões de portugueses, têm trabalho; um máximo desde 1998.. São mais 238mil do que no mesmo mês de 2020 e mais 89mil do que em 2019. Como se explica que um país ainda em crise, com uma pandemia ativa e ainda com restrições, no terreno, esteja a bater recordes no mercado de trabalho? Pode-se explicar por políticas públicas de emprego, contratações na indústria, recuperação do turismo, muitos empregos apoiados, e, o facto de ainda não conseguirmos ver os efeitos negativos do fim das moratórias. São esses os motivos para o emprego estar a surpreender. A crise mudou o contexto e levou os governos a colocarem mais funcionários públicos, que estão agora no nível mis elevado de sempre. Além disso há um conjunto de setores que não são considerados da Administração Publica mas que estão correlacionados. Do lado do setor privado, os dados do INE mostram uma indústria a contratar mais 43mil no segundo trimestre e uma construção que não foi travada pela pandemia- é com a banca e o imobiliário, o único setor que cresce face a 2019. O segmento industrial, principalmente a metalomecânica, tem continuado a exportar. Contudo, ainda é cedo para saber se são números sustentáveis. A natureza da crise pandémica arrasta a atividade, por altos e baixos, e, embora Portugal tenha uma das maiores taxas de variação do mundo, o aparecimento de uma nova variante, pode ser suficiente para colocar em causa muito do nosso progresso.. Temos um enquadramento europeu muito favorável. O BCE continua muito ativo no mercado da dívida, mantendo os juros controlados . Qual será o impacto do final das moratórias de crédito? O turismo  regressará à dimensão que tinha em 2019? Algumas questões económicas irão ter de se resolver. Esperemos o fim da pandemia para solucionar algumas questões económicas. É muito difícil prever o futuro, mas é certo que neste século iremos trabalhar menos horas, ter um trabalho mais flexível, ter mais tempo livre, inteligência artificial e robotização. Irão ser criados novos empregos nas áreas de saúde, bem-estar educação e cultura.

Estamos confrontados com a urgência de reforçar o multilateralismo e de apoiar os mais pobres na resposta a três grandes crises- a pandemia( que agravou a pobreza e as desigualdades)as alterações climáticas e as migrações.

O Comité de Ajuda ao Desenvolvimento (CAD) é o guardião das políticas de cooperação e ajuda ao desenvolvimento: mobiliza os recursos financeiros (públicos e privados), para os países mais pobres, e recolhe, analisa e publica dados estatísticos, avalia as políticas nacionais; e aprova os padrões de regras internacionais de cooperação para o desenvolvimento. Foi o CAD que, de forma pioneira, aprovou regras e princípios que hoje são consensualmente considerados como referência internacional, de que são exemplo a obrigatoriedade de ajuda em intuito comercial, o alinhamento dos programas de ajuda com as necessidades dos países de destino, a integração das preocupações com a igualdade de género e com a proteção ambiental, em todos os projetos e programas, ou ainda, a consagração do princípio de coerência entre as políticas de cooperação para o desenvolvimento. Mas, nos últimos anos, muito mudou no panorama de cooperação internacional, Por um lado, surgiram novos doadores governamentais que não são membros da OCDE (como a China, India e Brasil), novas modalidades de ajuda (como a cooperação sul-sul, a cooperação triangular e o financiamento privado), e novos protagonistas não governamentais, setor privado, ONG e fundações). Por outro lado, a agenda de cooperação para o desenvolvimento, teve de se ajustar à nova arquitetura global, que emergiu da aprovação em 2015, da ambiciosa Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, do Acordo de Paris e do Plano de Ação  de Adis Abeba para o financiamento ao desenvolvimento. Finalmente, o sistema de ajuda ao desenvolvimento foi colocado, nos últimos cinco anos, perante uma sucessão de testes de stress; a crise síria, que originou a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, a crise alimentar na região do Sahel, os efeitos devastadores de fenómenos climáticos extremos em vários Estados insulares das Caraíbas, mas também em Moçambique; e finalmente a pandemia, que evidenciou a fragilidade extrema dos países mais pobres. Neste contexto tão exigente, foi crucial demonstrar a validade do CAD, em duas dimensões; em primeiro lugar provou-se mais uma vez a resiliência e a natureza contra cíclica da ajuda pública ao desenvolvimento. Em segundo lugar, domos capazes de desenhar, de negociar e de aprovar, nos últimos cinco anos, ima nova vaga de reformas, ao nível das regras de cooperação para o desenvolvimento. A título de exemplo destaco: a prevenção e o combate ao abuso à exploração e ao assédio sexual; o envolvimento da sociedade civil nas atividades de cooperação para o desenvolvimento; as regras e estratégias para o reforço do financiamento privado(blended finance) e, para o investimento de impacto no desenvolvimento sustentável; o triplo nexus  de ações de desenvolvimento de ajuda humanitária e de esforços de paz.. Temos de assegurar o acesso equitativo às vacinas, liderar a descarbonização da economia, erradicar a pobreza e combater as desigualdades.

O colapso da economia portuguesa em 2020, foi a maior contração anual registada desde a queda da monarquia. Mas, apesar do do prejuízo recorde de mais de 8% no primeiro ano da pandemia, o PIB, deverá regressar ao nível pré-Covid, já durante o ano em curso. A perda acumulada até que o PIB, regresse ao nível de 2019, soma 12,4% muito distante dos 39%, provocados pelas duas crises sucessivas entre 2009 e 2013, juntando a recessão mundial, com a retração provocada pelo resgate da Troika. Com um crescimento real de 4,9%, em 2021, estimado recentemente pelo INE, e uma aceleração da recuperação económica em 2022 acima dos 5%, segundo as diversas previsões existentes, a saída desta crise, provocada pela pandemia, será por isso, relativamente rápida. Nas duas grandes recessões da história portuguesa, desde o início do século XX, os efeitos foram mais longe, e, os problemas na economia também. Mais concretamente, na crise que houve entre 2009 e 2013, o PIB perdeu mais de 39%, e, a recuperação levou uma década. Na depressão entre 1913 e 1918, a economia perdeu 24% , e, o regresso ao nível de 1912, levou também dez anos. A crise de 2020 foi a mais recente num conjunto de 25 quebras anuais do PIB.A saída da crise, só é considerada, quando o PIB regressar ao valor pré -crise e se inicia um período de expansão do produto. Na crise atual, se a projeção para 2022 se confirmar, o PIB começará a expandir-se, ainda este ano. A recuperação mais acelerada agora esperada, deve-se a alterações significativas, em relação ás grandes crises anteriores. Desta vez foi diferente: a ausência de uma guerra mundial como a que devastou a Europa ente 1914- e 1918, onde uma cruel guerra civil do outro lado da fronteira, as medidas de combate à pandemia mais eficazes, a atuação do BCE, na resposta à covid, e a decisão da Comissão Europeia da suspensão das regras do défice e da dívida, por dois anos. No entanto, a aceleração prevista para 2022, está suspensa em pressupostos envoltos, com muita incerteza.  O primeiro é que a pandemia tem os seus dias contados e, o motor do turismo, regressará.. O segundo é que as tensões geopolíticas, não saem do campo da diplomacia, e, não se transformam em novas regras, nas fronteiras da Europa. O terceiro tem a ver com o impacto da inflação média anual da zona euro, para lá do previsto. uma situação, que provocaria problemas económicos, e, obrigaria o BCE a cortar ainda mais e rapidamente os estímulos da recuperação. Desde há 15anos que a a economia mundial vive numa situação de "crise após crise", em que as heranças negativas de cada recessão, uma após outra, se vão "acumulando". O  problema, é que as várias camadas de crises, sanitária, inflacionária, humanitária ( com a maior vaga de refugiados na Europa), geopolítica e stresse de dívida em 60% das economias pobres, se interligam e se influenciam mutuamente. Com o choque provocado pela invasão russa da Ucrânia, e o pacote de medidas financeiras a Moscovo, a economia mundial, irá crescer 3,6%, e da zona euro 2,8% em 2022, ano, em que era suposta uma segunda vaga de expansão económica, depois da crise gerada pela pandemia. A dinâmica do comércio mundial, de que a economia portuguesa também vive, irá cair para metade em 2022, e, o ritmo anual de crescimento, irá abrandar ainda mais: de 10,1% em 2021, caíra a pique até 3,5%, no médio prazo. Este choque "abrupto". como lhe chamou o FMI, provoca ganhadores e perdedores. O invasor ,a Rússia e o invadido, a Ucrânia, vão registar as maiores quebras do ano, mas a subida das matérias-primas vão dar um impulso em muitas economias emergentes e em desenvolvimento. Portugal, naturalmente levou por tabela em relação à previsão para 2022: de um crescimento de 5,1%, previsto em Outubro passado, passou passou para 4%, abaixo da meta de 4,9%, definida na proposta do OE para 2022, apresentada recentemente.