O que é uma economia azul? É o conjunto de atividades económicas que se realizam no mar, e , outras que não se realizando no mar, dele dependem, incluindo os serviços não transacionáveis dos ecossistemas marinhos. Trata -se de uma definição ampla que abrange todos os subsetores tradicionais( como as pescas ou os portos), aos emergentes (aquacultura), aos transversais (turismo hoteleiro), aos serviços (financiamento e seguros) e à administração pública (poupança e defesa). Ficam também abrangidos nesta definição, aqueles a que nós podemos chamar de "novos subscritores", como a biotecnologia marinha, a robótica aquática, ou, as energias marinhas renováveis. Por seu turno, excluem-se do perímetro, as atividades que mesmo que tenham ou possam ter carácter económico, não são significativas ou não estão medidas em Portugal, e sobre as quais não existem dados. É uma definição que privilegia a cadeia de valor, ou seja, assume uma abordagem abrangente, tão extensa quanto possível. De certo modo, olha-se para cada atividade e fragmenta-se a mesma em três: a atividade em si a atividade central, por exemplo, construção de navios em estaleiros), a atividade a montante (conceção de projetos de engenheira naval e a atividade a jusante o desmantelamento naval). A mesma lógica é aplicada nos estudos europeus que sobre esta matéria, vêm sendo desenvolvidas pela Comissão Europeia. Desde 2018, que se publica em Bruxelas, um estudo anual, sobre economia azul, que é o retrato mais completo de que dispomos para o espaço europeu. Embora, reconhecendo a dificuldade de estudar e comparar situações em 28/27 Estados-membros, (pré e pós Brexit) a Comissão adota o mesmo conceito de economia azul, integrando não só as atividades que se desenrolam no mar( como as pescas, a aquacultura, a energia eólica offshore, o transporte naval, as atividades portuárias e o petróleo ou gás natural.) mas também, num segundo pilar, as atividades que usam os produtos ou produzem bens ou serviços, ligados à economia azul, incluindo o processamento e retalho do subsetor alimentar marítimo, a construção naval, a biotecnologia marinha ou o subsetor segurador. Numa terceira e última dimensão, a UE, refere-se às atividades ao mar no quadro da administração pública, como seja o exercício de soberania, a proteção ambiental, e, os serviços de educação e investigação, ligados ao oceano. Traçada esta divisão puramente analítica, a UE conclui que se devem englobar no conceito de economia azul" todas as atividades económicas setoriais e multissetoriais relacionadas com os oceanos, os mares e as zonas costeiras, incluindo aquelas que se localizam em regiões interiores e nos Estados sem litoral" A economia azul visa promover o crescimento económico, a inclusão social, bem como a preservação e melhoria dos ecossistemas, assegurando a sustentabilidade ambiental. Não pertencem ao conceito de economia azul, atividades que agridam o ambiente, que ameacem ou destruam os ecossistemas marinhos ou a biodiversidade, que não estejam alinhados com o propósito de inclusividade e de combate às alterações climáticas, ou, em geral , com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda de 2030. Um dos primeiros documentos onde esta ideia ficou consagrada, foi na declaração política aprovada, por consenso, por mais de 70 delegações de todo o mundo, na semana azul, em Lisboa em 2015. Ali se defende explicitamente que a economia azul deve promover a proteção do ambiente, o desenvolvimento sustentável, o crescimento económico exclusivo e a criação de emprego. A economia azul é ,em suma, circular, inclusiva, descarbonizada e sustentável, como o determinam os compromissos internacionais (nomeadamente o Pacto Ecológico Europeu), mesmo que se reconheça que muitas atividades ainda têm um caminho a percorrer nesse sentido. Quais os desafios que a economia azul enfrenta? Estes desafios são, ao mesmo tempo, oportunidades de ir ao encontro dos novos mercados, tal como eles se configuram no século XXI. Não são tarefas gigantescas, nem caminhos solitários: são um convite ao diálogo permanente com a sociedade, com os poderes públicos, com as universidades ou com os financiadores. São um apelo a assumir uma abordagem globalizante, com traços novos, que se aceleraram no contexto pós- pandémico. O primeiro desafio é o do conhecimento: o mar é, ainda um imenso território inexplorado que temos de conhecer melhor, como condição essencial para dele beneficiar. Portugal é um país que é 3% do território terrestre e 97% do território marítimo, Só aprofundando o pilar do conhecimento se pode saber o que existe no solo e no subsolo, para que se cuide depois, da viabilidade económica e ambiental, e, do aproveitamento dos recursos vivos e não vivos. Só para os recursos vivos ,sabemos que o mar aloja 95% do total dos recursos da biosfera, podendo os mesmos ser usados em cosméticos. Já em plena pandemia, ficámos a saber que uma enzima marítima estará a ser utilizada no diagnóstico do vírus e que a hemoglobina extracelular, está a ser testada no quadro de combate a esta doença. Nos recursos não vivos, os materiais como o cobalto, cobre manganésio ou níquel, têm um valor industrial elevado e, são usados no fabrico de bens que usamos nos smartphones. O segundo desafio é o da sustentabilidade Hoje, e nos anos vindouros, nenhum projeto vencerá se não for ambientalmente sustentável e, se não for capaz de o demonstrar. Nunca como hoje, se falou tanto de sustentabilidade, de crescimento verde e azul, de novos modelos respeitadores do ambiente e de uma sociedade que procura neutralidade carbónica até 2050. A atual Comissão Europeia transformou o Green Deal- Pacto Ecológico , em prioridade máxima da sua ação. Portugal está totalmente alinhado com esta tendência, tendo-se afirmado nos últimos anos, como um país da linha da frente, em domínios como as energias renováveis, ou a economia para o baixo carbono. Fomos um dos primeiros países europeus, a apresentar um roteiro para a neutralidade carbónica. As medidas tecnológicas procuram obter mais eficiência energética, através de novas regras e design e uso de melhores materiais de construção, bem como recuperação do calor ou novas técnicas de incentivo. Por sua vez, as medidas operacionais, passam acima de tudo, pela redução do consumo. As medidas energéticas são aquelas que visam substituir o consumo de energias fósseis por alternativas como os biocombustíveis, o gás natural liquefeito, o hidrogénio, a energia eólica ou nuclear. Face a uma tendência inevitável, não resta aos operadores outra alternativa senão incorporar no seu comportamento empresarial, a narrativa da sustentabilidade, e, perceber tão rapidamente quanto possível, que isso é uma condição existencial do século XXI. O acesso ao financiamento é outro dos desafios das empresas para poderem crescer, internacionalizar e investir. A capacidade de aceder ao financiamento bancário para aquisição de ativos produtivos (bankability) e as limitações ao crescimento (scale-up), são restrições sérias que as empresas sobretudo, as PME, sentem no seu dia a dia. No quadro europeu, a Comissão Europeia acordou com o BEI, um conjunto de princípios sobre o financiamento da economia azul sustentável, que começam poe reafirmar a ideia central de sustentabilidade e do papel das instituições financeiras, como promotoras dessa sustentabilidade, sublinhando num desses princípios, a necessidade de restaurar, proteger ou manter a diversidade, resiliência, valor intrínseco de saúde nos ecossistemas marinhos. Parece pois, que não há falta de instrumentos financeiros: há, sim, que tornar estes mecanismos mais conhecidos e fluidos, os processos menos burocráticos, no quadro de uma cultura empresarial mais arrojada, capaz de executar projetos tão poderosos como o próprio oceano. Um último desafio é a aposta na diversificação. Diversificar, significa criar valor acrescentado nas atividades económicas internacionais. Num quadro de pressão demográfica, continuamos a necessitar de acesso às proteínas animais do peixe, seja através das pescas ou da aquacultura. Mas uma pesca sustentável, e, eficaz precisa de se modernizar. A nossa frota é ainda inadequada, face aos nossos parceiros europeus, e, carece de renovação e modernização. Sem isso, também não seremos capazes de nos lançar nos palcos internacionais, de forma mais visível, conquistando quotas de mercado no peixe e nas conservas em segmentos distintivos, oferendo serviços de ponta inovadores no setor bancário e segurador, apostando na energia eólica offshore, onde estamos muito à frente de outros países europeus e dispondo de legislação primária que nos permita avançar para a neutralidade carbónica em 2050, estimulando cientistas investigadores e instituições nacionais a apostar na investigação e desenvolvimento na área do mar, onde marcamos também, a linha da frente da produção científica internacional..
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022
APOCALIPSE CLIMÁTICO ?
Há alguns anos era comum ouvir as pessoas negarem as alterações climáticas, menosprezarem a enormidade da ameaça, ou argumentarem que era demasiado cedo para nos preocuparmos. A Humanidade tem enormes recursos ao seu dispor e, aplicando-os sabiamente, pode ainda evitar o cataclismo ecológico. Se a Humanidade quisesse evitar as alterações climáticas catastróficas, qual o valor que teria de pagar? De acordo com a Agência Internacional de Energia, alcançar uma economia neutra em carbono, exigiria que gastássemos 2% do PIB global anual, além do que já fazemos, no nosso sistema energético. Numa sondagem recente, feita pela Reuters a economistas do clima, a maioria concordou que chegar ao crescimento zero, custaria apenas 2% a 3% do PIB global anual. O relatório do Painel Intergovernamental sobre mudanças climáticas de 2018, refere que, para limitar as alterações climáticas a 1,5% C, é necessário aumentar os investimentos anuais em energia limpa, para cerca de 3% do PIB global. Uma vez que a Humanidade já gasta cerca de 1% do PIB global anual em energia limpa, precisamos apenas de uma fatia extra de 25% do bolo. Existem outras fontes de emissões, como a utilização dos solos, a silvicultura e a agricultura. Muitas dessas emissões, podem ser diminuídas de forma barata através de mudanças comportamentais, como a redução do consumo de carne e laticínios, e, passar a depender mais de uma dieta à base de vegetais. O preço para evitar o apocalipse, está muito abaixo dos dois dígitos do PIB global anual. Não são certamente 50% do PIB global anual, nem 15%. Em vez disso, está algures abaixo dos 5%, talvez tão baixo, quanto investir mais 2%, em lugares certos. É importante fazer investimentos em novas tecnologias e infraestruturas, como baterias avançadas para armazenar energia solar e redes de energia atualizadas para a distribuir. Estes investimentos criarão numerosos postos de trabalho e oportunidades económicas, e, serão eventualmente economicamente rentáveis a longo prazo, em parte, através da redução das despesas de pessoas com cuidados de saúde, salvando milhões de pessoas de doenças causadas pela poluição atmosférica. Podemos proteger as populações mais vulneráveis contra desastres climáticos, tornar-nos melhores para as gerações futuras, e, criar uma economia mais lucrativa. Aprendemos nos últimos anos a definir o nosso objetivo à volta de um número: 1,5ºC . Podemos determinar a maneira como o alcançamos com outro número: 2%. Temos de aumentar o investimento em tecnologias e infraestruturas verdes 2% acima dos níveis de 2020. Naturalmente, ao contrário do valor de 1,5º que é um limiar cientificamente robusto, o valor de 2% representa apenas uma estimativa aproximada. Prevenir as alterações climáticas catastróficas é um projeto totalmente viável, embora, obviamente custe muito dinheiro. Uma vez que o PIB global é de 2% atualmente, significa que para se salvar o ambiente, não precisamos de prejudicar completamente a economia, num abandonar as conquistas da civilização moderna. Precisamos apenas de redefinir as nossas prioridades. Assinar um cheque no valor de 2% do PIB anual global, não é o suficiente. Não resolverá tosos os nossos problemas ecológicos, como os oceanos repletos de plástico, ou a perda contínua de biodiversidade. E mesmo para evitar as alterações climáticas catastróficas, teremos de garantir que os fundos são investidos nos locais certos e que os novos investimentos não provocam os seus efeitos ecológicos e sociais negativos. Se para explorar os metais raros, que são necessários para a indústria de energias renováveis, destruirmos ecossistemas, então podemos perder tempo quanto ganhamos. Também teremos de mudar alguns dos nossos comportamentos, e, formas de pensar, desde o que comemos até à forma como viajamos. Durante a crise financeira de 2008- 2009, o governo americano gastou cerca de 3,5% do PIB para salvar as instituições financeiras consideradas demasiado grandes para falir. Talvez a Humanidade deva também encarar a floresta amazónica, como sendo grande para falir! Tendo em conta o preço atual da floresta tropical na Amazónia do Sul, e, o tamanho da floresta amazónia, comparar todos esses terrenos para proteger as florestas, a biodiversidade e as comunidades locais contra os interesses empresariais destrutivos, custou cerca de 1% do PIB global. Atualmente, nem a empresas, nem os governos estão dispostos a fazer o investimento adicional de 2%, necessário para evitar as alterações climáticas catastróficas. Então para onde vai o dinheiro? Em 2020, os governos gataram 2,45do PIB global. De dois e dois anos, outros 2,4% são gastos em alimentos que vão para o lixo. A UE estima que o dinheiro escondido pelos mais ricos em paraísos fiscais corresponde a 10% do PIB mundial. Todos os anos mais de 1 bilião de dólares em lucros, são escondidos em offshores pelas empresas, o que corresponde a 1,65 do PIB global Pra evitarmos o apocalipse, provavelmente, precisaremos de impor alguns novos impostos. Mas porque não começar por cobrar os mais antigos? É claro que é mais fácil falar de cobrança de impostos, de redução de orçamentos militares, de interrupção do desperdício alimentar e de redução de subsídios, do que fazer alguma coisa, especialmente quando somos confrontados com alguns dos lóbis mais poderosos do mundo. É preciso uma organização determinada sempre que alguém disser: O apocalipse já chegou!
Algo de grave se está a passar com o planeta onde vivemos. Em Trás-os- Montes, Alentejo e Algarve, onde antes havia riachos como no Norte de África, antes havia paisagens e ainda verdes, agora há cinzas e árvores queimadas e sempre os monstruosos eucaliptos para alimentarem o próximo fogo, onde outrora havia rebanhos, caça aves e sinais de vida, agora há um deserto silencioso e assustador, e, onde antes havia muita gente, aldeias, casais e hortas, agora há ruínas e silêncio, e, de repente como num filme de ficção científica, ilhas de um verde imenso, onde se produz intensamente olival, amendoal, laranjal, abacate regado até à loucura com água que hoje faz falta nas ribeiras e nas barragens e que amanhã faltará nas torneiras. Este verão, Portugal e a Europa bateram recordes de temperaturas nunca antes atingidos, Todos os rios de referência na Europa- o Danúbio, o Ebro, o Tigre, o Loire e o Tamisa- e todas as grandes barragens esvaziaram-se, numa antevisão tenebrosa, daquilo que nos espera no futuro próximo. Num relatório apresentado há dias pela Organização Meteorológica Mundial, estima-se que num dos próximos cinco anos, viveremos o ano mais quente de que há memória, com as temperaturas a subirem, em média 1,5graus, exatamente aquilo que se queria evitar que acontecesse antes de 2050 e que mais de 150países se tinham comprometido em Paris a fazer tudo para o evitar. Hoje, porém, sabemos que tudo andou pra trás: o regresso em força às energias fósseis(incluindo as centrais de carvão) fez com que as emissões de dióxido de carbono, responsáveis pelo aquecimento global, tenham já regressado a valores anteriores à pandemia, e, sabemos que mesmo que todos conseguissem inverter o rumo e assegurar os compromissos estabelecidos para serem cumpridos até 2030, os danos já são irreversíveis. Em 2050 já não será possível evitar que a temperatura do planeta se tenha fixado em pelo menos mais 1,5graus do que hoje. E daí para a frente entramos naquilo que Guterres chamou "territórios de destruição", num processo absolutamente irresponsável: aquecimento dos oceanos, degelo da calote polar, dos icebergues e dos Himalaias ( com as inundações a que já estamos a assistir no Paquistão), secas extremas e prolongadas, começando pelos países subsarianos ( onde o número de pessoas atingidas pela fome extrema duplicou nos últimos três anos), rios e barragens vazios ou reduzidos a caudais mínimos, culturas e animais em extinção, incêndios cada vez maiores e mais incontroláveis e água cada vez mais escassa para abastecer os humanos. É importante perceber as teses otimista e conformista. a primeira pretende que in extremis a ciência encontrará maneira de evitar o desastre, como o fez tantas vezes antes, ou o próprio planeta se encarregará de se regenerar por si mesmo: segundo a tese conformista, o que estamos a viver é resultado da exaustão dos recursos naturais por exploração humana. E assim sendo vamos viver uma crise regeneradora: milhares de milhões de seres humanos irão morrer, para que os outros sobrevivam e, com a experiência adquirida e a ajuda da ciência, possam retomar a vida num planeta mais limpo e liberto da pressão sufocante de hoje. Um darwinismo planetário em que já se advinha quem são os milhares de milhões sacrificados. Décadas de passividade perante os avisos que o planeta foi dando, conduziram ao que de repente parece uma súbita aceleração dos indicadores do desastre, mas que ´+e apenas a resposta da doença por falta de tratamento. Assusta-me uma geração de líderes mundiais que prefere continuar irresponsavelmente a ocupar-se dos seus jogos de guerra, negócios de armas e de energia, enquanto o mundo que habitamos se desintegra à vista de todos, bem como me admira a indiferença com que a geração jovem assiste a isto, comodamente instalada no seu mundo virtual e hedonista, sendo que sabemos que o presente e o futuro será construído por nós.
quinta-feira, 11 de novembro de 2021
UM NEW DEAL VERDE
O Geen Deal europeu, deu uma nova orientação à economia da União Europeia: o seu objetivo seria transformar uma economia com elevadas emissões de carbono, numa outra de baixas emissões, mantendo em simultâneo, as condições de vida, aumentando a qualidade de vida, e, melhorando o ambiente natural. Apresentou 50 medidas políticas específicas, e, afirmou a sua intenção de atingir os objetivos do Acordo de Paris sobre as alterações climáticas. O principal objetivo do Green Deal europeu, ao tornar a Europa neutra em termos climáticos, é ajudar a abrandar o aquecimento global, e mitigar os seus efeitos. O plano prevê aumentar a meta de 2030 da UE, DE reduções de emissões líquidas de 40%, para pelo menos 50%. Ao mesmo tempo, o Green Deal, será a estratégia de crescimento da Europa, criando emprego e melhorando a qualidade de vida. Isto implicará, reduzir as emissões em muitos setores, dos transportes à tributação, da alimentação à pecuária, da indústria à agricultura. A preservação da biodiversidade também é um objetivo importante.. O que se pretende é que esse esforço catalise um investimento significativo. O Plano de Investimento para uma União Europeia sustentável, anunciado a 14 de Janeiro de 2020, tem como objetivo mobilizar pelo menos um bilião de euros de investimentos relacionados com a sustentabilidade durante a próxima década. Cerca de metade desse valor sairá do orçamento da UE, mas 114milmilhões de euros dos governos nacionais e 279mil milhões de investimento do setor privado, apoiado por garantias de empréstimo do Banco Europeu de Investimento. Outra parte do plano é um Mecanismo para a transição justa, em cujo âmbito, serão reunidos 100mil milhões de euros, com o financiamento do Banco Europeu de Investimento e dinheiro privado, par ajudar os países da Europa Oriental, que defendem mais de combustíveis fósseis, como o carvão. Políticas como estas, precisam de um enquadramento claro e também de alterações obrigatórias do statu quo., Por exemplo para o Green Deal Europeu ser bem sucedido, os governos precisam de reformular amplamente os instrumentos financeiros, o que inclui orientar os bancos públicos, como o Banco Europeu de Investimento, ou bancos nacionais, para o fornecimento de fundos a projetos verdes; usar fundos estruturais que apoiam o desenvolvimento económico em todos os Estados-membros, para promover infraestruturas verdes em vez de projetos "prontos para começar"; e, reestruturar os fundos de investimento e os fundos para pequenas e médias empresas, mais inovadoras que proporcionam soluções verdes. Estão a ser elaboradas propostas para a alteração de políticas. Entre outras medidas principais propostas, contam-se a Estratégia Industrial da UE e uma lei da Economia Circular. Também foi proposto um mecanismo fronteiriço de carbono para determinado setor - uma tarefa sobre produtos proveniente de padrões ambientais inferiores, destinada a cumprir as normas da Organização Mundial do Comércio. Ao iniciar conscientemente, o programa Apollo, como precedente do Green Deal europeu, a srª Von dder Leyen, procurou concentrar a atenção no resultado e não na escala do desafio e convocar o espírito do Apollo para guiar a Europa do século XXI. Durante muito tempo, os governos sobreinvestiram no carbono e subinvestiram nas fontes de energia renováveis. As receitas económicas convencionais de resolução do problema das alterações climáticas, apenas com um imposto do carbono, e, alguns subsídios para I&D, conjugadas com os entraves de políticas económicas aos impostos do carbono, deixaram -nos com sistemas omissos de impostos do carbono e uma transição verde preocupantemente lenta. Precisamos mais do que meras iniciativas dos governos; as propostas tanto dos Estados Unidos como da UE, não podem funcionar entre setores como a energia renovável, a descarbonização dos veículos ou quaisquer outras iniciativas específicas de setores. Pelo contrário, é necessário uma transformação inovadora em todos os setores, o que constitui uma das maiores mudanças, alguma vez tentadas pelos seres humanos. Será fundamental, reduzir o conteúdo material das indústrias pesadas, como a siderúrgica e introduzir uma economia circular de resíduos em setores, com uma mentalidade de reconverter, reutilizar e reciclar. Isto exige, alterações de materiais que possam produzir roupas mais duradouras, mudanças na nossa alimentação, com uma maior atenção a alimentos de origem local, e uma passagem para técnicas de produção como o fabrico em 3D. Todavia, os mercados não encontrarão sozinhos, uma orientação verde. Os governos têm um papel fundamental a desempenhar, fornecendo um canal estável e consistente de investimento, que garanta que a regulação e a inovação convirjam, segundo uma trajetória verde que enfrente as alterações climáticas. Além disso, os governos não podem recorrer às intervenções costumeiras, como os incentivos fiscais ou os subsídios públicos, que pura e simplesmente, não são suficientes para alimentar as mudanças necessárias. O New Deal Verde tem dimensões verdes, a nível citadino, regional e internacional. As políticas existentes mudam de formas radicais, quando a solução dos problemas é colocada no cerne da estratégia. Isto significa, essencialmente, pôr os objetivos no centro, do modo como é visto o crescimento económico em si, trazendo a orientação da inovação. A Energiwend representa um grande desafio. Tem por objetivo, a eliminação progressiva da energia nuclear, na Alemanha até 2022, o carvão até 2038, e metas progressivas para a geração da eletricidade renovável. O abandono da energia nuclear tornou mais difícil a implementação da Energiwend, porque o encerramento rápido das centrais nucleares, aumentou a necessidade das outras, alimentadas a carvão. Outro desafio, é a distribuição equitativa da transformação. Uma vez que muita da geração de energia sustentável , ainda beneficia dos subsídios tarifários, generosos da década de 2000, quando sobretudo a energia fotovoltaica solar, era muito cara, os alemães enfrentam sobrecargas significativas nas suas faturas de eletricidade, o que faz com que os preços da energia elétrica na Alemanha, se contem entre os mais elevados da Europa, e, uma vez que algumas indústrias e instalações de utilização intensiva de energia, estão isentas, a responsabilidade recai ainda mais, sobre as famílias, fazendo com que alguns se perguntem se o apoio público ou projeto, irá diminuir. Tudo isto, traz-nos de volta a ideia de que os objetivos sociais são mais difíceis de realizar do que as meramente tecnológicas, porque conjugam mudanças políticas regulatórias e comportamentais. E quanto ao fosso digital? No mundo de hoje, a capacidade de trabalhar com dados e tecnologia digital, é quase um direito humano. Sem ela, não há oportunidades relacionadas com aquilo que a economia do conhecimento e a conectividade digital proporcionam. Embora a tenologia esteja, em teoria disponível para todos, na verdade não o está, e, o confinamento de 2020, provocado pela covid, ampliou e reforçou o fosso digital, uma vez que os alunos tiveram um acesso desigual à tecnologia necessária ao ensino doméstico; muitos viram-se bloqueados sem banda larga ou computadores, tablets ou telemóveis suficientes. Muitos também não tiveram condições para aceder aos recursos de ensino online. O fosso digital é um feixe de diferentes desigualdades que convergem para criar resultados digitais desiguais, não uma mera divisão no acesso à internet, ou a computadores portáteis, mas uma divisão em relação ao fornecedor de acesso à internet, em relação ao interesse, às oportunidades relevantes online, e ao mesmo tempo de as utilizar, à formação qualidade de ligação e acessibilidade. O fosso digital é um problema mundial. Assim, as principais inovações necessárias, exigem uma melhoria da difusão, democratização, navegação integrada de recursos online e formação, algo que requer a coordenação de políticas que tenham como alvo o acesso a serviços online baratos, sustentáveis, acessíveis e valor.
segunda-feira, 8 de novembro de 2021
A CRISE ENERGÉTICA GLOBAL
O petróleo é a peça chave no xadrez geopolítico global. Os mercados energéticos estão em ebulição. Depois dos recordes atingidos recentemente, os contratos futuros do gás natural, aliviaram nos últimos dias, e, o custo grossista da eletricidade também, mas em ambos os casos,, os preços permaneceram historicamente elevados, ameaçando encarecer a fatura da energia, de famílias e empresas na Europa fora, durante o inverno. Como aqui chegámos? E, sobretudo, como vamos sair daqui? O mundo vive em tempestade perfeita na energia: A pandemia e os respetivos confinamentos fizeram descer o consumo de produtos petrolíferos, e com isso, os preços baixaram. Depois acabaram os confinamentos, a atividade económica recuperou, voltámos a viajar, e, com mais procura, o preço do petróleo subiu. E não foi pouco crise energética que vivemos é uma matrioska de crises, porque as decisões dos grandes produtores de petróleo, condicionam o que sucede no gás. E a evolução do preço do gás, determina o que pagamos pela eletricidade nos mercados grossistas, pois os nossos sistemas elétricos, continuam a depender de centrais de ciclo combinado, alimentadas a gás para produzir, quando as renováveis não dão conta do recado. No petróleo, há projeções que sugerem que o pico da procura, será ainda esta década, e. depois cairá. No curto prazo há uma crise por resolver. O aumento dos preços da eletricidade na Europa é uma notícia para a transição energética e ecológica, tendo em conta que o problema remete à origem, que são as fontes de energias fósseis. Quando temos uma Europa e um mundo decidido em avançar para um processo de transição para uma energia limpa, é inevitável não desanimar perante a corrida às energias fósseis. Portanto, lutamos contra as alterações climáticas, e, assumimos querer fazer melhor. Para defender o clima, precisamos de soluções ativas reguladas que façam a diferença, e, que, efetivamente criem condições para um planeta melhor, que nos ajudem a responder às alterações climáticas e impulsionem a descarbonização.. Outro facto absurdo, é constatar que o problema da matérias-primas é transversal à indústria e ao próprio setor da energia, porque atualmente, o custo das obras de projetos nas renováveis, e, inclusive nos painéis solares, também dispararam significativamente. Seria expectável que o mundo mergulhasse no tema dos preços da eletricidade e, nesta fase, fossem identificadas soluções a curto médio e longo prazo, para que daqui a alguns anos, não estivéssemos a reviver este problema energético. É preciso exigir respostas e continuar a reforçar a energia verde, até porque as renováveis continuam a ser um dos vetores da descarbonização, em linha com o que está previsto para a neutralidade carbónica, que Portugal se propõe alcançar em 2050. Podemos continuar a percorrer o caminho para aumentar a capacidade renovável, mas importa analisar os custos inerentes às instalações das centrais e da matéria-prima nas renováveis, porque deste modo só estamos a dificultar que a energia renovável permaneça, se lutarmos para uma economia de baixo carbono. A crise climática é uma bandeira vermelha para a Humanidade. Os líderes mundiais foram postos à prova na Conferências das Nações Unidas sobre as alterações climáticas, mais conhecida como COP26, em Gasglow. Os sinais de alerta são difíceis de ignorar: as temperaturas atingem novos máximos, a biodiversidade regista valores mínimos, e, os oceanos estão a aquecer, a acidificar e a sufocar com resíduos de plástico. O aumento das temperaturas fará com que grandes extensões do nosso planeta, sejam mortas para a Humanidade, até ao final do século. Na verdade, estamos ainda muito longe da meta de 1,5ºC que a comunidade internacional definiu no Acordo de Paris, uma meta que a ciência nos diz ser a única via para garantir a sustentabilidade do planeta. Esta meta ainda é totalmente alcançável, se ao longo desta década reduzirmos as emissões globais em 45%, em relação aos níveis de 2010, se conseguirmos atingir a neutralidade carbónica até 2050, e, se os líderes mundiais chegarem a Glasgow com metas ousadas, ambiciosas e confiáveis para 2030. Todos os países têm de perceber que o velho modelo de desenvolvimento, assente no carbono, é uma sentença de morte para as suas economias e para o nosso planeta. Precisamos de descarbonizar agora, em todos os setores de todos os países. Precisamos de transferir os subsídios dos combustíveis fósseis para as energias renováveis, e, tributar a poluição, não as pessoas. Precisamos de definir um preço para o carbono e canalizar essas verbas para infraestruturas e empregos resilientes. As empresas precisam de reduzir o seu impacto climático e de alinhar de forma completa e credível as suas operações e fluxos financeiros com um futuro de emissões zero. Todas as pessoas, em todas as sociedades, precisam de fazer escolhas melhores e mais responsáveis sobre como se alimentam, viajam e consomem. Por outro lado, os jovens e os ativistas do clima, devem continuar a exigir aos seus líderes, que tomem medidas e responsabilizá-los. Em todo este processo de mudança, precisamos de solidariedade global para ajudar todos os países.
Os bancos públicos e multilaterais de desenvolvimento, devem aumentar significativamente os portfólios climáticos e intensificar esforços para os ajudar na transição para economias resilientes e neutras em carbono. O mundo desenvolvido deve cumprir com urgência o seu compromisso de garantir pelo menos, 100mil milhões de dólares em financiamento climático anual aos países em desenvolvimento. A Organização das Nações Unidas foi fundada há 76 anos para construir um consenso na ação contra as maiores ameaças que a Humanidade enfrenta, mas raramente enfrentamos uma crise verdadeiramente existencial, que se não for bem gerida, constitui uma ameaça não apenas para nós, mas para as gerações futuras. Um futuro com um aquecimento global abaixo de 1,5ºC é o único futuro viável para a Humanidade, por isso, os líderes mundiais devem continuar a trabalhar em Glasgow.
quinta-feira, 23 de setembro de 2021
A RECUPERAÇÃO ECONÓMICA
O" desconfinamento" permitiu à economia dar um salto, ao mesmo tempo que a injeção de fundos públicos, parece ter sido bem-sucedida, na proteção do emprego. A retoma continuará a bom ritmo, levando a revisões em alta das previsões de crescimento. Portugal foi das economias mais afetadas pela crise, e é dos 14 países da UE , que ainda não regressou aos níveis de produção de 2019. A recuperação da economia portuguesa, foi impulsionada por um crescimento muito significativo do consumo privado, nomeadamente, no que se refere às componentes de bens e serviços duradouros. No entanto, à medida que as restrições desapareceram, a economia tem maior força para acelerar. Portugal dá o segundo maior salto da Europa( 4,9%). Este dinamismo, conjugado com outros indicadores avançados, está a motivar um maior otimismo sobre o crescimento deste ano., Comissão Europeia e Banco de Portugal, esperam uma variação do PIB, acima dos 5% no próximo ano. No pico da crise, embora tenha sido a segunda maior recessão de sempre (-7,6%), a contração da economia foi inferior às previsões de todas as instituições, inclusivamente do Governo, com apoios públicos ambiciosos, a atividade aguentou-se melhor do que muitos esperavam. Na retoma, o crescimento do segundo trimestre sugere, que em condições de controlo da crise sanitária e ausência de restrições, a economia tem potencial de crescimento e de regresso ao nível da atividade anterior à crise. Por outro lado, a produção industrial, atravessa dificuldades, devido aos apertos nas cadeias de produção globais, à escassez de inputs ou produtos intermédios.. Na frente externa, as exportações ainda são muito penalizadas pelo turismo e ficaram no segundo trimestre 18,3% abaixo do final de 2019 e 15,3% abaixo do segundo trimestre de 2019.Nos próximos trimestres, a retoma da atividade económica deverá continuar. Apontam -se três razões: primeiro a expansão do consumo, que deverá continuar a beneficiar do elevado nível de poupança acumulado pelas famílias e pela recuperação do mercado de trabalho. A taxa de poupança das famílias atingiu 14,2% no primeiro trimestre de 2021. Uma poupança excedentária que poderá ser libertada progressivamente para consumo.. O segundo fator, é o dinamismo do investimento, que num contexto em que à recuperação cíclica da atividade, se soma a implementação de importantes projetos, ao abrigo de fundos europeus, antecipando uma retoma das exportações. Porém, no caso do investimento- só caiu num trimestre desde o início da crise, e, tem vindo a aumentar desde esse momento. Segundo o BPI, esse bom desempenho é explicado pela intervenção pública. O Estado realizou uma série de investimentos necessários à pandemia, nomeadamente enquadramento médico, ou a aquisição de material informático e escolar. Na relação do País com o exterior, há que apontar duas questões: a primeira é de exportações de mercadorias que, até Julho, já superaram mesmos os valores vendidos em 2019, antes da pandemia. Por outro lado, as exportações de serviços- essencialmente os gastos de turistas estrangeiros- continuam muito longe da pré-crise. Com as viagens e a circulação muito condicionada, a normalidade pode demorar a chegar. Só no mês de Julho as dormidas de turistas estrangeiros estavam 39milhões abaixo de 2019.
O que se passa com o emprego? Talvez a maior surpresa esteja no mercado de trabalho. A taxa de Julho desceu para 6,6%. O mesmo valor de Fevereiro do ano passado, antes do primeiro confinamento. O números do desemprego têm gerado bastante confusão, mas se olharmos para a população empregada, a conclusão ainda é mais impressionante.. ,4,8 milhões de portugueses, têm trabalho; um máximo desde 1998.. São mais 238mil do que no mesmo mês de 2020 e mais 89mil do que em 2019. Como se explica que um país ainda em crise, com uma pandemia ativa e ainda com restrições, no terreno, esteja a bater recordes no mercado de trabalho? Pode-se explicar por políticas públicas de emprego, contratações na indústria, recuperação do turismo, muitos empregos apoiados, e, o facto de ainda não conseguirmos ver os efeitos negativos do fim das moratórias. São esses os motivos para o emprego estar a surpreender. A crise mudou o contexto e levou os governos a colocarem mais funcionários públicos, que estão agora no nível mis elevado de sempre. Além disso há um conjunto de setores que não são considerados da Administração Publica mas que estão correlacionados. Do lado do setor privado, os dados do INE mostram uma indústria a contratar mais 43mil no segundo trimestre e uma construção que não foi travada pela pandemia- é com a banca e o imobiliário, o único setor que cresce face a 2019. O segmento industrial, principalmente a metalomecânica, tem continuado a exportar. Contudo, ainda é cedo para saber se são números sustentáveis. A natureza da crise pandémica arrasta a atividade, por altos e baixos, e, embora Portugal tenha uma das maiores taxas de variação do mundo, o aparecimento de uma nova variante, pode ser suficiente para colocar em causa muito do nosso progresso.. Temos um enquadramento europeu muito favorável. O BCE continua muito ativo no mercado da dívida, mantendo os juros controlados . Qual será o impacto do final das moratórias de crédito? O turismo regressará à dimensão que tinha em 2019? Algumas questões económicas irão ter de se resolver. Esperemos o fim da pandemia para solucionar algumas questões económicas. É muito difícil prever o futuro, mas é certo que neste século iremos trabalhar menos horas, ter um trabalho mais flexível, ter mais tempo livre, inteligência artificial e robotização. Irão ser criados novos empregos nas áreas de saúde, bem-estar educação e cultura.
Estamos confrontados com a urgência de reforçar o multilateralismo e de apoiar os mais pobres na resposta a três grandes crises- a pandemia( que agravou a pobreza e as desigualdades)as alterações climáticas e as migrações.
O Comité de Ajuda ao Desenvolvimento (CAD) é o guardião das políticas de cooperação e ajuda ao desenvolvimento: mobiliza os recursos financeiros (públicos e privados), para os países mais pobres, e recolhe, analisa e publica dados estatísticos, avalia as políticas nacionais; e aprova os padrões de regras internacionais de cooperação para o desenvolvimento. Foi o CAD que, de forma pioneira, aprovou regras e princípios que hoje são consensualmente considerados como referência internacional, de que são exemplo a obrigatoriedade de ajuda em intuito comercial, o alinhamento dos programas de ajuda com as necessidades dos países de destino, a integração das preocupações com a igualdade de género e com a proteção ambiental, em todos os projetos e programas, ou ainda, a consagração do princípio de coerência entre as políticas de cooperação para o desenvolvimento. Mas, nos últimos anos, muito mudou no panorama de cooperação internacional, Por um lado, surgiram novos doadores governamentais que não são membros da OCDE (como a China, India e Brasil), novas modalidades de ajuda (como a cooperação sul-sul, a cooperação triangular e o financiamento privado), e novos protagonistas não governamentais, setor privado, ONG e fundações). Por outro lado, a agenda de cooperação para o desenvolvimento, teve de se ajustar à nova arquitetura global, que emergiu da aprovação em 2015, da ambiciosa Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, do Acordo de Paris e do Plano de Ação de Adis Abeba para o financiamento ao desenvolvimento. Finalmente, o sistema de ajuda ao desenvolvimento foi colocado, nos últimos cinco anos, perante uma sucessão de testes de stress; a crise síria, que originou a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, a crise alimentar na região do Sahel, os efeitos devastadores de fenómenos climáticos extremos em vários Estados insulares das Caraíbas, mas também em Moçambique; e finalmente a pandemia, que evidenciou a fragilidade extrema dos países mais pobres. Neste contexto tão exigente, foi crucial demonstrar a validade do CAD, em duas dimensões; em primeiro lugar provou-se mais uma vez a resiliência e a natureza contra cíclica da ajuda pública ao desenvolvimento. Em segundo lugar, domos capazes de desenhar, de negociar e de aprovar, nos últimos cinco anos, ima nova vaga de reformas, ao nível das regras de cooperação para o desenvolvimento. A título de exemplo destaco: a prevenção e o combate ao abuso à exploração e ao assédio sexual; o envolvimento da sociedade civil nas atividades de cooperação para o desenvolvimento; as regras e estratégias para o reforço do financiamento privado(blended finance) e, para o investimento de impacto no desenvolvimento sustentável; o triplo nexus de ações de desenvolvimento de ajuda humanitária e de esforços de paz.. Temos de assegurar o acesso equitativo às vacinas, liderar a descarbonização da economia, erradicar a pobreza e combater as desigualdades.
O colapso da economia portuguesa em 2020, foi a maior contração anual registada desde a queda da monarquia. Mas, apesar do do prejuízo recorde de mais de 8% no primeiro ano da pandemia, o PIB, deverá regressar ao nível pré-Covid, já durante o ano em curso. A perda acumulada até que o PIB, regresse ao nível de 2019, soma 12,4% muito distante dos 39%, provocados pelas duas crises sucessivas entre 2009 e 2013, juntando a recessão mundial, com a retração provocada pelo resgate da Troika. Com um crescimento real de 4,9%, em 2021, estimado recentemente pelo INE, e uma aceleração da recuperação económica em 2022 acima dos 5%, segundo as diversas previsões existentes, a saída desta crise, provocada pela pandemia, será por isso, relativamente rápida. Nas duas grandes recessões da história portuguesa, desde o início do século XX, os efeitos foram mais longe, e, os problemas na economia também. Mais concretamente, na crise que houve entre 2009 e 2013, o PIB perdeu mais de 39%, e, a recuperação levou uma década. Na depressão entre 1913 e 1918, a economia perdeu 24% , e, o regresso ao nível de 1912, levou também dez anos. A crise de 2020 foi a mais recente num conjunto de 25 quebras anuais do PIB.A saída da crise, só é considerada, quando o PIB regressar ao valor pré -crise e se inicia um período de expansão do produto. Na crise atual, se a projeção para 2022 se confirmar, o PIB começará a expandir-se, ainda este ano. A recuperação mais acelerada agora esperada, deve-se a alterações significativas, em relação ás grandes crises anteriores. Desta vez foi diferente: a ausência de uma guerra mundial como a que devastou a Europa ente 1914- e 1918, onde uma cruel guerra civil do outro lado da fronteira, as medidas de combate à pandemia mais eficazes, a atuação do BCE, na resposta à covid, e a decisão da Comissão Europeia da suspensão das regras do défice e da dívida, por dois anos. No entanto, a aceleração prevista para 2022, está suspensa em pressupostos envoltos, com muita incerteza. O primeiro é que a pandemia tem os seus dias contados e, o motor do turismo, regressará.. O segundo é que as tensões geopolíticas, não saem do campo da diplomacia, e, não se transformam em novas regras, nas fronteiras da Europa. O terceiro tem a ver com o impacto da inflação média anual da zona euro, para lá do previsto. uma situação, que provocaria problemas económicos, e, obrigaria o BCE a cortar ainda mais e rapidamente os estímulos da recuperação. Desde há 15anos que a a economia mundial vive numa situação de "crise após crise", em que as heranças negativas de cada recessão, uma após outra, se vão "acumulando". O problema, é que as várias camadas de crises, sanitária, inflacionária, humanitária ( com a maior vaga de refugiados na Europa), geopolítica e stresse de dívida em 60% das economias pobres, se interligam e se influenciam mutuamente. Com o choque provocado pela invasão russa da Ucrânia, e o pacote de medidas financeiras a Moscovo, a economia mundial, irá crescer 3,6%, e da zona euro 2,8% em 2022, ano, em que era suposta uma segunda vaga de expansão económica, depois da crise gerada pela pandemia. A dinâmica do comércio mundial, de que a economia portuguesa também vive, irá cair para metade em 2022, e, o ritmo anual de crescimento, irá abrandar ainda mais: de 10,1% em 2021, caíra a pique até 3,5%, no médio prazo. Este choque "abrupto". como lhe chamou o FMI, provoca ganhadores e perdedores. O invasor ,a Rússia e o invadido, a Ucrânia, vão registar as maiores quebras do ano, mas a subida das matérias-primas vão dar um impulso em muitas economias emergentes e em desenvolvimento. Portugal, naturalmente levou por tabela em relação à previsão para 2022: de um crescimento de 5,1%, previsto em Outubro passado, passou passou para 4%, abaixo da meta de 4,9%, definida na proposta do OE para 2022, apresentada recentemente.
sábado, 12 de junho de 2021
PORTUGAL DEPENDE DO TURISMO?
Estamos demasiado dependentes do turismo? A resposta é necessariamente sim. O turismo é hoje a nossa maior exportação, no sentido em que nos permite exportar serviços não transacionáveis, ao deslocar o cliente no espaço em vez do bem Ter um setor responsável por uma parte tão grande do nosso rendimento, traz um grande risco. Quando em 2020, o setor do turismo foi mais afetado do que os outros pela pandemia, a riqueza que ele produz caiu mais de metade. Portugal teve das maiores quebras económicas em 2020, na zona euro, e, espera-se que tenha uma das recuperações mais lentas em 2021, em parte porque depende do turismo. Por outro lado, como seria Portugal sem turistas? Talvez a alternativa ao turismo fosse nada.... Nesse caso, estaríamos mais pobres. Ou, talvez sem turismo teríamos talentos portugueses dedicados a ouros setores, com outra dinâmica e, estaríamos hoje, na vanguarda de outras indústrias. Para isso é necessário diversificar a economia sem menosprezar o turismo. Portugal é bom no diagnóstico, mas falta-lhe a implementação de uma estratégia que traga "materialidade" e "robusteça" a economia. O ADN de Portugal "salta à vista" e está no centro de serviços partilhados, que "arrastam formação especializada", como sucedeu com a Autoeuropa e outros clusters industriais, como a celulose ou a saúde e, os centros de competências que nos últimos anos se instalaram em Portugal, são fundamentais para o próprio turismo porque arrastam viagens, mobilidade, estadias e congressos. .A "criatividade" é outro eixo onde" a economia pode ganhar escala".. É necessário apontar algumas soluções para diversificar a economia. O essencial é focar a estratégia e escolher da lista, setores onde Portugal se pode diferenciar . Deve-se fazer o aproveitamento dos programas europeus para dar fôlego a um horizonte estratégico de reciclagem da economia europeia, que está a perder o pé na inovação. Se o país apresentar "projetos solidificados", o investimento estrangeiro, acabará por chegar, diversificando a economia; pois robustecer a economia não significa tirar valor ao turismo. Os estrangulamentos que Portugal enfrenta na burocracia, fiscalidade e justiça, devem ser eliminados com reformas estruturais, para facilitar a vinda das multinacionais e lutar com a concorrência dos países de Leste europeu do Norte de África. Se o país não se mover como um todo, as pessoas só se lembram de Portugal quando vierem de férias.. Para contrariar essa ideia, é preciso seguir uma estratégia de internacionalização, e atração do investimento externo. Um soltar de axiomas, capaz de construir uma estratégia que diversifique a economia, tirando partido dos fatores que tornam Portugal, um país diferenciado: segurança, clima, quadros com formação e línguas, fazem de Portugal um país fantástico na inovação. As receitas de turismo, podem ser usadas por empresários locais, para se lançarem noutros negócios para os quais não tinham capital anteriormente. Os economistas chamam a isto "economias de aglomeração": quando um setor cresce numa região, isto reduz os custos para as outras empresas na mesma região, mesmo em setores diferentes. Estes efeitos positivos do turismo, na economia, não querem no entanto, dizer, que dentro do turismo, não se possa fazer melhor, com mais valor acrescentado, e com menos desgaste dos recursos naturais. Além disso, mesmo dentro do setor do turismo, há espaço para diversificação, com foco em diferentes segmentos do mercado, que visam diferentes recursos e diferentes serviços. E também no turismo há inovação e novas oportunidades que se podem aproveitar.. Por exemplo, se a normalização do trabalho à distância, se concretizar, então talvez surja um novo mercado de turismo de longa duração., com visitas de vários meses, que exigem melhores condições das habitações, e, ligações digitais rápidas e fiáveis. Portugal está dependente do turismo. Mas, talvez, o turismo contribua de múltiplas formas, para melhorar as hipóteses de sucesso de outros setores. Mais importante do que lamentar a dependência do turismo, é criar as condições para que as ligações benéficas entre o turismo e outros setores floresçam e, para que as empresas de turismo melhorem, se diversifiquem e inovem por si. O Certificado Digital Covide criado para estimular as viagens na a Europa, é um dos aspetos que antecipa um "bom verão". A longo prazo, o objetivo é projetar Portugal, como um dos destinos mais sustentáveis do mundo e alcançar as metas traçadas para 2027:27 mil milões de euros distribuídos por todo o território, e, ao longo de todo o ano. Como se promove hoje o destino em Portugal? O essencial é incentivar a procura e manter-nos preparados para receber os turistas: acompanhar os operadores, companhias aéreas, agentes de viagem e obviamente os consumidores finais. Preparar o futuro, em termos em planos de curto e longo prazo, cujo objetivo é permitir em 2027, não só atingir, mas ultrapassar as metas delineadas, inclusive a nível das receitas. O turismo interno tem sido uma boia de salvação. Mas até que ponto, o país aguenta mais um verão, baseado nos consumidores nacionais?. Acredito que o verão vai ser muito positivo, quer a nível nacional, quer a nível internacional, tendo em conta, a evolução a nível da situação pandémica, em Portugal e lá fora, da entrada em funcionamento do Certificado Digital Covid a par do interesse por parte das companhias aéreas e do mercado de proximidade, o espanhol sobre o nosso país. Mas não viemos só do verão. Esse é o grande desafio: manter o ritmo de crescimento que nos permita chegar a 2023 com os mesmos números de 2019. Há aqui alguma incerteza sobre a abertura com outros mercados, a evolução da situação epidemiológica, no nosso país e nos outros, mas temos de traçar cenários, com base no que existe hoje, e as perspetivas são positivas.. Foi lançado o plano de turismo 20-23, assente em quatro pilares essenciais: dinamizar a oferta a nível financeiro, de regulamento, de sensibilização, tornando-o mais sustentável, a nível social e ambiental, qualificar os recursos humanos, estimular os empresários e a força de trabalho que trabalha no turismo, e, promover Portugal, enquanto destino sustentável. o quarto pilar relaciona-se com a quantificação e controle de tudo, com indicadores que permitam avaliar a evolução e como podemos melhorar. O facto de estarmos a apostar na dinamização e promoção da marca Portugal, enquanto destino turístico, e de mostrarmos precisamente essa autenticidade e base na nossa cultura, é algo que que estimula a vinda de estrangeiros e ajuda a que a recuperação, em todo o território e ao longo de todo o ano, seja mais rápida. Há três áreas fundamentais para trabalhar, se queremos ganhar escala, e recuperar mais rapidamente:. formação e qualificação, sustentabilidade e digital. No futuro, a ligação humana é muito importante, bem como a tecnologia que temos para ajudar e libertar tempo, e, por isso temos de valorizar o país e proteger o que temos cá dentro. A guerra na Ucrânia beneficia o crescimento do turismo. Portugal é visto como um destino seguro e pode ganhar quota de mercado. O setor do turismo espera uma forte retoma, e, os economistas apontam um contributo positivo para a evolução do Produto Interno Bruto ( PIB). O turismo pode ajudar a salvar o ano. Em Janeiro, hóspedes e dormidas ficaram cerca de 30% abaixo do mesmo mês em 2019, mas quase triplicaram face a Janeiro de 2021. Em Março, os voos nos aeroportos nacionais, foram apenas menos 12% do que no mesmo período de 2019, e, semelhantes aos de Janeiro, pelo que aparentemente, o turismo internacional, ainda não está a ser afetado pelo conflito. O setor em Portugal espera uma retoma forte. Entre os receios associados à subida de preços, há um epifenómeno a emergir, sendo Portugal um refugio para turistas que querem fugir de zonas geográficas mais próximas do conflito. As pessoas estão ansiosas por viajar, mas segurança e estabilidade são fatores muito importantes. Portugal goza de uma localização privilegiada que, no atual contexto de guerra, é uma vantagem competitiva e poderá contribuir para que os portugueses optem por fazer as férias em território nacional e os estrangeiros escolham Portugal para viajar. Também, os países em desenvolvimento, ainda com problemas de Covid, preferem deslocar-se para países com distância física de bombardeamentos, sendo a realidade pandémica considerada um entrave menor.
domingo, 2 de maio de 2021
QUE SOLUÇÕES PARA A CRISE?
São necessárias políticas económicas inovadoras. Esta crise caiu numa economia, em que as relações de muitas pessoas com o trabalho estavam desligadas. Há muitas pessoas com vínculos precários, contratos a prazo, recibos verdes, e, até com uma parte ou a totalidade dos salários pagos informalmente, ou seja, sem qualquer registo de recebimento. É, de referir, que é nos setores de alojamento e da restauração, que mais se encontra este tipo de trabalho. A economia que surgir da crise pandémica, dificilmente, será a mesma. A dimensão da crise, e, a sua natureza, levará a atividade económica, por caminhos diferentes. É improvável, por exemplo, que o turismo internacional , volte ao que era num futuro próximo. As viagens de trabalho, com o surgimento do teletrabalho, e, a aprendizagem em massa das reuniões à distância, também não vão regressar ao que eram antes da crise pandémica. É necessário encontrar formas não traumáticas, de permitir que a economia se regenere, pelo que passa pelo desaparecimento de algumas empresas. Mas também é desejável que as empresas que são viáveis e podem sobreviver, permaneçam. As políticas de apoios sociais de que dispomos, estão assentes numa série de barreiras, como a necessidade de deslocação aos serviços da Segurança Social, ou ao Instituto de Emprego e Formação Profissional, e, o preenchimento de formulários. Esta burocracia, serve pra perceber, se o rendimento e a riqueza das pessoas, são suficientemente baixos, com o objetivo de afastar dos apoios , quem deles não necessite. No momento de crise em que vivemos, devemos preocupar-nos muito mais, com a probabilidade da ajuda não chegar a quem precisa, do que a de ela chegar a quem não precisa. Não podemos dizer, que não houve inovações nos apoios sociais. O rendimento social de inserção, foi renovado automaticamente, evitando aos beneficiários, uma carga de trabalho burocrático, pouco razoável num período destes.. A edição do Fiscal Monitor do FMI, de 2020, tinha estimativas de resposta dos países à crise ,divididas entre " acima da linha" "abaixo da linha" e "passivos contingentes." As medidas acima da linha, são aumentos de despesa ou reduções de receita, ou seja, dinheiro que é gasto na economia, ou que não chega a ser retirado. Há uma parte de despesas adiantadas e de receitas atrasadas, o que não é bem ajuda adicional por causa da crise. As medidas abaixo das linhas são injeções de capital em empresas, compras de ativos e dívidas assumidas pelo Estado. A linha que as distingue é que as medidas de cima são fluxos de dinheiro, enquanto as mediadas de baixo têm impacto nos ativos e passivos do setor público. Os passivos contingentes, são garantias dadas pelo Estado, que não custam dinheiro imediatamente, mas podem vir a custar se, por exemplo uma empresa com um crédito garantido, entra em incumprimento. Como aparece Portugal nesta fotografia? Até setembro de 2020, gastara 0,8% do PIB, cerca de 1,5 mil milhões, em saúde. Gastou mais 2,4 do PIB em apoios diretos às empresas e famílias e, em medidas como o layoff simplificado ou as ajudas a independentes, 4,5 mil milhões de euros. A despesa pública adiantada e receita pública adiada, foi de 4,15 do PIB. Aqui estão, por exemplo, os pagamentos à Segurança Social dos independentes, ou os pagamentos por conta de IRC, que foram adiados. Em passivos contingentes, como as moratórias dos créditos para famílias e empresas, está o grosso da intervenção: 6,75do PIB .Os passivos contingentes, são as linhas de crédito às empresas, quer as mais genericamente dedicadas às pequenas e médias empresas, quer as que se focaram nos setores mais afetados pela crise, como o turismo e a restauração. A agência de rating de dívida , avisou que os bancos portugueses, de um universo de 45 bancos europeus analisados, eram os que tinham maior proporção de créditos em moratórias, garantidas pelo Estado. Com a dimensão da crise e a força das sucessivas vagas, irá haver muitas empresas e pessoas com dificuldades para pagar obrigações fiscais e créditos adiados. Portanto, uma parte das moratórias, adia o reconhecimento de um problema, e, quase sempre, quanto mais durar a moratória, maior é a probabilidade de a empresa ou família, não recuperar a sua saúde financeira. Um dos receios das moratórias generalizadas, é a possibilidade de sobrevir um momento crítico, em que os bancos têm de reconhecer uma enorme quantidade de créditos incobráveis. Isto, contrasta com uma situação normal, em que os bancos estabelecem pedidos de moratória, caso a caso, no quadro das suas relações normais com os clientes, tendo em conta o risco individual, pelo que pode originar crédito malparado. O problema do crédito malparado, é que existe um momento, em que o banco tem de o reconhecer como incobrável. Se for um crédito a uma empresa, ou fica sem nada, ou a empresa entra em falência, e o banco recupera, com alguma sorte, uma parte do dinheiro que empresta, provavelmente, sob a forma de edifícios, máquinas, carros ou terrenos. Quase sempre, o banco vai desfazer-se destes ativos, a preços de saldo. Por vezes, os bancos "vendem" os próprios créditos, ou seja, transferem-nos para outra instituição financeira, especializada em créditos particularmente arriscados: quando há créditos incobráveis, o banco perde valor. Alguns bancos irão ter mais dificuldades em encaixar estas perdas, porque têm uma situação financeira frágil, e é por aí, que muitas vezes entra o dinheiro dos contribuintes. A crise pandémica virou a nossa vida do avesso. Muitas pessoas perderam todo ou parte do seu rendimento. No dia 20 de Março, a Comissão decidiu suspender a disciplina orçamental, para permitir aos países, défices orçamentais que não respeitem as regras de Maastricht. No entanto, a disciplina orçamental, não altera a taxa de juro da dívida, que é uma das principais preocupações, para países como Portugal. A Comissão também criou o Fundo Europeu de Solidariedade, que pode ajudar com montantes modestos, entre 2,5% e 6%, das despesas dos países mais afetados pela crise. Havia mais programas, aqui, e ali, desde os 37 mil milhões para ajudar no investimento em sistemas de saúde, a linhas de crédito do Banco Europeu de Investimento. O BCE reagiu com um pacote de compra de dívida de 750 mil milhões de euros, antecipando para o início da crise o famoso "whatever it takes" de Mario Draghi. Os apelos de vários economistas europeus, para o financiamento direto da dívida, com impressão de moeda, isto é, sem que esse financiamento envolva um aumento da dívida, não deram em nada. Depois da hesitações iniciais, a União Europeia, foi avançando, no apoio à despesas dos estados para as políticas de proteção dos rendimentos do trabalho, na dívida comum e na dimensão do orçamento. O pacote de recuperação da crise deverá aproximar -se de 1,5 biliões de euros. O pacote- se- e quando chegar- deverá vir envolvido, no chamado orçamento europeu, cujo verdadeiro nome é "Quadro Financeiro Plurianual", que tem uma duração de sete anos. A vantagem deste "Quadro" é que é um instrumento que pode ser financiado com dívida emitida pela Comissão Europeia, previsto nos Tratados. Falando de eurobonds, nome encontrado para a emissão da dívida europeia, o pacote de recuperação da crise, chamado de Next Gneration European Union, inclui a possibilidade de a Comissão Europeia se endividar até um máximo de 750mil milhões de euros, mas não pode haver emissão de nova dívida, para lá de 2026, e, os fundos assim obtidos, só podem ser usados, no combate às consequências da crise pandémica. A dívida europeia, será paga no futuro, com base no orçamento europeu, que depende das contribuições de cada país, individualmente. O facto de repensar em impostos acionais, quer dizer duas coisas: A primeira: é que o risco a dívida continua ligado aos riscos dos países. Este risco, posto de forma muito simples, é como quem compra títulos da dívida. Quem compra dívida, ela será paga, em função da capacidade, de os países individualmente, cobrarem impostos. A segunda razão: é que não irá haver justiça fiscal, sem coordenação internacional, porque as pessoas mais ricas, têm mais facilidade, em utilizar as diferentes leis fiscais a seu favor Houve um fracasso social e psicológico, das mortes e, do sofrimento, que a pandemia nos trouxe, mas, nem tudo foi mau em 2020. Foi o ano em que a humanidade provou a sua capacidade extraordinária de inventar o futuro - da transição digital, que muitos de nós fizemos de um dia pra o outro, à vacina, criada e distribuída em menos de um ano. Portanto, o potencial existe. O que falta, são as instituições políticas, que distribuam os ganhos, da extraordinária criatividade humana, de forma mia inclusiva. É fundamental, apostar numa "Sociedade Ética", que enfrente os nós górdios, que nos impedem coletivamente, enquanto sociedade, de aproveitar o nosso potencial: a secundarização da ciência, a crise ambiental, a pobreza e a corrupção. A aposta na ciência, e, na transformação digital, são fundamentais para o desenvolvimento. Sem ciência, não havia vacina, e, sem vacina ao havia luz ao fundo do túnel negro em que estamos. Sem investimento em ciência, não teríamos uma economia capaz de inovar, de criar empregos de qualidade, e, bem remunerados. Uma economia próspera e inclusiva, passa, necessariamente por aqui. A outra dimensão fundamental é a da sustentabilidade: é importante que Portugal, atinja a neutralidade carbónica e desenvolva políticas para aliviar os efeitos das alterações climáticas. O desafio é relevante, porque requer uma alteração fundamental, nos comportamentos.. É preciso apostar na economia circular, como fonte de matérias-primas, investir nos transportes públicos, promover o teletrabalho, garantindo que as condições laborais, de privacidade e de equilíbrio com a vida pessoal, estão asseguradas. É necessário renovar o nosso parque habitacional, para que tenha propriedades térmicas, que evitem o consumo de energia, de climatização, pelo que abrandaria certamente o dramático problema da pobreza energética em Portugal. Dar rendimento às pessoas não resolve tudo, mas é um passo importante. As pessoas que vivem na pobreza, gastam demasiado tempo a pensar como vão pagar as contas do fim do mês, e colocar na mesa o jantar do dia seguinte. Não podem, nem conseguem, pensar no futuro. é essencial, o alívio à situação de emergência social, em que nos encontramos, pois, um Estado social menos condicional, facilitará a transição de pessoas entre empregos. Qualquer estratégia de erradicação da pobreza, tem de incluir uma política de origem, que assente em vales para bens essenciais, junto com transferências monetárias, generosas e abrangentes, de creches e jardins de infância de qualidade, e, gratuitos, e, visitas domiciliárias, por equipas sociais multidisciplinares. Por outro lado, a corrupção prejudica o crescimento económico, dificulta a redistribuição, a favor dos mais pobres, aumenta a desigualdade, facilita a vida ao crime organizado, e, contribui para a falta de confiança nas instituições. Um Portugal menos corrupto, será também, mais coeso, menos desigual, mais próspero e mais democrático. Em suma, é necessário, que consigamos tomar decisões coletivas, a pensar no futuro, pois pensar a um década, ou, a uma geração tem estado afastado das nossas possibilidades, enquanto sociedade. Mas, é por aí, que temos de começar. Nas últimas décadas- no auge da globalização- um grande número de países que haviam enfrentado dificuldades, e que com frequência se encontravam isolados, atingidos pela pobreza, com uma grande parte da sua população necessitada de um emprego remunerado e decente- ofereciam algo que as empresas do mundo desenvolvido, não conseguem resistir. Neste contexto, o Japão, a Coreia, a China e outros países, conhecidos como Tigres Asiáticos, ofereciam mão de obra barata, com pouca regulamentação laboral ou regras ambientais em troca de se tornarem no "back office" do mundo. A classe média das nações emergentes expandiu-se em centenas de milhões de pessoas à medida que o crescimento do PIB subia em flecha. Os lucros dispararam e os mercados de exportação expandiram-se nas economias dominantes, onde os consumidores desfrutavam de bens a baixo custo e, os trabalhadores altamente qualificados, tinham o privilégio de escolher o emprego que mais lhes agradasse. Contudo, o modelo da globalização já não funciona como uma base fiável, para guiar o desenvolvimento económico, dos países que já se encontram em ascensão económica, ou que estão a tentar iniciar o seu caminho nesse sentido. No centro desta mudança, os serviços a consumirem os produtos da China Japão e Coreia. estarem a alterar lentamente a sua abordagem, encorajando as empresas a voltarem à fabricação de serviços, por forma a estruturar as economias nacionais. Em simultâneo, as multinacionais começaram a distanciar-se das complicadas relações internacionais que se estendiam profundamente até aos países de baixos salários, pois o surto generalizado de governos populistas acrescentou camadas de risco e dificuldade na criação de cadeias de abastecimento globais. A competição já não se centraliza na aquisição de mão de obra barata disponibilizada por outros países, mas, cada vez mais, na implementação de robôs aina menos dispendiosos, mais inteligentes e mais capazes, bem como de ferramentas e programas de inteligência artificial. O abrandamento da globalização deixou um vácuo para o surgimento de um novo modelo de desenvolvimento económico. A melhor opção para preencher este vazio é a estratégia "local first" como uma melhoria, face ao quadro predominante internacionalista a que nos habituámos, seja a constatação de que, mesmo quando a globalização parecia beneficiar toda a gente, não o fez. É certo que a classe média cresceu globalmente, a par dos lucros empresariais, os benefícios de eficiência operacional foram reais, os preços da maioria dos bens fabricados, foram mantidos sob controlo, e, um maior número de pessoas tomou parte na resolução da tecnologia pessoal e das comunicações. porém, estas melhorias essencialmente registadas pelo crescimento do PIB, limitaram-se a ocultar os efeitos negativos da globalização. Em termos gerais, os números do PIB, comprovavam a prosperidade global, em média, enquanto grandes parcelas da população ativa, estavam a viver de estagnação e diminuição de rendimentos. Os resultados do PIB, também se sobrepuseram a fatores intangíveis, tais como a degradação ambiental, a falta de benefícios e a insegurança associada a muitos postos de trabalho, bem como a diminuição de alguma qualidade de vida em algumas comunidades .É urgente estabelecer programas "local first" para o desenvolvimento económico; ou seja dedicar mais atenção à criação de comunidades prósperas, pois as necessidades humanas são melhor identificadas e geridas a nível local.. Cidades, vilas e aldeias são os locais onde o progresso social e o sucesso económico mais naturalmente se encontram. Precisamos de criar soluções locais para problemas locais e, por sua vez, desenvolver economias mais dinâmicas. Por outro lado, é urgente tomar decisões sobre a forma como a tecnologia é implementada e utilizada nos dias de hoje. Precisamos de estabelecer disciplinas, práticas e políticas, para ajudar as pessoas a tomar decisões de forma inteligente, e, teremos de nos proteger contra a retaliação on line. Há alguns passos essenciais que podem ser dados imediatamente, no sentido de controlar a tecnologia: a requalificação profissional para um mundo digital; proteção de dados contra utilização indevida; reforço da contribuição da sociedade civil na busca de soluções para questões de privacidade. A requalificação tem em vista alcançar quatro objetivos: assegurar que as pessoas sejam o menos vulneráveis ao futuro possível, minimizando a interrupção do emprego, particularmente entre as populações em envelhecimento, à medida que os postos de trabalho passam a exigir competências digitais avançada; permitir que todos se envolvam de forma ponderada e inteligente, na descoberta de formas de humanizar a tecnologia; a busca de soluções para os excessos de tecnologia e ainda reduzir as lacunas de conhecimento, sociais e económicas entre os que possuem recursos, e, os que não possuem. Todos precisamos de ser bons alunos de tecnologia, do seu impacto na sociedade, e, em nós próprios. Precisamos de ser aquilo a que eu chamo humanistas tecnologicamente competentes, ou seja, temos de compreender tanto o que as pessoas exigem da tecnologia, para melhorar as nossas vidas, como todo o seu potencial para alterar o mundo à nossa volta, de formas mais ou menos relevantes.