domingo, 11 de abril de 2021

O REGRESSO DA INFLAÇÃO?

 Os Governos de todo o mundo têm procurado aliviar o efeito da crise pandémica com juros em mínimos históricos, megaprogramas de compra de dívida e outros ativos e biliões de euros injetados na economia, através de apoios sociais, ajudas às empresas e investimento público. Mas todas estas medidas têm consequências do lado dos preços. É praticamente a dimensão do PIB italiano, que chegará à economia através de cheques de 1.400dólares para as famílias, uma prestação para agregados com filhos, o reforço do subsídio de desemprego ,apoio financeiro dos Estados e a reabertura das escolas e dos restaurantes. Este plano gerou entusiasmo com uma saída mais rápida da crise, mas também houve críticas dos economistas mediáticos do mundo: o motivo central é que ao distribuir e gastar tanto dinheiro, este programa irá provocar um sobreaquecimento da economia, o que pode fazer disparar a inflação.. E, níveis elevados de inflação, podem não só servir, como "um imposto escondido-havendo mais dinheiro em circulação, cada moeda vale em si, menos-, como obrigar o Banco Central, a subir os juros. E esse risco faz sentido? Sim. Por um lado, há um pacote orçamental gigantesco, muito acima do que seria preciso para recuperar a atividade económica para a sua capacidade produtiva, e que, por isso, terá tendência a levar a um aumento de preços. Por outro lado, um Banco Central dos mais "pomba", de que há memória, no que diz,  ao que afirma ser, a sua tolerância para com a inflação  alta nos próximos anos, e, com uma dívida tão elevada, que qualquer aumento das taxas de juro, teria um grande impacto orçamental. No entanto, o contexto atual, traz uma série de travões a esse avanço dos preços. Esta crise, tem a particularidade, de atingir, ao mesmo tempo, a oferta e a procura. Um estímulo fará aumentar o consumo- o que teoricamente, puxa pelos preços-; porém isso acontece, numa altura em que as empresas também, começam a produzir mais, o que põe água na fervura da inflação. Mais: temos hoje, várias décadas de sucesso, no controlo da inflação, em torno da meta de 2%, valor que a zona euro não ultrapassa, desde 2016. Mesmo que nos desviemos momentaneamente, as famílias e as empresas continuarão a agir, assumindo que a inflação, acabará por regressar a esse ponto- e confiando se necessário, o Banco Central intervirá para evitar um descontrolo. As condições estruturais da economia, parecem ainda empurrá-la mais, para cenários de deflação (queda dos preços) do que, para um crescimento sustentado de inflação. Qual é o principal problema? É a possibilidade de deflação prolongada. Há fatores estruturais a pressionar a economia real. Pode ter momentos de inflação, mas não um "boom". Um cenário de espiral inflacionista, é pouco provável. Inflação descontrolada, tende a surgir, historicamente , em contextos muito específicos, de perda de independência do Banco Central, que não me pareceu ser o caso, de qualquer economia desenvolvida. E, embora, o Banco Central dos EUA- a Fed- permita agora, desvios temporários da meta de 2%, se se tornar claro, que a inflação está a ficar fora de controlo, voltará a intervir para a controlar. Além disso, muitos dos que pensam, que há risco de inflação. já gritavam "lobo" no passado, seja há mais de uma década, quando a Fed estreou a sua política de compra de ativos para combater a crise financeira, seja mais recentemente, quando Trump, introduziu um corte brutal de impostos, com o desemprego em mínimos históricos. O lobo não veio. Estas previsões "falhadas", devem -se ao medo de repetição do cenário dos anos 70 nos EUA, com crescimento baixo e inflação alta (estagflação). Na Europa, é necessário conviver com o trauma alemão face à hiperinflação. Contudo, o mundo mudou nos últimos 50anos:o Fed é muito mais independente, e é relativamente consensual, que assim deve continuar; a própria estrutura da economia mudou, e, estamos a sair de uma década em que os preços praticamente não se mexeram. Nos anos 70, o choque veio do lado da oferta(o choque petrolífero), enquanto atualmente, é mais provável que choques negativos da procura predominem.  Talvez seja altura de considerar, se um cenário de subida descontrolada dos preços, continua a ser um risco real para economias desenvolvidas. Será que resolvemos a equação da inflação? É uma possibilidade. o que temos visto, nos últimos 30anos é que fomos capazes de gerir as expetativas, graças à credibilidade dos Bancos Centrais. Acredito numa meta de inflação de 2%, porque o Banco Central assim o afirma. A política monetária,  apoiada nos grandes avanços da teoria macroeconómica, das últimas tês décadas, e, num apoio institucional forte, nas economias avançadas, em torno dos bancos centrais independentes, tem feito um trabalho extraordinário em manter uma inflação  estável. Os receios são de uma Fed mais permissiva, com alguma inflação momentânea, o desejo de usar os Bancos Centrais para atingir outros objetivos, além da estabilidade de preços, combate às alterações climáticas, desigualdade e dívida pública muito elevada. Assim , é provável que o "problema" reapareça. Na verdade uma grande fatia da população, nunca sentiu na carteira o peso da inflação. Há anos atrás, havia o medo da inflação, mas a geração mais jovem, terá um condicionamento diferente. O medo da deflação irá mudar a forma como olham para os preços. "2021". As pressões inflacionistas surgem dos estrangulamentos das cadeias logísticas, depois do fecho da economia. A inflação é desvalorização de moeda, e, não subida dos preços. Existem "subidas de preços estruturais", ditadas pela recuperação da crise aberta pela pandemia. Subidas que surgem numa época em que já levamos bastante tempo de baixa inflação e até de deflação. O ajustamento dos preços é o reflexo da grande aceleração da transformação económica e social que está em curso. E "antes do medo" da inflação, é necessário fazer essa transformação, " o mais rápido possível", com maior fulgor, na criação de riqueza, aumento de produtividade e sustentabilidade social. Ou seja, criar "mais valor" e distribuir "melhor". A necessidade imposta pelos défices públicos e privados, gerados a ajudar as famílias e as empresas, com medidas sem precedentes, e, uma inflação ligeira, até é positiva. Não é o tempo de ter medo, mas de moderar as crises económica e social. Algumas matérias-primas revelam "subidas de preços ".Paládio, cobre  algodão orgânico e madeira serrada estão mais caras. Subidas que surgem também nalguns bens que estiveram afastados do consumo, como as viagens aéreas. Estes aumentos são justificados com " a recomposição da economia pós -crise. Situação que irá durar até 2022, e depois moderação. Numa Europa de enormes desigualdades é preciso concentrar a atenção no futuro, "baseando o crescimento numa "economia intangível de soluções, e, não de quantidades". Importante, é criar riqueza, para melhorar a vida das pessoas, com o crescimento baseado na eficiência e na sustentabilidade. Se assim for, a médio prazo, teremos resultados, Até lá, turbulência nos preços e oscilação cambial. Não podemos recuperar com aumento de preços. Não basta fazer chegar o dinheiro às empresas e às famílias, é preciso não responder à crise, com a queda dos preços, como aconteceu no início da pandemia. Tal irá trazer  "a aceleração da inflação " e a "perda de confiança das moedas". Ou seja: não se deve exagerar no suporte financeiro à crise. A solução é apostar mais na produtividade, na  inovação, no trabalho, e, não em truques de magia.

  O grande tema do fórum anual do BCE, em Sintra, foi a inflação.. A inflação em Agosto atingiu os 3% na zona euro, e as previsões são que suba mais nos próximos meses.. O receio de Lagarde é que depois de 12 meses de inflação elevada, ela não volte para perto de 2%. Ou seja, que esta subida não seja temporária mas persistente. Lagarde está convicta de que será temporária. Os preços dos bens estão a subir mais rapidamente do que os dos serviços, devido aos problemas das cadeias de abastecimento, que se espera sejam temporários. Além disso os fatores que contribuíram ara a inflação estar perto dos 1%, durante tantos anos, não desapareceram. Lagarde, acrescenta que a digitalização da economia, a transição energética, e uma tendência mais aforradora do último ano, podem contribuir para puxar a inflação para baixo. No entanto, há uma probabilidade, pequena, mas não negligenciável, de a inflação continuar elevada, durante alguns anos, falhando assim o alvo do BCE.. A inflação na zona euro, irá ser determinada por aquilo que o BCE faça. A inflação é sobretudo um fenómeno monetário. É o BCE que controla as taxas de juro, o tamanho do seu balanço, e , a sua independência face à política orçamental, e estes são os grandes determinantes da inflação. Com mais ou menos digitalização, discrepância entre bens e serviços, ou transição energética, se o BCE reagir a estas mudanças com alterações severas nas taxas de juro, ele irá manter a inflação sob controlo. Mesmo que seja preciso "um whatever it takes" à la Draghi, a inflação na zona euro depende sobretudo daquilo que fará o BCE. A inflação veio para ficar. O colapso da atividade provocado pela pandemia, conjugado com a ação decisiva da política económica, na proteção do rendimento das famílias e dos cashflows das empresas, abriu uma enorme lacuna, entre a procura e a oferta agregada. Este desequilíbrio resultou em pressões inflacionistas, que, por serem conjunturais, se esperavam temporárias. Essa foi a leitura dos Bancos Centrais, mas não é isso que está a acontecer. Na verdade, a dinâmica em curso, representa um processo rigoroso de inflação persistente.  Como em tantos outros episódios de inflação, a subida dos preços teve origem nas matérias primas (energéticas ,industriais, alimentares), rapidamente passando para os fretes marítimos, numa escalada de preços a montante da atividade produtora global. Da conjugação destes efeitos, resultou a subida dos preços do produtor, aos preços no consumidor, bem como às expetativas de inflação ás das empresas, das famílias e dos investidores, criando uma complexa teia de mecanismos de retroalimentação. Para além disto, o protagonismo da política orçamental durante a pandemia- em contraste com a recessão anterior- contribui para estender a inflação no tempo, por implicar a infusão consistente da despesa pública na economia, sobretudo em situações de abrandamento da atividade, nas quais as tensões inflacionistas tenderão a desaparecer. A subida sustentada dos preços, tende a ser um alívio para as economias mais endividadas- como as europeias-, por favorecer a condição financeira das empresas e dos Estados, uma vez que a inflação eleva as receitas das vendas, no caso das primeiras, e dos impostos no caso dos segundos, enquanto o valor facial das dívidas se mantém inalterado. Mas este efeito positivo, só se poderá materializar, se os custos de financiamento não se agravarem substancialmente, o que poderia acontecer, se em resposta à subida generalizada dos preços, os Bancos Centrais decidissem mudar radicalmente o modo flexível da política monetária atual. Contudo, esse não é o curso de ação provável, sobretudo no caso do Banco Central Europeu, já que os elevados níveis de endividamento, constituem um entrave material à persistência agressiva das condições monetárias. Daqui resulta, que o principal risco associado à inflação, consiste num desvio descontrolado das expetativas inflacionistas dos agentes económicos, que possam provocar uma espiral de inflação, à qual os Bancos Centrais teriam de responder, de forma viva, com consequências adversas para a estabilidade financeira, para a atividade económica e para o emprego. A inflação em Portugal está a subir, segundo a tendência europeia global e medida pelo Índice de Preços no Consumidor. Mas é uma das mais baixas no espaço da moeda única europeia. O que explica a inflação baixa em Portugal? Sobretudo, o atraso na recuperação, Portugal só deve atingir o PIB, pré pandemia, em meados do ano, enquanto a zona euro já superou. Em Portugal, os impactos fiscais de alívio da pandemia, não tiveram um efeito tão direto sobre os preços. Considerando apenas gastos públicos adicionais e receita cobrada, a base de dados do FMI, sobre a resposta à crise pandémica, coloca Portugal na 18ª posição entre os 27. Como consequência de um menor apoio direto à economia, a inflação tem sido mais moderada, do que nos restantes países da zona euro, já que podemos sofrer com uma correção monetária, com subida das taxas de juro, que será reflexo das dinâmicas inflacionistas, bastante mais fortes. E, devido o acentuado nível de endividamento publico e privado, um cenário em que as taxas de juro, estão acima da taxa de crescimento da economia da economia, poderá  desencadear uma crise económica e política de difícil resolução. A inflação deve manter-se pressionada em alta, durante o primeiro semestre de 2022.  Os produtos energéticos, foram os principais responsáveis pela subida dos preços nos últimos doze meses, e, o cenário é de alto risco, fruto das tendências geopolíticas associadas ao conflito  entre a Rússia e Ucrânia. Quais os custos da inflação? O aumento dos preços em Portugal implica que os salários dos trabalhadores não lhes permitem comprar tantos bens e serviços. O poder de compra cai e as pessoas têm uma vida mais difícil, sobretudo no contexto de uma crise pandémica, com consequências graves.. A  inflação em Portugal ,está no valor mais elevado em quase 28 anos. O risco de continuarmos a registar aumentos históricos da taxa de inflação são elevados, devido aos efeitos da guerra. A variação homóloga do IPC, atingiu 5,3%, o valor mais alto desde 1994. A questão é, em que medida revisões salariais, antecipação do consumo, e outros fenómenos típicos de economias com inflações mais elevadas, e que contribuem para que a própria inflação se mantenha num nível mais elevado, se vão impondo, falando de uma inflação temporária, que se está a tornar permanente. Se os salários evoluírem, abaixo da inflação , o poder de compra das famílias será penalizado. Mas revisões salariais mais fortes, poderão levar a uma subida das expetativas da inflação, que exijam uma correção das taxas de juro por parte do BCE. Como famílias e empresas saíram da crise pandémica, com maiores dívidas. isso poderá levar a uma acentuada desaceleração do crescimento económico. A escalada dos preços tem dominado muitas  décadas, atingindo 7,4% em março. Há um risco significativo de as medidas para conter a inflação, levarem a uma recessão. Tendo em conta a política monetária altamente expansionista de 2021, vamos ter ,com elevada probabilidade, inflação alta durante o ano de 2022. Quanto mais o banco central, demorar a responder a um aumento da inflação, mais esta se torna persistente e enraizada nas expetativas dos agentes económicos. Travar a inflação é muito difícil sem causar uma recessão. Com os confinamentos de novo a intensificar -se na China, e, a incerteza sobre a guerra na Ucrânia, as causas exógenas para a inflação na zona euro, podem durar e até poderão tornar-se resistentes. Nesse caso, os salários acabarão por subir bastante na zona euro. E, se os salários começarem a estar indexados aos preços, a inflação permanecerá na zona euro. A subida dos preços penaliza as famílias com rendimentos fixos, como salários e pensões, se estes não forem atualizados ao mesmo nível da inflação. Para as família com créditos, nomeadamente para comprar casa, a inflação também é uma má notícia, já que a resposta dos bancos centrais traduz -se numa subida das taxas de juro de mercado. Os países exportadores de produtos energéticos, cujo preço disparou, ganham com a inflação. Também os aforradores, como as famílias com poupança, ganham porque, com a subida das taxas de juro de mercado, essa poupança ficará melhor remunerada. Por outro lado, a subida da inflação significa mais receitas ficais para o Estado, porque a taxa de impostos como o IVA, aplica-se sobre os preços mais elevados.  E, para países muito endividados como Portugal, a subida dos juros, agrava a fatura com o serviço da dívida.



quarta-feira, 31 de março de 2021

O IMPACTO DA PANDEMIA NA ATIVIDADE ECONOMICA E SOCIAL

 Na maior parte das opiniões as previsões são bastante negativas. Primeiro, o efeito que a pandemia teve no emprego das mulheres: muitas mães com filhos pequenos, viram-se obrigadas a ficar em casa e- voluntária ou involuntariamente- ficaram desempregadas. Nos Estados Unidos, a disparidade do efeito da crise, nos homens e nas mulheres, é tal que alguns se referem à presente recessão como se tratasse de uma "she-cession". Há no entanto, um aspeto positivo: um dos principais fatores que têm levado à discriminação das mulheres no mercado de trabalho- nomeadamente em progressões da" carreira"- é que estas profissões, exigem um grau de disponibilidade que muitas mulheres não têm, ou não querem ter(por exemplo ficar no emprego longas horas ou viajar frequentemente) Para estas mulheres que querem seguir uma carreira minimamente compatível com tratar da família, o futuro é mais risonho do que o passado: um dos efeitos do teletrabalho, será a maior flexibilidade na gestão das carreiras. E, as mulheres, nomeadamente mães, serão provavelmente o grupo mais beneficiado, por esta evolução. O segundo caso é a globalização. Para aqueles que defendem, no seu conjunto, a globalização é uma coisa boa, a pandemia foi um golpe forte. Por exemplo, as Nações Unidas, estimam que o volume de turismo, baixou entre 60 e 80 por cento, o que corresponde a uma perda económica de mais de um milhão de dólares. No entanto, tal como o teletrabalho, a grande experiência da pandemia, terá efeitos que continuarão muito para lá. Um desses efeitos é acelerar a convergência para a "economia não espacial". A economia é cada vez mais uma economia de serviços, e muitos desses serviços, são facilmente transacionados à distância. Muitas empresas em muitos setores estão a descobrir que uma parte importante do movimento das pessoas é supérfluo. Nesse sentido, as medidas "tradicionais" de globalização- como seja o transporte aéreo- não mostram a fotografia completa do que está a acontecer à globalização. O terceiro caso- da faca de dois gumes-  é o efeito da pandemia nos mais pobres. O século XXI tem sido mau para os menos favorecidos. Concretamente, a revolução digital em curso, cria um fosso cada vez maior entre os que têm as aptidões necessária para vencer, e os que não as têm. A pandemia. é uma machadada adicional em muitas dessas pessoas: pessoas que trabalham em fábricas e em escritórios, e especialmente, pessoas que trabalham nos setores a restauração, hotelaria e relacionados. É provável, que, muitos desses empregos, sejam restabelecidos no futuro, mais ou menos próximo, mas entretanto, temos mais de milhares e milhões de pessoas que sofrem a sério. No entanto, há uma vontade política, de criar programas ambiciosos de apoio às famílias e às pequenas e médias empresas. Isso varia de país para país, mas os casos da União Europeia e especialmente dos Estados Unidos, são notórios, tanto no que respeita à dimensão do programa, como ao  enfoque no auxílio dos mais favorecidos, como também o relativo consenso sobre a importância dessas medidas. Esperamos que, no futuro, olhemos para trás e, vejamos 2021, como o ano em que começamos a combater o problema da desigualdade e exclusão social de forma séria. Coloca-se a este propósito uma questão: saber se o principal risco político para as democracias é o nível muito elevado de pobreza, ou um padrão de distribuição de recursos muito desigual. A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar; e, não apenas por uma exigência pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também, para a curar duma mazela que a torna frágil, e que só poderá levá-la a novas crises.. A desigualdade é a raiz dos "grandes males", e enquanto não forem solucionados os problemas dos pobres, renunciando à especulação financeira, e combater as causas sociais da desigualdade social, não se resolverão os problemas do mundo. Nas últimas décadas, mesmo em sociedades ricas, as desigualdades na distribuição de rendimentos, aumentaram. Esta transformação, tem consequências económicas sociais e políticas profundas. A desigualdade tem um preço: níveis excessivos de iniquidade na distribuição de recursos, representam um risco sistémico e são responsáveis por diversas formas de instabilidade política. Uma sociedade dividida, funciona pior, também porque, a desigualdade material traduz-se necessariamente numa desigualdade política. Por isso, nas nossas sociedades, os riscos associados às desigualdades materiais, foram regulados politicamente através de mecanismos de socialização, de que a criação da proteção social, assente no seguro público, é exemplo paradigmático. A importância relativa dos mecanismos de redistribuição material, como forma de contrariar as desigualdades criadas no mercado, corresponde a um reconhecimento de que a desigualdade dos resultados e de rendimentos, é ,uma importante medida, artificial, logo a focalização excessiva na igualdade de oportunidades, incentivada pela educação pública é desadequado. Responder à desigualdade de resultados, é a forma mais eficiente de responder às desigualdades de oportunidades, porque garantir trabalho e /ou rendimentos suficientes aos adultos, ajuda a quebrar a reprodução geracional da pobreza. Encontramo-nos em tempos difíceis. É necessário dar resposta a alguns problemas económicos para irmos resolvendo o problema da crise em que vivemos.


quinta-feira, 4 de março de 2021

A" BAZUCA" EUROPEIA

 O agudizar da crise pandémica  confirma a ideia de que 2021 é um ano marcado pela continuidade e agravamento da crise iniciada no ano anterior. Isto é, um problema de saúde pública que além da destruição humana que provoca, atira a economia para uma profunda crise, com consequências ainda não totalmente previsíveis. A pandemia parou subitamente um ciclo de mais de uma década de crescimento económico contínuo, naquele em que já era considerado como o mais longo "bull market". Tudo parou bruscamente com o início da pandemia. Apesar das boas perspetivas com as vacinas e a maior resistência no sistema de saúde e das empresas, os resultados catastróficos do início do ano, colocam Portugal em duplo desafio: travar o aumento do epicentro da crise da saúde pública com a trágica perda de vidas e antecipar as ações para contrariar o aprofundar das consequências na economia. A perda em Portugal é enorme. Só em 2020 a nossa economia teve uma recessão a rondar os 7,6% do PIB, com impactos sérios e altamente destruidores em setores importantes, o que levou à perda de milhares de postos de trabalho e à falência de muitas empresas. O investimento empresarial caiu mais de 16% no ano passado, de acordo com o Inquérito ao Investimento do INE. Para 2021, as perspetivas são uma recuperação modesta; pretende-se, apenas um crescimento de 3,5%. Devido ao confinamento da Europa, o FMI reviu também em baixa as previsões de crescimento económico na Zona Euro para 4,2%. Nas crises, é comum pensarmos que temos muitas formas de as gerir ou manter soluções. Mas não, as crises caracterizam-se exatamente por encolher as opções e estreitar os caminhos a percorrer. A crise a que estamos a assistir é nova em muitos aspetos, nomeadamente, na dimensão que está adquirir e na forma transversal com que está a afetar na generalidade das empresas. Com estes dados é agora preciso atuar e saber que escolhas a fazer. A aposta na qualificação de pessoas, na automação ou na transformação digital, poderão ser chaves de um passado não muito distante. Contudo, os dados de que dispomos conduzem a um caminho convergente, e que o digital, não e sinónimo de inovação, mas sobrevivência e esperança  no futuro, salvando postos de trabalho e aumentando a produtividade. Esta crise, teve um efeito geral de aceleração de tendências, que já se dava em diversos planos: na digitalização, na forma de trabalhar, ou na relação com os clientes. No entanto, existe o risco de poder ser um enorme "aquaplaning"  que conduza ao desvio de muitos no caminho certo. Quando uma empresa se transforma na área digital, já não está apenas a potenciar aquilo que fazia, mas sim, a abrir novos mercados e a expandir-se em termos de base de clientes. É por isso, que os processos de transformação e inovação digitais, passaram subitamente de "um nice to have" para uma condição mínima de existência, sendo um pilar fundamental na recuperação esperada. Este foco na transformação digital, ajuda a reunir outro pilar, que considero fundamental para a nossa recuperação económica: a aposta em alguns setores industriais e na produção nacional. Não nos podemos esquecer que uma da razões para o progressivo abandono de alguns setores industriais, foi a falta de competitividade que as nossas empresas tinham, quando comparadas com concorrentes internacionais. Só através do aumento de eficiência e produtividade, podemos pretender desenvolver novamente algumas indústrias, pois o mercado e os clientes, não estão disponíveis para suportar os custos de operações antiquadas, ou insuficientes. O mercado continuará a ser global! O caminho é mais estreito do que podemos pensar. Muitas empresas e organizações já perderam esta batalha, e, ainda estamos apenas no início. Segundo o estudo Resilliense Report de Deloitte. de 2021, que mede o grau de resistência das organizações globais, e que contou com a participação de mais 250 chief experience officeres em 21 países, 60% dos líderes do C- level, acreditam que a quebra veio para ficar e irá continuar a marcar o futuro numa base regular e pontual .E a chave numa crise ,como esta, é atuar o mais possível com eficácia. .É de avançar em áreas-chave: investir na força de trabalho com requalificação; diversificar e expandir operações; consolidar negócios e ganhar dimensão; desenvolver capacidades tecnológicas com novos modelos de negócio; desenvolver o trabalho remoto, entre outros. Neste percurso, existirão caminhos aparentemente viáveis, mas que acabarão em becos e valas que poderão ser intransponíveis para muitas empresas, organizações e até setores inteiros. Para que a crise iniciada não se transforme ainda numa crise ainda mais profunda, há que reduzir opções e intensificar o caminho a percorrer com esperança e determinação. A solidariedade entre os países da União Europeia, é fundamental na resposta a esta crise, nas suas vertentes económica e social.. É relevante o projeto europeu, como projeto de paz e de união neste período difícil em que vivemos. O apoio pela via do PPR  é substancial e tem que ser já. Não nos podemos esquecer que este Plano é uma parte do bolo financeiro com que Portugal pode contar para atenuar os impactos da crise pandémica. Os objetivos do Plano de Recuperação e Resiliência devem:  dinamizar as empresas privadas reforçando os seus capitais e tornando-as mais competitivas nos mercados globais; apoiar os investimentos na requalificação dos trabalhadores portugueses, na transição digital, e, no reforço das condições de sustentabilidade ambiental das empresas(nomeadamente no contexto da transição energética). Um dos maiores problemas  assenta no nível de liquidez, pelo que estes apoios devem atuar sobre esta vertente emergente, para além de preparar as empresas para a fase de recuperação, o que passa por uma aposta na valorização da indústria, na requalificação dos recursos humanos; na digitalização dos negócios, na eficiência do uso de recursos, entre outras matérias, e, ligados à produtividade e e competitividade.. A proposta que se encontra no PRR, em consulta pública, representa uma desilusão para o turismo. A referência ao turismo sendo escassa, surge apenas associada a temas genéricos, e não como seria urgente, a projetos estruturais para o desenvolvimento da atividade. Este documento não reflete a importância que o turismo  tem para o PIB  português, no contributo para a criação de emprego e riqueza para o país. É necessário existir um programa específico para o turismo. Por outro lado, as empresas não têm liquidez e estão muito endividadas. Precisam de liquidez imediata, que deve ser canalizada preferencialmente através da modalidade de financiamento a fundo perdido. Dos 2,7 mil milhões de euros, há uma parte (1,25mil milhões de euros), que deve ter uma papel importante no apoio ao financiamento, desejavelmente, deve prever a conversão total em subsídios a fundo perdido, sem imposição e rigidez de requisitos, que as empresas dificilmente podem assegurar. Vamos ter recursos disponíveis, como nunca vimos em anteriores quadros comunitários. Mas o período que estamos a passar é também inédito. Por isso ,neste momento, a economia precisa, sobretudo, de apoios a fundo perdido, sob pena de assistirmos a um aumento de insolvências e de destruição da capacidade produtiva , o que limita a capacidade de recuperação, quando a economia estiver controlada. Mas, simultaneamente, deve existir grande preocupação pela qualidade da aplicação desses fundos. De pouco servirão se não forem utilizados de forma eficaz e rápida. É necessário saber gerir esses fundos. O Fórum para a Competitividade, considera que o Plano de Recuperação e Resiliência, deve estar concentrado numa forte aceleração do crescimento, única forma de manter contas públicas saudáveis que permitam satisfazer as ambições legítimas da população em termos de saúde, educação, segurança social, ascensão sócio-profissional, e o futuro da economia e do país. Deve por isso ser centralizado na reindustrialização; no incentivo ao aumento da dimensão da empresas ; na promoção da competitividade; da exportações ; na atração de IDE; na melhoria da formação e da qualificação dos recursos humanos; bem como , no aumento da flexibilidade do seu contributo; no estímulo da poupança; e da sua utilização eficiente; numa fiscalidade amiga dos investidores nacionais e estrangeiros; no investimento em infraestruturas da digitalização, que permitam ao país participar na economia do futuro; na reforma de toda a administração pública. Os objetivos a atingir no processo de reindustrialização  são:

- Distribuição mais equilibrada do PIB entre os setores primário, secundário e terciário;

- Aumento do valor acrescentado dos produtos e serviços transacionáveis;

- Melhoria do posicionamento competitivo dos produtos e serviços transacionáveis no âmbito da globalização;

- Incremento do rácio Exportações/PIB, alcançando o objetivo de 60%;

- Criação de emprego com maior sofisticação intelectual e tecnológica, mais bem remunerado;

- Intervenção em toda a cadeia de valor, melhorando a resistência da economia portuguesa às crises internacionais;

- Criação de grupos económicos mais robustos e com maior integração internacional.

O dinheiro da "bazuca" ainda não chegou e a polémica já está instalada sob a forma de o gastar. Em primeiro lugar, há que referir o impacto do dinheiro de Bruxelas, cerca de 14mil milhões até 2026, não chega para compensar a riqueza que o país deixou de criar em 2020, que foram 15 mil milões de euros a menos, relativamente a 2019. Em segundo lugar; as opções sobre a sua aplicação, já se encontram realizadas; apoios sociais, investimento na Administração Pública em diversos domínios, e investimento em algumas infraestruturas, altamente consumidoras de capital, a pretexto da transação digital  e do "green deal", que se resume em colocar mais dinheiro em empresas renováveis, mas que nos vão ficar dispendiosas, no final. Em terceiro lugar, os investimentos irão ser concedidos ao setor privado, pelo que o dinheiro de Bruxelas  se estenderá pela economia, e, pela sociedade, mas entregue a quem possui competências e capacidades para o aplicar mas de forma competitiva. Entretanto, o melhor indicador que a economia está a desligar-se é o desemprego que está a subir em flecha, ameaçando o país com a maior crise social de sempre. O PRR foi acordado no verão de 2020, quando se receava que o impacto da crise económica nas finanças públicas, levasse a uma nova crise da dívida soberana. Na Europa, a prioridade da política económica, não é bem o crescimento, nem o dever de combater recessões. O objetivo não é estimular a economia, mas sim aliviar o Estado. Tudo nas políticas económicas europeias se submete à enorme prioridade: lutar contra o peso da dívida pública.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

O MUNDO GLOBALIZADO

 Hoje em dia, ouvir as notícias pode levar-nos a pensar se algum de nós, terá realmente meios para envelhecer em sossego, ou se alguma vez haverá empregos suficientes para todos.  Os "Homens de Davos" podem dar-nos a todos um pouco de poder. Podemos exercê-lo através de pequenas decisões que todos tomamos no dia a dia., estejamos onde estivermos no mundo.. Dennis passou mais de uma década a travar uma dupla batalha  contra o nebuloso mundo da finança. Em 1998, Dennis conseguiu um novo emprego o escritório do Northern Rock, um banco britânico. O Northern Rock tornou-se sinónimo de crise financeira de 2008. A quem se deve atribui culpas por tamanha catástrofe? A culpa pela crise que destruiu poupanças de muita gente pode estar noutros locais. Podemos olhar para os banqueiros, que esqueceram as regras e se basearam em fundos de solidez duvidosa para aumentar os seus lucros. Ou podemos olhar, para os emprestadores americanos que aprovaram créditos a consumidores que não tinham condições para os pagar.. Para compreendermos o que sucedeu a Dennis e a outros, cuja prosperidade sofram um grande agravamento em 2008, temos de ver como funciona a economia global. O mundo está a ficar simultaneamente mais pequeno e mais complexo. Sete mil milhões de humanos, vivem e trabalham nesta Terra, e todos procuram os mesmos bens, que existem num número limitado, sejam eles comida, petróleo ou telemóveis. É um sistema cada vez mais interligado, no qual um banqueiro de Washington ou Berlim, pode fazer com que os pensionistas na Grécia passem fome, ou com que os jovens deixem as suas famílias para atravessar a Africa subsariana, à procura de vida melhor. Esta concentração do mundo ou globalização, surge muitas vezes como uma enorme força unipessoal, que não podemos escapar. Podemos pensar na globalização, como sendo o conjunto de todas as transações , interações, compras, e acordos que designamos  por comércio. Ao longo do tempo, o fluxo de rendimentos gerado por estas relações de comércio é acumulado sob a forma de riqueza. A economia e as forças nela contidas, são representadas pelas ações de indivíduos- seja em Davos , ou num mercado de rua em Calcutá- de formas que não são necessariamente as que eles pretendiam. Contudo,  uma coisa é certa: todos estamos submetidos a essas forças, e, sejamos ou não capazes de as controlar, é importante sabermos, como funcionam, e de que forma afetam as nossas vidas. Em Londres e Nova Iorque, em Paris e Milão, e até mesmo em Pequim, a semana da moda, representa um grande negocio, mas já não podemos falar de orçamentos de alta costura, para adquirirmos os mais atraentes modelos de roupa. Em poucas semanas, os mesmos desenhos vão surgir nas prateleiras de lojas locais, como da Primark, ou da Zara. Muitas roupas são feitas no Extremo Oriente. Quando compramos roupas em retalhistas como estes, não nos limitamos a abrandar a nossa necessidade de andar na moda. A transação faz de nós, parte de uma história global muito maior. Ao procurarmos preços baixos, e as últimas tendências, estamos a transferir rendimentos para o outro lado do mundo, para benefícios dos outros. Não há dúvida que os fabricantes de roupas se estão a aproveitar do trabalho barato na Ásia.  Mas ao adquirirmos esses bens ,podemos ter contribuído para as forças, que deram origem a uma crise financeira no nosso país, prejudicando as nossas vidas. Como o constante fluxo internacional de pessoas, dinheiro ou ideias, pode ser difícil conseguir fazer sentido de como as coisas se ajustam. Imaginemos os milhares de transações que ocorrem a cada dia- uma dona de casa nos EUA ou na Nigéria a comprar mercearias, uma executiva francesa a depositar os seus ganhos num banco, um pai indiano a pagar o casamento da filha, ou um australiano a comprar cerveja num churrasco. Quando vamos às compras, se não estivermos nos EUA, o mais provável é que não estejamos a pagar em dólares. O dólar é o rosto do poderio dos EUA. O dólar é mais do que um símbolo de poder e influência: é também um dos mais confiáveis tesouros de valor em todo o mundo. Trabalhadores humanitários podem chegar à conclusão de que acionar com dólares, é a forma mais rápida de conseguir equipamento, para enfrentar uma crise humanitária em áreas de grande instabilidade. O dólar é o rosto da estabilidade financeira global; a fundação da nossa sobrevivência. É a linguagem financeira em que se baseiam as nossas vidas, sejam quais forem as notas e moedas que usamos todos os dias. Podemos ver o dólar como agente da globalização. A força do dólar baseia-se na confiança. Sem essa confiança, a sociedade entraria em colapso. Outras moedas, para além do dólar: euros, rúpias e libras; por exemplo vão entrar na história. Ao seguirmos o nosso dinheiro, à medida que que ele muda de mãos, seja física ou eletronicamente, podemos lançar alguma luz, sobre a sequência de transações que marcam todos os aspetos do nosso mundo., quem detém o poder e de que forma isso nos afeta a todos. Como consegue a China produzir bens de baixo custo, e quem beneficia desse facto? Onde é que a China acumula o seu dinheiro? Por vezes nos mais prováveis dos sítios, incluindo na Nigéria. Na Nigéria poderemos assistir à forma como a riqueza do mundo pode passar por alguns países, sem beneficiar a maior parte dos seus habitantes. A Índia é de entre todas as grandes economias, a que apresenta mais rápido crescimento. O petróleo é crucial para a nossa sobrevivência e para a supremacia do dólar. Da Rússia, dirigimo-nos a Berlim no coração da União Europeia. O que faz uma união monetária funcionar? Porque é que o euro não se sobrepõe ao dólar? Terá o Reino Unido razão para voltar as costas à União Europeia? Porque é que estamos na maior crise de sempre?. O dólar cumpriu uma viagem que revela como funciona realmente a economia global. Adam Smith investigou o fabrico de um alfinete, num processo que envolvia dezoito fazes diferentes. Defendeu a ideia de     que, se um único trabalhador tivesse de ciar um alfinete do princípio ao fim, não conseguiria produzir muitos exemplares. Contudo, atribui cada fase a um trabalhador especializado diferente, tornava o processo mais eficiente. Podiam ser fabricados muitos mais, e portanto ganhar mais. Se fossem feitos muitos mais, do que os necessários para abastecer o mercado local, o excesso podia ser tocado por outros bens. Assim nasceu a teoria da especialização. Como é que isto explica aquilo que um determinado país escolha para se especializar, e até que ponto se envolve em trocas comerciais. O trabalho de Smith e de um dos seus seguidores David Ricardo, examinou em detalhe estas questões. Tudo se resume a isto: um país que realiza trocas de forma a obter produtos que pode conseguir noutro país, de forma mais barata, tem melhores resultados, do que se tiver produzido esses bens por si mesmo. Deve produzir os bens, em relação aos quais detém "uma vantagem absoluta". Se consegue produzir de tudo de forma mais eficiente, pode ainda assim beneficiar -se, se se concentrar nos bens em que é relativamente melhor, ou seja, em que detém uma vantagem comparativa, Tudo depende do custo de produzir uma coisa, num dado local. O que é que influencia esse custo? Existem inúmeros fatores em jogo; a disponibilidade de recursos naturais, o clima, o território, a força laboral, os salários, as rendas, os regulamentos, as competências, a maquinaria e os transporte. A especialização e o comércio livre, querem dizer mais bens e menores custos. Estes baixos custos, traduzem-se m preços de venda mais baratos. Preços mais baixos, traduzem-se num custo de vida inferior. Uma vez que a inflação é igual ao ritmo de subida do custo de vida, também ela é menor. Manter a inflação sob controlo, e assegurar a estabilidade económica e financeira, é a tarefa principal  dos bancos centrais, que são responsáveis pela gestão do capital disponível, pelas taxas de juro e, portanto pela economia global dos seus respetivos países. Em teoria, a globalização e comércio livre, são do interesse dos consumidores e dos países, no seu conjunto. O que é bom para o mundo no seu todo, não é necessariamente bom para a economia local. Para termos um exemplo claro das barreiras do comércio, vejamos o que se passou com a Grande Depressão americana. Nos últimos anos 20 do século passado, a economia tinha tido um crescimento espetacular: os gastos, a produção e o investimento, no mercado bolsista, cresceram demasiado e muito depressa. No crash bolsista de 1929, as ações de Wall Street, perderam 1/3 do seu valor numa semana, afastando a confiança do consumidor, a riqueza e o consumo. As empresas despediram milhares de trabalhadores. O que devia ter sido uma curta recessão, uma alteração das fortunas da economia, foi acentuado, quando as autoridades não responderam imediatamente com a injeção de dinheiro, para segurar o sistema financeiro. O legado da crise financeira inclui mais regulação, e mais desigualdade. Os ganhos do QE, não beneficiaram o conjunto da população. Foi a dependência de dinheiro fácil e barato, que criou o caos. A bolha de crédito rebentou, mas os governos não puderam permitir que ela voltasse a aumentar. Uma década depois da crise, as cicatrizes são bem evidentes. O nível de vida das famílias atingiu novos recordes. Por toda a América, surgiram inúmeras formas de crédito sem garantias . As baixas taxas de juro, usadas para remediar a ressaca da crise levaram a mais do mesmo. No início de 2018, as taxas de juro permaneciam abaixo dos 2 por cento, muito abaixo dos níveis de antes da crise. Mas estão a subir.. As alterações nos gastos dos consumidores americanos ecoam por todo o mundo, e têm impactos nos lucros e rendimentos através da presença de dólares no comercio global. Para lá de uma grande crise temos de continuar a produzir se queremos melhorar as nossas vidas e manter a economia em boas condições, para consegui concretizar a magia da produtividade e alcançar um melhor nível de vida no futuro.  A dependência que os consumidores têm do crédito, não é novidade para os bancos centrais. É por isso que se apoiam na política monetária. Mas esse comportamentos dos consumidores tem de ser compreendido em todos os detalhes de forma a saber que alterações são necessárias para se manter a economia no estado que se deseja. Os economistas também reconhecem que os hábitos dos consumidores americanos representam um sexto do PIB mundial, é mais um tsunami. circular. É uma onda feita de dólares, que avança em torno do globo, passando do consumidor ao produtor, e volta ao início.. Hoje em dia, muitos consumidores do Ocidente pedem crédito para gastar, e muitas vezes aquilo em que usam o dinheiro são importações baratas. O crédito barato, é financiado, em parte, pelo dinheiro que a China e outros emprestam aos EUA.. Toda a gente empresta na crença de que as coisas vão sempre continuar a melhorar, que os lucros vão sempre crescer, que a produtividade vai continuar a funcionar. Por agora, a história, o comércio, a politica e um sistema financeiro fortemente enraizado garantem que é o dólar que domina, estejamos onde estivermos no mundo.





quinta-feira, 11 de junho de 2020

A CRISE ATUAL

O " Grande Confinamento" colocou a economia no congelador. Com toda a gente fechada em casa, o desafio era evitar ao máximo os despedimentos e as falências. Agora, Portugal prepara -se para uma segunda fase em que volta a ligar o interruptor da atividade económica. Porém, as empresas e os consumidores não se ligam só com um toque no botão.. O medo do vírus, as limitações ao turismo e os constrangimentos orçamentais, deverão impedir a aceleração de uma economia que está a funcionar com menos motores. Como poderá o Governo pô-la a voar?
Pode parecer paradoxal, mas o que vivemos até agora, foi a parte simples: mandar fechar. As medidas de apoio, apesar de dispendiosas, tinham como principal objetivo, assegurar a tesouraria das empresas no curto prazo. Daqui para a frente, as indicações serão mais problemáticas, e, as políticas económicas mais complexas de idealizar e de chegarem ao terreno. Vamos avançar, a regressar aos escritórios, mas devagar e à vez. Já podemos voltar a almoçar fora ,mas com dois metros de distância uns dos outros. Voltaremos ao cinema, mas só com lugares marcados e lotação limitada. Será, portanto, uma doença constante entre o desejo de voltar a ter uma economia que funcione, e, a necessidade de manter a pandemia controlada.
"O importante é que a nossa economia cresça o mais rápido possível", tendo como prioridades a transição energética, a economia circular, a redução das emissões de carbono, a digitalização e a reorientação da indústria, de forma a beneficiar da relocalização das grandes cadeias de valor.
A Comissão Europeia aponta um caminho semelhante para Portugal. "Será importante antecipar projetos de investimento público e promover o investimento privado através das reformas relevantes": considerou Bruxelas na avaliação da primavera, no âmbito do semestre europeu.
Além de investimentos para apoiar a inovação, a digitalização e a energia verde, é também sugerida uma aposta forte na ferrovia e noutras infraestruturas. As prioridades para fazer a economia avançar rumo a um crescimento sustentável, aparentam ser claras, mas executá-las será difícil, tanto ao nível de financiamento, como dos melhores instrumentos a utilizar.
O investimento público terá de ser sempre um pilar. No entanto, os últimos anos, mostram que esta é uma área em que o Governo tem tido dificuldades manifestas, falhando sempre por muito, as metas que foi inscrevendo nos orçamentos. Em 2019, por exemplo, conseguiu investir apenas 1,9% do PIB, longe dos 2,3%, programados no Orçamento do Estado. Portugal tem sido também um dos países europeus com o mais pequeno peso do investimento do Estado, na sua economia.
"Em qualquer recessão,  é normal que os governos tentem estabilizar o ciclo económico. Todos os países o fazem, e é o que tem sido feito nos últimos 100 anos nestas situações". "Alguns estudos para vários países da União Europeia ,mostram que o ganho agregado do investimento público é positivo".
Embora o investimento público seja mais vasto e diverso do que aquele que é feito via construção, é praticamente inevitável que esta, tenha um papel importante. O Governo parece achar que isso traz uma vantagem: a capacidade de absorver emprego que vai ser destruído em alguns setores , em especial a restauração e hotelaria.
Construção e restauração partilham algumas características. São dois setores de trabalho intensivo, com uma mão de obra pouco qualificada, alguma informalidade e salários baixos. Mas as diferenças também são óbvias; existe muita mão de obra feminina nos restaurantes, a qual obviamente, não fará uma transição para a construção civil. Não sei se as pessoas quererão fazê-lo, e ,se têm a capacidade técnica e psicológica para isso. Há quem aponte como possibilidades mais eficazes  para absorver a realização de inquéritos, os serviços de apoio social, ou certo tipo de atividades na saúde. A limpeza de florestas e uma renovada aposta na formação e na requalificação, também podem ser hipóteses.
Ricardo Paes Mamede, concorda que "não existe uma sobreposição perfeita entre trabalhadores dos setores mais afetados e o da construção" mas" há uma sobreposição parcial". Pela inevitável intensidade da mão de obra, é inevitável a construção ser ativada. E, apesar de talvez pensarmos automaticamente em betão, há opções mais sofisticadas. É fundamental que as apostas feitas, sejam no sentido de uma alteração estrutural, mais eficiência energética, transição digital e investimento na infraestrutura digital.
É pouco realista, pensar que as iniciativas do Governo são capazes de reduzir a totalidade do choque económico provocado pela Covid.-19, principalmente em setores mais expostos ao turismo, o qual continuará a sofrer com as limitações de movimento. É também pouco realista, esperar que as dificuldades dos restaurantes durem meia dúzia de meses, e, o mesmo para hotéis e algum comércio. A má notícia, é que o turismo, tem sido a principal força detrás do crescimento português nos últimos anos.
Mesmo se o resto do tecido empresarial recuperar totalmente- um grande "se"-, a economia terá de ser capaz de voar sem um dos seus motores.
É possível ,mas deverá ser uma viagem mais lenta. "A economia teve um motor nos últimos anos: o turismo. Ele agora desapareceu. Temos de encontrar outro. "Portugal não irá perder a sua vantagem competitiva, o sol, e as praias, mas a ideia de que será uma crise temporária que afetará apenas 2020-2021, não faz sentido. Onde iremos encontrar o crescimento?. Nas reconversões do têxtil e do calçado, a nanotecnologia no Porto e em Braga, os data centers da Covilhã, o cluster aeronáutico de Évora e o setor logístico. Estas reconversões não serão rápidas.
Como nos aguentaremos até lá?
Segundo Keynes, "no longo prazo", "estamos todos mortos". Se a situação não se repuser depressa, provavelmente acontecerá o mesmo do que na última crise. Não estou a ver uma situação fácil. O Estado é chamado a suprir falhas de rendimento, mas isto custa dinheiro. Se a economia não abrir rapidamente, esta situação poderá ser insustentável.
O problema é que essa abertura não está nas mãos de ninguém. Pode-se ligar o tal interruptor, mas lâmpadas só acendem quando querem, e, alguns fusíveis poderão estar queimados. Ora, é tão importante autorizar os restaurantes a abrirem, como é, as pessoas terem confiança para voltarem a um. Os nossos comportamentos estão diferentes e estamos a regressar à normalidade possível.
Restaurantes e hotéis continuam vazios pois do ponto de vista da saúde pública, corremos sérios riscos. É preciso abrir sem medo, com confiança. Mas essa confiança constrói-se, certificando-nos de que os passos que agora damos são seguros, e, que nos permitem avaliar que a reposição da nossa vida coletiva se faz com o controlo da doença.
Além das prioridades económicas estratégicas de longo prazo, nos primeiros tempos de relançamento, poderão ser direcionadas ajudas, para os setores mais afetados ,de forma a incentivar a confiança e proteger, na medida do possível, empregos e empresas.
O Governo admite reforçar o capital de algumas empresas, sem dificuldade e apoiar, a fundo perdido, a reconversão de empresas, com o objetivo de obedecer a novas regras de saúde e de segurança.
Os restaurantes, por exemplo, poderão ter de reestruturar a própria natureza do seu negócio, virando-se mais para o take-away, ou para entregas ao domicílio, ou há uma reconversão, ou alguns restaurantes não irão sobreviver. Portugal parte para esta batalha, ainda com outro handicap, além da dependência turística. Embora tenha atingido, um excedente orçamental em 2019, não reduziu muito a sua dívida pública, que continua a ser uma das mais elevadas da Europa. Terminou o ano passado, em 117% do PIB. O FMI estima que o rácio atinja os 135%, no final de 2020 um máximo histórico.
Com receio de uma repetição do filme da crise anterior, esse endividamento atua como um limite de velocidade na ambição de medidas orçamentais do Governo para lidar com a Covid. O complicado não parece ser delinear o plano de relançamento, mas sim, financiá-lo.
O nível de agressividade dessa intervenção estará muto dependente daquilo que acontecer na União Europeia. Um dos motivos para ainda não sabermos muito sobre os planos do Governo para a reabertura da Economia, é a indefinição na frente comunitária.
Embora já tenham presenciado a atuação rápida e significativa do BCE, a criação de um seguro de saúde de apoio ao emprego e a regulamentação do acesso a fundos do Mecanismo Europeu de Estabilidade, os Estados-membros, estão nesta altura a negociar um fundo de recuperação que servirá para estimular uma retoma simétrica que consiga igualar os pontos de partida, com que os diferentes países iniciam o esforço de recuperação. Os líderes das maiores economias do euro, dão sinais de quererem evitar uma nova crise existencial na UE, que facilmente se tornaria combustível para populismos e aumentaria o risco de desintegração. 
Temos de decidir se a UE é um projeto de mercado, ou um projeto político. Acredito que é um projeto político e nós precisamos de transferências e de solidariedade financeira.
Angela Merkel, defendeu também a necessidade de se agir no sentido de tirar a Europa desta crise. Porém, mesmo com a aparente vontade de os líderes europeus encontrarem soluções para relançar a economia dos países da UE, o processo de decisão é complexo.
A estratégia de relançamento terá em conta as prioridades e a diminuição do conjunto financeiro que o Governo terá à disposição. Mas, para ser eficaz, tem de se pensar também nas melhores formas de fazer chegar esses impulsos às empresas, que terão de ser a linha da frente na retoma.
A capacidade de investimento está a ficar comprometida, dificultando a regeneração económica. Se, numa primeira fase, muitas empresas sobreviverem com as medidas de liquidez, como as moratórias nos créditos e o adiamento no pagamento de impostos e as contribuições, teme-se que o que irá  acontecer, quando essas medidas saírem do terreno. Por mais apoios que possam vir da Europa, os recursos do Estado, serão sempre limitados, por uma crise desta dimensão. Depois de, na primeira fase, a estratégia ter sido a de disponibilizar liquidez a quase todos, no relançamento, deve-se evitar a todo o custo, criar empresas- zombies- que sobreviviam apenas porque têm apenas apoios públicos.
Numa estratégia de relançamento, o Estado tem de se preparar para uma onda gigante de reorganização e de liquidações de empresas que se aproxima rapidamente.
A rapidez e a eficiência em resolver esses processos, serão essenciais na recuperação da economia e na realocação de recursos e de capital humano aos setores com oportunidades de crescimento. A destruição provocada pela pandemia, foi brusca, e há empresas que não conseguem evitar a tal queda no precipício.
A missão é fazer com que a economia não siga pelo mesmo caminho. A tarefa não é fácil, porque há motores que não respondem, e, muito provavelmente, não será tão cedo que  conseguiremos regressar à velocidade de cruzeiro.
Até que a ciência consiga dar resposta que trave o medo relativamente ao vírus, teremos de continuar com momentos de emergência para impedir nova queda a pique da economia. E isso, requer ventos favoráveis vindos da União Europeia.
A paralisação das exportações atingiu quase todos os setores em Portugal. Com o confinamento, o valor exportado pelo País teve uma quebra de 17,1% na primeira metade do ano, em relação ao mesmo período de 2019. Desceu de 30,4 milhões para 25,2 mil milhões de euros, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
A crise atingiu fortemente setores muito relevantes para a economia nacional, criando mais pressão sobre o PIB  nacional. As de produtos do setor automóvel para outros mercados, passaram a 17% mais de 1,5 mil milhões de euros, ma primeira metade do ano. E a globalização da atividade mundial resultou numa quebra de 28%, quase  460 milhões nas exportações de produtos petrolíferos.
Mas nem todos os bens" made" in Portugal ficaram à espera de comprador..
Dada a natureza da crise que atravessamos, que os produtos farmacêuticos tendam a ser os bens portugueses com maior aumento da procura externa.. Neste caso, as exportações subiram mais de 20% para 647,4 milhões de euros, segundo os dados do INE.
A Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (APIFARMA), não recolhe dados sobre os produtos específicos em que  mais aumentou o volume de exportação, sendo os maiores destinos os bens produzidos pelas farmacêuticas portuguesas, os mercados
 europeu e americano. E, afirma que que "a internacionalização e a exportação têm sido dois grandes desafios da indústria farmacêutica de base produtiva nacional, nos últimos anos. Refere ainda que "as empresas portuguesas são hoje reconhecidas em todo o mundo, como fornecedores de excelência de produtos de serviço de saúde"., A associação salienta o impacto que o projeto Pharma Portugal criado em 2005 entre algumas empresas do setor, o Infarmed e a AICEP, teve na "estratégia de inovação e competitividade, para reforçar a capacidade de internacionalização".
Mas não foi apenas o setor farmacêutico a subir vendas para o exterior. Numa crise em que houve destruição de cadeias de abastecimento e se colocou à prova a capacidade dos países assegurarem o fornecimento de produtos essenciais, também os bens agrícolas de origem animal foram mais procurados. Os produtos mais exportados em valor são os pequenos frutos, principalmente a framboesa, o tomate processado, a laranja e a pera.
O setor exportou para 133 países, principalmente para o mercado da União Europeia, que absorveu 78% do valor. Na UE, os principais mercados são Espanha França, Holanda e Alemanha. entre os países terceiros, destacando o Reino Unido , Brasil e Angola. Toda a cadeia agroalimentar, não parou e isso foi fundamental para conseguirmos manter um bom nível  das nossas exportações, embora com menor crescimento, no segundo trimestre. Também, os consumidores europeus mantiveram uma elevada procura de produtos frescos e saudáveis, a fim de mantermos uma dieta equilibrada. Também os bens alimentares acompanham este movimento da subida das exportações.
  Esse esforço de diversificação foi importante, já que muitos dos mercados mais próximos e tradicionais , foram também atingidos por confinamentos rigorosos. As exportações para Espanha, o maior parceiro comercial do País, caíram mais de 16%, correspondente a 1,25 mil milhões de euros, no primeiro semestre. Para a Alemanha, a quebra foi de quase 700milhões de euros, e, para França desceram mais de 600milhões.. Apesar de os mercados mais importantes para a economia nacional, terem travado a fundo, houve geografias onde as empresas portuguesas conseguiram aumentar as vendas. E, se apenas alguns desses destinos estão na Europa, caso da Irlanda que comprou 43,9 milhões a Portugal, outros ficaram em paragens mais remotas.
As exportações para Taiwan, Japão e Coreia do Sul aumentaram mis de 30 % no primeiro semestre, face ao mesmo período do ano anterior. Em valores nominais, as subidas para esses mercados oscilaram entre 20milhões e 30 milhões de euros. O volume pode ainda não ser  muito significativo, mas é um reflexo de aposta cada vez mais forte que alguns setores estão ainda a fazer em mercados da UE. É  de referir que, apesar do Velho Continente ser o maior destino das frutas e legumes e flores produzidas em Portugal, os mercados asiáticos, nomeadamente a China, a Índia e a Indonésia, são mesmo mercados, nos quais pretendemos continuar a apostar nos próximos anos. Além daqueles, as exportações para a Dinamarca e Israel, também não quebraram. Segundo o INE, as perspetivas dos empresários portugueses, relativas às exportações de 2020, não são muito animadoras. Para o total dos anos, a expetativa é a de que desçam 13% devido aos efeitos associados ao Covid. De acordo com o INE, 14,2%  das empresas pretendem alterar a sua estratégia de produção e de exportação. Entre as principais táticas para mitigar o efeito da crise, estão a diversificação de mercados de destino, o recentrar das exportações nos mercados da UE ou a mudança de fornecedores. Irão continuar a surgir mais oportunidades de exportação e internacionalização para as empresas portuguesas. A estratégia passa agora por consolidar os clientes existentes e maximizar os contactos efetuados nos últimos anos, nas feiras internacionais e de prospeção. Num contexto de elevada incerteza, quanto à retoma da atividade económica, fora da UE, alguns setores da economia portuguesa, podem se ativados, pelo menos temporariamente, para abastecer os mercados da UE, substituindo os respetivos fornecedores de origem extracomunitária. Este fenómeno é conhecido com um efeito de desvio de comércio e cria-se uma oportunidade importante para que as empresas portuguesas, absorvam competências, no curto prazo, ganhem escala e consigam afirmar-se no contexto europeu, mo médio e longo prazo. O GEE, defende que, apesar do País não ser a escolha mais óbvia, apresenta alguma especialização e capacidade instaladas, que lhe podem permitir, com alguma prospeção de mercado, e aproveitar algumas oportunidades de exportação, por via do comércio. Nesse conjunto, estão a indústria alimentar e de bebidas, no mobiliário, máquinas e equipamentos, agricultura , pescas e silvicultura. No entanto, essas eventuais oportunidades, estarão dependentes do grau de adaptabilidade das linhas de produção na indústria, da celeridade na entrega das encomendas, incluindo a escolha de parceiros logísticos, da criação de sinergias, da criação de sinergias industriais, para garantir escala suficiente, capaz de responder ao desafio da procura externa, acrescida, mas também da perceção de risco, associado ao país e à estabilidade da cadeia de produção. A recuperação esperada das exportações é mais lenta do que a observada na sequência dos recursos anteriores, o que reflete as tensões comerciais existentes, e, sobretudo o comportamento das exportações de turismo, cujo peso aumentou significativamente, nos últimos anos, e que deverão ser particularmente afetadas, e de forma persistente pela crise pandémica, segundo o Banco de Portugal, no último Boletim Económico. A crise económica e social, em Portugal, irá agravar-se, quando o Estado tiver de começar a travar as ajudas ao rendimento e a aumentar a carga fiscal, em virtude de uma situação das finanças públicas, em que os números hoje prevalecentes, não são sustentáveis. Ainda se acentuará mais , quando o Banco Central Europeu, começar a normalizar a sua política monetária, impondo alguns tipos de subida de taxas de juro, arrastando em conformidade as taxas de juro a que os Estados da área do euro, têm vindo a financiar-se nos mercados (taxas negativas nos prazos mais curtos). É absolutamente crítico neste processo que Portugal, acompanhando a subida das taxas de juro de referência, impostos aos países da mais baixo risco, não deixe aumentar o nosso prémio de risco, pela condução de qualquer política financeira que agrave a perceção dos mercados, no que se refere à solvabilidade do Estado Português.. foi o agravamento deste prémio de risco e a posição em que nos deixamos isolar, de um défice público, que chegou a superar os 11% do PIB, que determinou a crise financeira do nosso país em 2011 e anos seguintes. A crise económica e social ainda se agravará mais, quando começarem a ser levantadas as moratórias de que hoje beneficia uma boa parte do crédito bancário a empresas e a particulares, pois Portugal é o terceiro  Estado -membro, com maior percentagem de crédito bancário protegido por moratórias. Quando se regressar a algum tipo de normalidade em matéria de rendas e estabelecimentos comerciais, pondo termo à quase normalização dos centos comerciais, decretada no início da pandemia, a crise económica e social, ainda se acentuará mais. Com resiliência, capacidade e superação, Portugal irá vencer a crise.













segunda-feira, 25 de maio de 2020

QUE FUTURO TEM O FUTURO?

A manter tudo ma mesma- business as usual- o futuro não tem futuro. Trata -se de olhar para a realidade. Sabemos hoje que o mesmo sistema que produziu coisas tão importantes- como a evolução tecnológica e científica, o aumento da esperança de de vida e de bem-estar para tanta gente e reduzir o número de pessoas em pobreza extrema entrou num inadequado descontrolo coercivo, passando a criar mais problemas do que os consegue resolver. A crise ambiental global, associada ao acentuar das desigualdades sociais, ameaçam hoje a paz e a sobrevivência da Humanidade no planeta.
Se os acordos do GATT de 1994, que criaram a Organização Mundial do Comércio (OMC), tivessem integrado o respeito pelas condições ambientais e humanas, na regulação do comércio internacional, a concorrência teria sido mais leal e a globalização teria garantido alguma justiça e equilíbrio. É o que terá de acontecer agora.
Não será, pois, com mais do mesmo que o futuro poderá ter futuro. Mas mudar agora é principalmente mudar o quê? Comecemos pela descarbonização e pela energia. A queima de combustíveis fósseis, terá mesmo de declinar de forma súbita, na linha de que propõe o Pacto Ecológico Europeu.
As grandes crises de saúde pública, geradas pela poluição atmosférica, e que nos tornam mais vulneráveis, incluindo o Covid -19, ficaram agora evidentes e obrigarão a mudanças rápidas, mesmo nos países mais renitentes.
Milão e outras cidades europeias, já se estão a organizar nesse sentido, criando mais espaços verdes, livres de automóveis e desincentivando o trânsito motorizado. A Lisboa Capital Verde, começou a fazê-lo e seguramente irá fazê-lo muito mais.
Hoje  já é possível diversificar e aumentar as fontes de energia limpa, permitindo aos cidadãos viver de uma forma elaboradamente mais simples, sustentável e mais justa.
Se isso acontecer, assistiremos num futuro relativamente próximo, a mudanças visíveis a vários níveis das nossas vidas. Desde logo, nos sistemas de mobilidade com a sua eletrificação pública e privada, incluindo os pesados de mercadorias e navios, os que, ao contrário da aviação, se encontram já em processo de transição energética. Além disto, em áreas crescentes e, em número cada vez maior de habitantes ou comunidades residenciais, a gestão da energia limpa- integrando produção e consumo em redes inteligentes- vai tornar-se frequente, pois a lei já o permite e muitas autarquias o irão adotar . Portugal, sendo o país europeu com maior úmero de horas solares por ano, irá asim deixar de ser um dos países onde as populações menos usufruem de painéis solares térmicos e fotovoltaicos, como agora acontece.
E nem é preciso inventar nada. Basta agir politicamente a tempo e horas no momento certo: criar incentivos fiscais, não para os fósseis, mas para os renováveis e a sua expansão descentralizada a toda a sociedade; combater seriamente a pobreza energética, preparando as habitações para resistirem às condições extremas, a que todos vamos estar sujeitos com o aumento da frequência e intensidade das ondas de calor e frio.
Eficiência energética para todos, significará poupança certa da fatura energética das famílias e do país e melhor saúde pública.
Será uma oportunidade para multiplicar empregos e avançar com a requalificação a sério, e, não apenas do parque habitacional, cujo isolamento térmico será fundamental para resistir a novas crises pandémicas e climáticas.
O documento europeu Fundo da Transição Justa que determina os futuros investimentos, no quadro da União Europeia terá de ser aplicado nesta grande tarefa.
Mesmo que consigamos" baixar a curva " das emissões, teremos sem dúvida de nos adaptar a muitas coisas, pois as alterações climáticas, já nos estão a trazer novas crises. O país tem pontos críticos de alta vulnerabilidade.
No litoral, será preciso inverter totalmente a forma da sua ocupação, suspendendo as absurdas pretensões urbanísticas para as zonas costeiras que ainda hoje se assinalam, por vezes em dunas primárias como em Matosinhos ou em Troía, isto é: são apenas dois exemplos. Mas também poderíamos falar no Algarve, ou até na frente Tejo em Lisboa e Oeiras, agravando o risco ambiental de desfigurando as cidades. 
Há também uma extrema vulnerabilidade aos incêndios florestais que, para não se tornarem devastadores obrigarão a a políticas de ordenamento florestal e territorial drásticas.
Teremos finalmente de completar o quadro, instalar vastos dispositivos de deteção e combate precoce, e, mobilizar civicamente o país articulando as Forças Armadas, com outras estruturas(bombeiros, polícias e criando até algo, como um novo serviço cívico educativo.
A terceira grande vulnerabilidade são as secas e avanço da desertificação a sul e interior, a que se associa o problema da redução dos caudais dos rios internacionais e a sua falta de monotorização.
A revisão da Convenção de Albufeira será inevitável, tal como a elaboração dos planos de seca, e a contenção dos perímetros de rega e usos desadequados de água no Alqueva, no Mira e noutros. No curto prazo, serão criadas várias fábricas de água para a sua reutilização, tanto em cidades, como em zonas agrícolas.
A agricultura terá um papel muito destacado no nosso futuro sustentável, multiplicando os sistemas de proteção, integrada e biológica em cadeias curtas entre produção e consumo- "do prato ao prado" como
propõe do Pacto Ecolóogico.
Todas estas grandes mudanças originarão também uma mudança na valorização do território e das paisagens.
As áreas protegidas e os ecossistemas nacionais, são o nosso garante de coisas vitais - da saúde pública à biodiversidade, aos recursos vitais, como a água, solo e ar.
O futuro do terreno não irá assentar na insustentabilidade, e Portugal terá ótimos recursos para turismos muito diferentes, como por exemplo , de saúde, termal, ecológico, bem -estar, reabilitação, estimulando a investigação científica.
Tudo isto, trará não só novos e sobretudo melhores empregos. Grandes mudanças irão, pois atravessar os nossos hábitos, e, tal como sabemos experiências anteriores, num instante se tornam no novo normal
Foi assim que nos habituamos aos telemóveis, à inovação led,  abandonar os sacos de plástico, ao teletrabalho...
A economia circular irá alterar positivamente a nossa ideia arcaica de "lixo" - se estes fossem todos utilizados, só a UE, pouparia 355 dos recursos naturais que usa. Acima de tudo, os plásticos não só se limitarão ao indispensável, como darão origem a sofisticadas indústrias de grande input tecnológico e científico para a sua transformação.
Em todos estes futuros desejáveis e possíveis, cinco coisas estarão transversalmente presentes.
Uma é o papel da ciência e do conhecimento, aplicado e fundamental) que terá de ser muito reforçado e independente, como se viu nesta pandemia.
Outra é o papel dos jovens que já mostraram o seu potencial dinâmico e manterão a sua voz, bem audível e ação visível- veja -se as centenas de jovens que já estão mobilizados para ajudar a continuar a "Grande Muralha Verde" de África, plantando um milhão de árvores, para impedir que o deserto  do Sara avance. Um terceiro aspeto será o empenho coletivo no combate às alterações climáticas e à ruína da biodiversidade, pois como também se vive com a pandemia, prevenir é melhor do que enfrentar com consequências. que pode ser destruidoras. Um quatro aspeto, é o da equidade e da justiça, combate às desigualdades e à pobreza Por fim, o futuro não poderá escapar a uma decisão inevitável; acabar com a batota criminosa dos offshores, que inviabiliza qualquer projeto de sustentabilidade e civilização.
Portugal é o 3º país da UE, com mais dinheiro em offshores, seja de formas privadas, seja de empresas.
Nenhum país sobrevive a ser roubado por dentro.
De resto, no futuro, a Europa que alguns quiseram ver destruída, irá conseguir "pôr o homem na lua "com o Pacto Ecológico e Fundo de Transição Justa, e a harmonização da política fiscal entre os países, para acabar com a concorrência desleal e com os vistos gold. Na Europa e no mundo, um novo Estado social, será reconhecido, não como um abuso sobre a iniciativa privada, mas como uma expressão de civilização.
Os Governos, autarquias, ONG e empresas, irão movimentar-se para se conseguir atingir as metas dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, lançados pela ONU,até 2030. Iremos viajar menos, teltrabalhar mais, criar novas rotinas de mobilidade, de produção e de consumo. A Europa encontrará um novo Green Deal, um fator de unidade e prosperidade não só para o estado Atlântico, mas também para o Sul Global. O futuro do futuro é com todos, se excluir ninguém.



terça-feira, 19 de maio de 2020

A ERA DA DESGLOBALIZAÇÃO

A Comissão Europeia prepara-se para uma redefinição do conceito de globalização. E, para muitas empresas ficou evidente de que depender da produção de um bem na outra parte do mundo, para manter a atividade é um sistema que pode ter falhas. "Esta crise, veio de facto, expor a excessiva dependência que temos de outras geografias e do fornecimento de bens, até de alguns serviços, que foram deslocalizados nos últimos anos para outras zonas geográficas, nomeadamente para a Ásia.
O Presidente da Confederação Empresarial de Portugal, defende que "a União Europeia deve implementar uma reindustrialização estratégica, dando a cada Estado - membro, de acordo com as suas especialidades e desenvolvimento, as suas competências naturais, produções próprias, de forma a trocar importações por fabrico interno". Nas últimas décadas, o processo de globalização  levou à desindustrialização de muitos países europeus e mesmo dos EUA. Criaram -se cadeias de valor , em que o Sol não se põe, e, muito complexas.
A China e outros países asiáticos tornaram-se numa espécie de loja do mundo. Numa situação de crise, em que fiquem paralisadas algumas regiões asiáticas ou os transportes de mercadorias, basta faltar essa peça na engrenagem para muitas empresas pararem.
Aliás, ainda antes de a pandemia chegar à Europa, já não havia uma preocupação, em relação ao impacto que o confinamento na China iria criar no comércio e na economia internacional. "Se determinado componente é produzido num país e se esse estiver numa crise, toda a cadeia para e isso levará as empresas a regressarem a cadeias de valor regionais"
Além da questão das cadeias de valor, a Europa e também os EUA, tornaram-se dependentes da China, para conseguirem ter acesso a bens essenciais.
O exemplo mais extremo é a corrida que existe entre os países ocidentais para convencerem fornecedores chineses a venderem -lhes material e equipamentos médicos essenciais no combate à pandemia. Agora, a regra para grande parte dos países ocidentais poderá passar a  trazer mais atividade industrial para dentro de portas, "especialmente em áreas críticas e essenciais, como as farmacêuticas, defesa, infraestruturas de saúde e tecnologia"sublinha Robin Parbrook, gestor da Schroderes, numa nota aos investidores.
Bruxelas tem dado sinais fortes de que irá seguir esse caminho. Depois de a China ter ganho influência em empresas estratégicas como a EDP e a REN por exemplo, desta vez a Comissão Europeia quer impedir que o Estado Chinês faça o mesmo. Margrethe Vestager, vice -presidente da Comissão Europeia e que tem o pelouro da concorrência, deu luz verde aos governos europeus para entrarem no capital das empresas, de forma a impedirem compras a preços de saldo, por parte de entidades relacionadas com Pequim.
Apesar do caminho da desglobalização e da reindustrialização, se ter tornado mais evidente, por causa da pandemia, esse processo já tem vindo a ganhar forma mesmo antes da Covid . "Esta ideia não é nova, nem é apenas consequência desta crise. Recorde -se que uma das primeiras linhas políticas desta nova Comissão Europeia, foi precisamente  iniciar um processo de reindustrialização da Europa, assente nas valências de cada Estado -membro, com grande enfoque na inovação, na digitalização, e, sem esquecer as novas exigências que se colocam em termos de economia verde e da reutilização de recursos.
A pandemia pode agora fazer acelerar esse processo. Patrick Artus acredita que isso resulta numa maior reindustrialização em países como os EUA, o Reino Unido, a França e a Espanha. A consequência é que as economias mais exportadoras e que servem como as lojas do mundo, como a chinesa ou a alemã, tenham de se desindustrializar. No entanto, essa evolução não acontecerá de um dia para o ouro, e as cadeias globais não serão cortadas pela raiz. Obviamente não deixaremos de ter cadeias globais de abastecimento, nem tão pouco faço a apologia da implementação de medidas de cariz protecionista. Mas é essencial, diminuirmos a excessiva dependência que temos de algumas geografias, não só produzindo internamente , como diversificando as cadeias de abastecimento. O caminho é para uma globalização cada vez mais moderada. Para a economia Ptrick Artus antevê que isso possa trazer mais inflação, já que os produtos ficarão mais caros, por não serem fabricados em países com mão-de -obra barata. Outra das possíveis consequências, será um reequilíbrio das balanças comerciais e de pagamentos. A curto e médio prazos, vamos ficar com a ideia de que" tudo pode mudar". É difícil que essa incerteza acrescida não tenha condicionado comportamentos. Perante uma economia virada de cabeça para baixo, em poucas semanas, será que a"geração Covid" irá valorizar mais a segurança, nas suas várias dimensões do trabalho aos apoios sociais? A geração" Z" será capaz de dizer. Por cá, ao assistirem ao perigo do colapso do SNS, os jovens da geração "Z" exigirão o seu reforço?
Ao verem os pais sem rendimentos, ou eles próprios sem trabalho, como olharão para os vínculos precários - Portugal tem um dos níveis mais altos da Europa- e para as condições de trabalho na gig economy? Novos apoios sociais abrangentes, aumentarão a pressão por problemas mais generosos?
Nos EUA, onde temos mais dados e inquéritos, sabemos  que a geração "Z", nascida a partir dos meados dos anos 90, a dizer mais progressista do que a anterior, os millenials que, por sua vez, já tinham uma visão menos conservadora do que os pais e os avós. Setenta por cento dos "Z" norte -americanos acham que o governo deve fazer mais para solucionar os problemas dos país, em vez de deixar a sua resolução para empresas e indivíduos. Essa percentagem é de 49% entre os baby boomers nascidos no pós II Guerra Mundial. Esta atitude dos mais novos não surpreende, Serão eles, provavelmente, os mais prejudicados por esta crise, e, seja pela informalidade do vínculo, ou pela carreira curta, muitos deles, não  têm acesso a subsídio de desemprego. Num estudo sobre o Reino Unido, concluía -se que o grupo com maior perda de rendimentos durante a pandemia, corresponde a esta descrição: homens jovens a trabalhar numa pequena empresa. Tal como nos ensinou a crise anterior, gerações que passam por um grande choque económico, ficam com cicatrizes que podem nunca desaparecer. A cicatriz do medo e da falta de confiança no futuro, irá prejudicar a saúde psicológica das pessoas, especificamente nas famílias que têm menos recursos, e terá consequências drásticas para uma geração de crianças educadas em casa.